Poesia & Conto

Diminutivo de boazinha (crónica de um crime anunciado) | Rita Tormenta

Foto de Krišjānis Kazaks na Unsplash

A Zinha nunca chegou a acabar o secundário.

Conheceu o Tópê na paragem de autocarro. Naquela época havia uma única escola secundária na cidade e todos os miúdos das redondezas lá iam parar.

O Tópê era o filho da triste viuvinha, chamavam-lhe assim na aldeia, era a viúva do Acácio, o Acácio que dizia ser caixeiro viajante, mas que na verdade, e  toda gente sabia,  era contrabandista.

A vida corria-lhe de feição, até um dia a ganância ter falado mais alto e ter tentado passar a perna ao Túlio, neto do comandante e a guarda lhe ter dado caça como a um animal selvagem.

O Tópê cresceu com a mãe e as tias paternas, dinheiro nunca faltou, o Acácio teria aferrolhado durante anos, deixando centenas de notas escondidas por debaixo do soalho, à revelia de todas as justiças. 

As irmãs, solteironas e feias como a noite dos trovões, eram as fiéis guardiãs do segredo e mal o Acácio morreu, armaram-se em beneméritas e acolheram a viúva e o filho.

O Tópê era calado. A mãe e as tias desfaziam-se em cuidados e atenções. O rapaz lá foi crescendo, alimentado por uma desmedida noção da sua importância.

Uma das tias começou a chamar-lhe Bambino d´Oro, dizem que por conta de um futebolista famoso que seria parecido com ele.

Todas as suas vontades eram imediamente satisfeitas, se por acaso ao chegar da escola o almoço lhe não agradasse, bastaria um esgar de desaprovação para logo o exército das mulheres da casa tentar reparar a situação:

-Mas então o meu Bambino d´Oro não quer chispe com feijão? Pode-se fazer chicha com batatinha frita se quiseres…

E o rapaz não se fazia rogado, o que lhe viesse à ideia saía pela boca em forma de ordem.

-Pode ser mas com dois ovos bem fritos e pão para molhar na gema.

Chegada a altura, o rapaz lá seguiu para a secundária na cidade mais próxima.

O seu percurso académico não tinha, até então, sido digno de nota. Mas por se manter quieto, calado, aprumado e longe de brigas, os professores lá o foram glorificando como mocinho exemplar, só por não ter os joelhos esfolados e nunca ter pregado um par de murros a ninguém no pátio da escola, eram atributos suficientes para compensar as notas sofríveis que tirava nas provas.

Na cidade as coisas eram diferentes, os colegas e professores pouco ou nada sabiam sobre o Acácio, as Tias, a triste viuvinha,  Ali  o Tópê não era um Bambino d´’oro e o seu aprumo era motivo de chacota entre os outros rapazes.

-Olha lá pá, é a tua mãe que te veste antes de vires para a escola? Também te dá farinha 33 à boca?

Vindo de uma redoma era-lhe complicado perceber o sarcasmo dos colegas e de princípio respondeu afirmativamente, só não era farinha 33 era maizena com uma gema porque as tias diziam que as gemas faziam bem aos rapazes.

A chacota verbal mudou de tom e os rapazes começaram a persegui-lo à saída da escola.

Um dia, no caminho de terra batida entre o pavilhão e a paragem de autocarro, um grupo cercou-o e começou a empurrá-lo.

O Tópê virou-se a eles e mesmo sem nunca antes ter afinfado um murro fosse a quem fosse, aviou-os a todos sem pejo.

Na paragem de autocarro estavam, como todos os dias, os seis miúdos das aldeias vizinhas que apanhavam o autocarro da câmara. Entre eles estava a Zinha.

Ao vê-lo chegar, camisa rasgada, calças sujas, lábio inchado, os nós das mãos avermelhados e com resquícios de sangue, aproximou-se dele para o reconfortar:

-Deixa lá, eles amanhã escolhem outro para embirrar. Está a doer muito?

O Tópê encolheu os ombros e balbuciou qualquer coisa como:

-Se eles quiserem mais do mesmo é só pedirem.

A rapariga, julgando-o uma vítima resignada, deu-lhe a mão e um resto de bola de chaves que ainda tinha no saquinho de pano. 

No autocarro sentaram-se lado a lado. 

( Continua…)

 

Fotografia de Rita Tormenta. Autora da fotografia: Elisa Scarpa.

Rita Tormenta nasceu no Porto em 1970, cresceu em Lisboa e vive desde 2018 em Almada.

Formação académica superior na área do Teatro.

Já foi professora, estalajadeira, empregada de mesa, coordenadora de projectos, cantoneira digital, actriz e marionetista.

Tem filhos, uma gata, algumas plantas, alguns amigos e alguns ideais, nem sempre acerta na quantidade de água a dispensar a cada um.

Publicou o primeiro livro “Centrifugar angústias a 1600rpm” em 2022 e o Segundo “O Pequeníssimo livro de TI” em 2023, o terceiro chegará em 2025.

Neste momento mantém ( com Luís Filipe Sarmento) a tertúlia mensal “3 às 4as” em Almada, co-organiza ( com Elisa Scarpa) o evento Anual- AQUI VAI LIVRE- um lançamento literal e colectivo de livros, e tem paricipado desde a 1ª edição na Noite da Literatura Ibero-Americana (curadoria de Lauren Mendinueta).

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