3- Machado sobre Pombal: elogio ou crítica disfarçada de perdão?
Pois bem, Machado de Assis escreveu um importante grupo de sonetos em homenagem ao infame Sebastião José de Carvalho e Melo (conde de Oeiras, e marquês de Pombal), aquele que “saiu de quase nada a quase rei”, homem importante para a reconstrução de Lisboa após o terremoto de 1755 e que, para manter, com mão de ferro, a ordem e a lei (não necessariamente nessa ordem) após a famosa tentativa de regicídio contra D. José I, em 1758, e o arremedo de julgamento derivado do “processo dos Távoras, tanta revolta causou, e cujas consequências sanguinárias de vingança (travestida de justiça) o marquês fez sentir a seus inimigos, como ilustrado na famosa imagem:
O suplício coletivo é minuciosamente descrito no clássico livro de Camillo Castelo Branco (“Perfil do marquez de Pombal”)4748, com certa fidelidade ao acontecido: “depois de justiçados os réus, que bárbara e sacrilegamente quiseram tirar a vida a El-Rei Nosso Senhor que Deus guarde, como se vê nas estampas antecedentes, e expostos sobre as rodas, ultimamente foram queimados todos. Antônio Alvares Ferreira, vivo, e José Policarpo de Azevedo, em estátua”, sem contar os milhares de presos.
Pombal é dessas figuras que evocam paixões, quando não totalmente esquecido por muitos portugueses e brasileiros. Diz-se dele, com alguma frequência, que foi o homem das relações internacionais, herói do terremoto, mas também perseguidor dos jesuítas, não obstante também organizador dos estudos e incentivador do comércio, muito embora tenha sido o grande nome da repressão contra a nobreza, da centralização contábil e da modernização do Estado, não obstante sua doença ao final da vida, e morte tenham despertado paixões de toda ordem, inclusive pelos muitos inimigos que possuía48.
Aliás, poderosa é a narrativa de Camillo Castelo Branco, repleta de adjetivos, ao descrever a maneira pela qual Pombal respondia a seus inimigos, ou em que tipo de moeda pagava o coração pombalino: “no ódio que cunhava ao fogo do seu luciferino coração para todos os homens distintos que lhe obscureciam a mediocridade”49.
Pombal possuía, segundo o mesmo narrador, uma inescondível “jesuitophobia”, ainda conforme a gramática da época, sendo bastante conhecida a cena em que após a pesada sentença contra o jesuíta Gabriel Malagrida, que termina com o “espetáculo” do incêndio de seu cadáver, no Palácio da inquisição é oferecido um “lauto jantar” por Pombal, e cuja mencionada sentença se reproduz, no essencial:
“Vista a sentença dos inquisidores, Ordinário e Deputados do Santo Officio, e como por ela se mostra ser o Réu Gabriel Malagrida, que foi Religioso Sacerdote da Companhia denominada de Jesus, Herege de nossa Santa Fé Católica, e como tal relaxado à justiça secular, precedendo degradação atual de suas ordens pública e juridicamente feita: E vista a disposição de direito e ordenação em tal caso o condenam a que com Baraço e pregão seja levado pelas ruas públicas desta cidade até à Praça do Rocio, e que n’ella morra morte natural de garrote, e que depois de morto seja seu corpo queimado, e reduzido a pó e cinza para que d’elle e de sua sepultura não haja memória alguma”50.
É essa fúria que também se voltará contra Pombal, depois de morto. Como observado por muitos comentadores, o corpo do marquês de Pombal foi depositado na Igreja de Nossa Senhora do Cardal, junto ao convento de Santo António habitado por franciscanos capuchinhos, e é sabido que o governo de então não permitiu a trasladação do féretro para o jazigo, razão pela qual seus restos mortais permaneceram localizados na Igreja do Cardal entre 1782 e 1856, até que o sarcófago do marquês foi objeto de violação por populares e pela soldadesca francesa, por ocasião da invasão napoleónica ocorrida em 1807-1811, de maneira brutal51.
Brutal e irracional, como o espetáculo de ostentação financeira e violência antes do terremoto de Lisboa, muitos anos antes, na descrição das festas, touradas, embarcações e carruagens, sintetizadas num dos episódios, quando um dos touros atirou certo cavaleiro ao solo, matando seu cavalo, e a vingança que se seguiu contra o animal, uma vez que um dos nobres descritos “costumava abrir com a mesma cutilada o boi e a sepultura do morto”, destacando-se a ira contra o mesmo animal: “deu-lhe tão grande golpe sobre o espinhaço que logo pela ferida saíram ao boi as entranhas”, e no prosseguir das cutiladas, “espadanavam jorros de sangue na praça”52, tudo em frente à Corte da qual já participava o jovem Pombal, aquele que, acostumado com o cheiro férreo de sangue em praça pública, também faria seus próprios espetáculos de sangue, mas também seria vítima do mesmo ethos.
Esse personagem polêmico seria homenageado por Rui Barbosa, a 8 de maio de 1882, em discurso proferido no Imperial Theatro Pedro II, em pérola da oratória que inicia citando Camões, como até seria previsível, para reverenciar a figura do Pombal herói após a tragédia do terremoto de Lisboa, mas foge do previsível corte literário quando chama à colação as imagens de Dante e Shakespeare, para descrever, em estilo apologético, certas nuances da tragédia, inclusive para afirmar que “Pombal não é um homem; é uma idade, uma antecipação do futuro”53, sendo igualmente notável a longa defesa de Pombal no caso dos jesuítas, sob o ponto de vista educacional, político e histórico, não obstante mencione danos laterais desde a apontada grandeza do homenageado, ou na linguagem barbosiana: “por entre essa irradiação há pontos opacos: o cárcere da Junqueira, o suplício de Malagrida, a execução dos Távoras” 54.
A peça oratória de Rui Barbosa, por evidente, soa como uma espécie de defesa jurídica dos excessos de Pombal perante um “júri”, muitas vezes entremeada de perguntas que buscam amenizar os atos de barbárie, como quando questiona: “quem desconhece a gravidade excepcionalmente aterradora dos crimes de lesa-majestade daqueles tempos? Quem não sabe a comoção produzida ainda hoje pelas tentativas regicidas?”, e a não menos notável utilização da conjunção adversativa “mas”, após se referir a tortura: “A tortura é uma abominação bestial. Mas [a] França (…) vira justiçar, por motivo análogo (…) a Pedro Damiens” 55.
Mas a verdadeira indagação retórica defensiva aparecerá de forma tão brutal quanto seria possível a um advogado na defesa de imputações gravíssimas, após pedir ao interlocutor uma análise sobre os dilemas de Pombal: “um reinado vacilante, tendo atrás de si duzentos anos de podridão e jesuitismo; diante de um futuro carregado de funestos agouros”, prossegue: “em torno uma vasta muralha de lama, com que o misticismo e a miséria do povo, a ignorância alvar, a impudente imoralidade, o cruel parasitismo do clero e da fidalguia (…)”, concluindo: “E dizei-me: nesse combate de um gênio contra essa massa informe, de onde se banira a consciência, a generosidade e o pudor, que milagre da razão poderia afugentar a violência?”, em finalização de tribuno diante de um imaginário Conselho de Sentença56.
No mesmo período em que Rui Barbosa produziu essa verdadeira apologia de Pombal, o mesmo grupo que organizou a homenagem – Clube de Regatas Guanabarense do Rio de Janeiro, atual Botafogo de Futebol e Regatas – fez publicar em Lisboa, três anos depois, o livro “O Marquês de Pombal – obra comemorativa do centenário de sua morte, uma coletânea de textos de intelectuais da época sobre o ministro português que inclui ‘A Derradeira Injúria’, um conjunto de quatorze sonetos metrificados, rimados e assinados por ninguém menos do que Machado de Assis”, conforme observado pelo professor Luiz Eduardo Oliveira, ao apresentar importante obra dedicada ao estudo do referido tema 57
Neste sentido, destaque-se que o poema machadiano, ‘A Derradeira Injúria’, embora seja o mais expressivo, não é o único momento em que o Bruxo do Cosme Velho menciona a ilustre e controversa figura de Pombal, citando-se o conto “Rui de Leão” (1872), alguém que, se morresse, teria “cheiro de santidade”, e, ainda, o conto “O Alienista” (1882), cuja referencia se relaciona ao “soneto IX” do poema, com uma “intertextualidade que os aproxima”, finalizando-se o grupo de menções fictícias58 com a referencia realizada no capítulo LIII do romance “Esaú e Jacó” (1904), quando se menciona uma carta escrita por Pombal (conde de Oeiras) ao ministro de Portugal na Holanda59.
Aqui podemos dizer, a partir de João Paulo Papassoni, que o poema ‘A Derradeira Injúria’ possui como mote central o episódio da profanação dos restos mortais do marquês de Pombal, e que “os fatos apresentados ao longo do poema vão se sucedendo e sendo somados, o que acaba por aumentar a tensão no decorrer da leitura, a ponto de atingir um clímax justamente quando os restos mortais do ministro são profanados pelos franceses – ao final do poema” 60
.
Referida preocupação central, a profanação dos restos mortais de Pombal, estabelece a necessidade de densificar o significado, e temos a justa medida de que com ela, a profanação tumular e/ou cadavérica, “não se afetam somente os restos mortais, mas, também, aquilo que tais restos simbolizam”, uma vez que simboliza “um ataque direto a um objeto sagrado (túmulo), pensando nos preceitos religiosos, mas também indireto, que transcende o sujeito físico e direciona-se para sua reputação e, principalmente, para a memória” 61. Merece destaque, ainda, a observação de Papassoni acerca do simbólico na violação dos despojos:
“o poeta reforça o caráter fúnebre do ambiente. Aquele é o ambiente dos mortos, espaço do descanso eterno, no qual a matéria se esvai ao passo que o espírito repousa. Há uma sensação de quietude no local. A identidade do indivíduo a que se refere o poema é reconhecível apenas pelo nome com o qual se identifica o féretro, onde se mantêm unidos os seus restos mortais. As imagens de “féretro” e “pó” reforçam a percepção de morte, intensificada sonoramente pela aliteração em “s” – que promove o sentido de dispersão –, corroborada formalmente com a amplificação, que auxilia na construção da ideia de desaparecimento, como se a matéria estivesse aos poucos sendo consumida à medida que se lê o verso: Esse pó que descansa, e se esconde, e se some” 62.
O elemento de proteção ressoa evidente: “enquanto permanecessem ali, protegidos e guardados seus restos mortais, preserva-se a memória do homem imponente, grande e formidável” 63, e o avanço sobre essa ideia também permitirá que cheguemos à percepção da construção poética do duplo pombalino:
“a chave para entendermos a construção do poema é que não se trata de uma concepção sobre o Marquês de Pombal, mas sim sobre a existência de dois marqueses: um real, constituído dos restos mortais que ali se encontram e que é tratado ao longo do conjunto de forma até certo ponto rebaixada pelo poeta. E outro, que representa a imagem do Marquês de Pombal, construída com a ajuda do próprio discurso adotado em seu governo, e que passou a ser uma opinião comum. Nisso, compreende-se o esforço do marquês real, em espírito, de elucubrar a respeito de sua própria história, falando de si mesmo. Em oposição, há o olhar crítico do poeta, que a todo o momento recorda a condição atual rebaixada do mesmo” 64.
Dito isto, observamos que “sem saber que estava prestes a ter o túmulo profanado, Pombal é representado, no poema, a discursar, amargurado, contra o esquecimento a que, a despeito de seus esforços para se fazer memorializar em vida, seus restos mortais haviam sido legados pela ingratidão dos pósteros” 65. De fato, o clímax, atingido nos sonetos XII, XIII e XIV, que terminam por repudiar a violação ao cadáver do marquês de Pombal, cuja leitura é necessária:
XII
E, tendo emudecido essa garganta morta, O silêncio voltara àquela nave escura, Quando subitamente abre-se a velha porta, E penetra na igreja uma estranha figura.
Depois outra, e mais outra, e mais três, e mais quatro.
E todas, estendendo os braços, vão abrindo
As trevas, costeando os muros, e seguindo
Como a conspiração nas tábuas de um teatro.
E param juntamente em derredor do leito Último em que descansa esse único despojo De uma vida, que foi uma longa batalha.
E enquanto um fere a luz que as tênebras espalha, Outro, com gesto firme e firmíssimo arrojo,
Toma nas cruas mãos aquele rei desfeito.
XIII
Então… O homem que viu arrancarem-lhe aos braços Poder, glória, ambição, tudo o que amado havia: Esse que foi o sol de um século, que um dia,
Um só dia bastou para fazer pedaços;
Que, se aos ombros atara uma púrpura nova,
Viu, farrapo a farrapo, arrancarem-lha aos ombros, Que padecera em vida os últimos assombros,
Tinha ainda na morte uma última prova.
Era a brutal rapina, anônima, noturna, Era a mão casual, que espedaçava a urna
A troco de um galão, a troco de uma espada;
Que, depois de tomar-lhe esses sinais funestos Da sombra de um poder, pegou dos tristes restos, Ossos só, e espalhou pela nave sagrada.
XIV
“Assim pois, nada falta à glória deste mundo, Nem a perseguição repleta de ódio e sanha, Nem a fértil inveja, a lívida campanha,
De tudo o que radia e tudo que é profundo.
Nada falta ao poder, quando o poder acaba,
Nada; nem a calúnia, o escárnio, a injúria, a intriga, E, por triste coroa à merencória liga,
A ingratidão que esquece e a ingratidão que baba.
Faltava a violação do último sono eterno, Não para saciar um ódio insaciável, Insaciável como os círculos do inferno.
E deram-ta; eis-te aí, ó grande invulnerável, Eis-te ossada sem nome, esparsa e miserável, Sobre um pouco de chão do ninho teu paterno.”
Após a exaltação da figura de Pombal de forma apologética, bem entendido, na visão machadiana de um herói, próxima à percepção que também havia sido apresentada por Rui Barbosa, chega-se ao momento em que um dos soldados, por fim, segura a ossada, espalhando os restos mortais de Pombal, surgindo a imagem poeticamente como “uma pausa dramática, em que o inimigo, ostentando o objeto em suas mãos, tem o poder de decidir o desenlace da ação”, quando a imagem da profanação aos despojos guardaria “semelhanças com Hamlet”:
“O contexto em que o príncipe da Dinamarca segura o crânio de Yorick difere deste, porém, em sua essência, ainda que os dois momentos refletam sobre o tema da transitoriedade da vida e do inevitável da morte. Ao apontar, ao longo de todo o poema, para os restos mortais do ministro português, o poeta reforça o sentido da passagem do tempo, cuja ação sobre a matéria é implacável e terrível” 66.
De uma maneira bastante evidente, a verve machadiana sobre a derrocada pombalina nos permite tomar de empréstimo, quando menos, a visão que o poeta nutria sobre o tema que marcou de maneira indelével a derradeira humilhação do homem de Estado, ou sobre o que pensava sobre a perturbação ao descanso dos mortos e o simbolismo do momento tumular, algo que provavelmente se assemelharia ao pensamento de Carlos Drummond de Andrade, a justificar as seguidas intervenções através da imprensa contra as diversas tentativas de traslado dos despojos de Machado de Assis. Mais significativo ainda, aliás, observarmos que a visão exposta em ‘A Derradeira Injúria’, nos autoriza algum exercício imaginativo sobre a reação de Machado de Assis, que dificilmente aceitaria a violação do túmulo de sua esposa ou a sua própria sepultura.
Estivéssemos a refletir sobre o simplório aspecto penal brasileiro, falando sobre o capítulo II do título V, parte especial do Código Penal, estaríamos referindo analogicamente algumas nuances sobre os crimes contra o respeito aos mortos, especificamente sobre o tipo penal de “Violação de sepultura” (art. 210) e “Vilipêndio a cadáver” (art. 212), identificando o caso de Pombal e distinguindo, no ponto, o caso de Machado e Carolina, mas este não é o objetivo deste breve ensaio. Antes, tentamos realizar alguma reconstrução das chaves hermenêuticas sobre o que Machado poderia dizer sobre a disputa empreendida por seu cadáver, e, ainda, sobre a violação de sua sepultura para o traslado de seus despojos e os de sua esposa, desde sua construção poética sobre o ocorrido ao cadáver de Pombal.
4– Considerações Finais.
Terminamos este breve ensaio relembrando a crítica endereçada por Machado contra Eça de Queirós, crítica que talvez tenha sido a que mais o tenha feito sofrer, pois acusando um colega escritor de imitação, ele mesmo foi apontado como imitador, com especial dedicação (ou influência) a partir da obra de François-René de Chateaubriand, quando “Memória Póstumas de Brás Cubas” teria sido identificada como possuidora de certo parentesco com “Mémoires d’Outre-Tombe” 67. Aliás, diante de certas similitudes entre as obras, embora sem deixar de reconhecer o relevo machadiano, certo crítico observou: “repita-se o que Robert Vivier assegurou de Baudelaire: quase nunca o nosso Machado foi todo Machado”, para concluir: “Machado foi possantemente original e diabolicamente imitador 68. Talvez exagerada ou injusta a crítica, de fato.
Contudo, lembremos das palavras de Machado de Assis disparadas contra Eça de Queirós, não exatamente quando o primeiro acusa o segundo de plagiar Émile Zola69, e nem do momento em que o segundo responde ao primeiro, em defesa, afirmando que o seu romance seria anterior, e que apenas pessoas dotadas de “obtusidade córnea e má-fé cínica” enxergariam imitação sobre o romance francês, mas no ponto em que Machado exerce a crítica moral sobre a narrativa escolhida, bem como sobre o destino da personagem, afirmando: “incidente (…) sem relevo, repugnante, vulgar”70.
Cuidava-se, de fato, de rechaçar o comportamento feminino na pauta dos costumes da época, em silhueta que tomamos de empréstimo para realizar uma tentativa de reflexão sobre como Machado de Assis julgaria o desrespeito às disposições de sua última vontade, no caso do traslado de seus restos mortais e também de Carolina, da localidade originária para templo diverso.
Os versos de ‘A Derradeira Injúria’ representam material significativamente privilegiado para entendermos que, por trás das linhas dos 14 sonetos em homenagem, e porque não dizer, em defesa de Pombal, como fizera Rui Barbosa na mesma época, Machado de Assis teria entendido como irrelevante, vulgar e repugnante o traslado de seus despojos, talvez como cópia parcial (emulação) de Pombal, guardadas as devidas proporções, embora seu temperamento fosse mais propício a aderir ao pensamento de Drummond, aquele que possivelmente mais se aproximou da melhor interpretação da derradeira vontade de Machado de Assis, mas que não chegou a escrever aquele que seria o texto definitivo, e que receberia o título de “A Derradeira Injúria: Parte II”.
A obviedade de um comentário final, para além do convite para refletirmos sobre uma possível ucronia, um “não tempo”, num mesmo plano dos cadáveres de Machado, Carolina e Pombal, um “não tempo” em que se acende (e não se acende) o charuto nas misérias alheias, e também no qual se pede licença (e não se pede licença) para tanto, é a mesma que nos convida a pensarmos sobre os duplos pombalinos, machadianos e carolinos – o real (despojos) e a imagem (discurso), no exato momento (e não momento) em que se amalgamam e se dicotomizam.
Notas
47 CASTELO BRANCO, Camilo. Perfil do marquez de Pombal. 2ª Ed. Porto: Lopes & C.A, 1900, p. 47-48.
48 Para maiores detalhes, veja-se a vasta lista de obras bio-bibliográficas; dentre outras: MAXWELL, Kenneth. Pombal: Paradox of the Enlightenment. Cambridge: CUP, 1995; BRAGA, Paulo Drummond. Descendentes e Apologistas do Marquês de Pombal. Polémicas Novecentistas. Revista Diálogos Mediterrânicos, n. 21, 2021; BARRETO, José. O discurso político falsamente atribuído ao Marquês de Pombal. Revista de História das Ideias, v. 4, tomo I, 1982; FRANCO, José Eduardo; OLIVEIRA, Luiz Eduardo Meneses de. O Mito do Marquês de Pombal em Narrativas Ficcionais. Revista Letras Raras. v. 12, n. 2, 2023.
49 CASTELO BRANCO, Camilo. Perfil do marquez de Pombal. 2ª Ed. Porto: Lopes & C.A, 1900, p. 103.
50 CASTELO BRANCO, Camilo. Perfil do marquez de Pombal. 2ª Ed. Porto: Lopes & C.A, 1900, p. 228-229.
51 Alguns dizem, sobre a violação, ter em 1807; outros, em 1811. Sobre atual destino dos restos mortais, igualmente, há certa incerteza das fontes históricas. Ainda se pode registrar o quanto se segue: “Só no ano de 1856, por iniciativa da Câmara de Lisboa, os restos mortais de Carvalho e Melo foram trasladados para a Ermida das Mercês conforme a vontade do falecido, onde ficaram depositados sobre o adorno de dois elefantes esculpidos em pedra. Em breve, este túmulo desapareceria, talvez sendo roubado ou vendido em leilão. Apenas se sabe com certeza que no ano de 1923, por iniciativa a Associação da Extinção das Congregações Religiosas, os alegados restos mortais do marquês de Pombal foram depositados na Igreja da Memória mandada construir pelo governo pombalino para agradecer a preservação da vida de D. José I no atentado regicida de que foi alvo (…)”. Cfr. MARTINS, Rocha. O Marquês de Pombal desterrado, 1777-1782, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1938, pp. 284; LOPES, António. Roteiro histórico dos Jesuítas Lisboa, Braga, 1985, p. 96; FRANCO, José Eduardo. Massacres ou martírios do Marquês de Pombal? memória e mito. Revista Lusófona de Ciência das Religiões – Ano VIII, n. 15, 2009, p. 288.
52 CASTELO BRANCO, Camilo. Perfil do marquez de Pombal. 2ª Ed. Porto: Lopes & C.A, 1900, p. 37.
53 BARBOSA, Rui. Centenário do Marquez de Pombal: discurso pronunciado a 8 de maio de 1882 por parte do Club de Regatas Guanabarense no Imperial Theatro Pedro II. Rio de Janeiro: Typ. de G. Leuzinger & Filhos, 1882, p. 13.
54 BARBOSA, Rui. Centenário do Marquez de Pombal: discurso pronunciado a 8 de maio de 1882 por parte do Club de Regatas Guanabarense no Imperial Theatro Pedro II. Rio de Janeiro: Typ. de G. Leuzinger & Filhos, 1882, p. 45.
55 BARBOSA, Rui. Centenário do Marquez de Pombal: discurso pronunciado a 8 de maio de 1882 por parte do Club de Regatas Guanabarense no Imperial Theatro Pedro II. Rio de Janeiro: Typ. de G. Leuzinger & Filhos, 1882, p. 47- 48.
56 BARBOSA, Rui. Centenário do Marquez de Pombal: discurso pronunciado a 8 de maio de 1882 por parte do Club de Regatas Guanabarense no Imperial Theatro Pedro II. Rio de Janeiro: Typ. de G. Leuzinger & Filhos, 1882, p. 47- 51-52.
57 PAPASSONI, João Paulo. Uma Perpétua Lida: Estudo sobre a Derradeira Injúria, de Machado de Assis. Aracaju: Criação Editora, 2023.
58 PAPASSONI, João Paulo. Uma Perpétua Lida: Estudo sobre a Derradeira Injúria, de Machado de Assis. Aracaju: Criação Editora, 2023, p. 55-57.
59 Como observado por João Paulo Papassoni, além das referências fictícias, também são localizadas referências a Pombal nas crônicas publicadas no jornal “Gazeta de Notícias”, na série “A semana”, entre 1893 e 1896, nas seguintes datas: 5 de novembro de 1893, 3 de março de 1895, 7 de julho de 1895 e 6 de setembro de 1896, com diversas possibilidades reflexivas, para efeito de comparação. Cfr. PAPASSONI, João Paulo. Uma Perpétua Lida: Estudo sobre a Derradeira Injúria, de Machado de Assis. Aracaju: Criação Editora, 2023, p. 57-59.
60 PAPASSONI, João Paulo. Uma Perpétua Lida: Estudo sobre a Derradeira Injúria, de Machado de Assis. Aracaju: Criação Editora, 2023, p. 91.
61 PAPASSONI, João Paulo. Uma Perpétua Lida: Estudo sobre a Derradeira Injúria, de Machado de Assis. Aracaju: Criação Editora, 2023, p. 94.
62 PAPASSONI, João Paulo. Uma Perpétua Lida: Estudo sobre a Derradeira Injúria, de Machado de Assis. Aracaju: Criação Editora, 2023, p. 104-105.
63 PAPASSONI, João Paulo. Uma Perpétua Lida: Estudo sobre a Derradeira Injúria, de Machado de Assis. Aracaju: Criação Editora, 2023, p. 105.
64 PAPASSONI, João Paulo. Uma Perpétua Lida: Estudo sobre a Derradeira Injúria, de Machado de Assis. Aracaju: Criação Editora, 2023, p. 175.
65 PEREIRA, Gustavo. Machado de Assis e “A derradeira injúria” de Pombal – memória póstuma, comemoração, história. Topoi,v. 24, n. 52, p. 173,196, jan./abr. 2023
66 PAPASSONI, João Paulo. Uma Perpétua Lida: Estudo sobre a Derradeira Injúria, de Machado de Assis. Aracaju: Criação Editora, 2023, p. 183.
67 ZILBERMAN, Regina. Memórias de Chateaubriand no Brasil. Revista brasileira de literatura comparada, n. 31, 2017.
68 GRIECO, Agrippino. Machado de Assis. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1959, p. 217.
69 A acusação decorre de conhecida crítica de Machado de Assis, afirmativa de que o romance de Eça (“O Crime do Padre Amaro”) seria mera “imitação do romance de Zola” (“La Faute de l’abbé Mouret”). Cfr.: MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Eça de Queirós: O Primo Basílio, O Cruzeiro, 30/04/1878. Em: Obras Completas de Machado de Assis, volume III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
70 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Eça de Queirós: O Primo Basílio, O Cruzeiro, 30/04/1878. Em: Obras Completas de Machado de Assis, volume III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
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Thiago Aguiar de Pádua é pesquisador da temática “Literatura & Direito”, professor universitário, doutor em direito, ensaísta e advogado, ocupante da cadeira nº XXIII da Academia Brasiliense de Letras (ABrL), patroneada por Aluísio Azevedo











