
30 de junho de 2024
para Clenilson,
o meu melhor abraçoE então eu soube:
pertencer é viver.
Clarice Lispector,
em “Pertencer”.º
No melhor estilo de uma boutade, a última coisa esperada para o último domingo de junho seria sofrear as pulsações do coração e ventar em percepção terna. Como exilada goianiense no Rio ‒ o prenúncio que se colocaria pretextualmente na boca dela e na do interlocutor ao lado/acaso ‒, residiria na ideia de pertencimento que, à ocasião, acabou preferindo a diferença afim à identificação dos nativos. E, naquela data, uma vez mais, facultava à emoção vivente, qual boneca russa, Gyn-Rio-Niterói. Sobretudo a menor delas, era como se ali nunca estivesse estado, já que seus passos foram flagrantemente confirmados por um despreparo que beirava a estultícia de seu adolescer de décadas atrás. Ao vestibular, sentença para o princípio adulto a ser definido, se fazia presente de novo para ela (para os dois), agora, porém, no prazo de um (equivocadamente denominado) miniturno (com 3 h de duração para trocentas questões de múltipla escolha, além de uma redação…!). A condição que a assolou, para além de resolução rímica de seu nome próprio, tardara. Ela com 41, ele, 30 ‒ mas que poderia ser o inverso em aprendizado emocional sem sombra de dúvida. O tempo nasciturno, assim como o da avaliação, perderam sentido ante a semelhança da iniciativa de ambos ‒ o desejo por um adendo (ou virada de chave?) à formação superior outrora adquirida. Não obstante, quanto mais não valesse aquele exame, o curso da manhã cifraria a durée bergsoniana para ela, e é como tal que, assim, quis (a)guardá-lo, diariamente. (O diário em exercício de crônica que a (re)inventa, no gerúndio, no movimento linha pós-linha da autoficção, a mais genuína sensação do impossível).
Propôs-se de véspera a não dar para trás, malgrado tivesse sido atentada para um pé d’água superlativo no (que seria quase um) date com o Destino. Mas ela é existencial; estava, apesar de emocionada, à lei de seu signo e, sobremaneira, de seu ascendente ‒ logo disposta ao risco aventureiro do desconhecido: “faz novidade, faz bom futuro”. Creu nisso e (se) foi. (Mas não sem dar de ombros à previsão espaço-temporal: o guarda-chuva esqueceu, no início do mês, numa galeria em Ipanema, e o telefone, na cômoda de seu quarto). Mal sabia que a ausência desses objetos seria vazada de descoberta íntima por outrem ‒ sua lufada de ar naquele trigésimo dia de junho). Tanto que as nuvens que excediam no céu monocromático neblinado, na ida, ensaiaram seus olhos na cegueira e, na volta, no cinema de arte, na música familiar de sua Goiânia natal.
Já avistando a Cantareira ‒ referência dada para se chegar ao Campus do Gragoatá, em São Domingos ‒, as pernas aumentavam o bambeio causado, sobremaneira, pelo clarão da noite passada entre ansiosa e insone… E… ,então, quando o portão azul marinho foi, finalmente, percebido, sua abertura, por outro lado, só seria autorizada depois de delongada minutagem. Em meio a um sem-número de candidatos, à esquerda dele, de modo despropositado, se posicionou; e o silêncio, com leveza e empatia, partilhado entre os dois, seria disruptivo no instante em que ela sentiria o gentil (a)braço dele, dando-se conta de que a sombrinha pouco ou nada estava o cobrindo para, no lugar, acobertá-la das gotas que insistiam em aumentar, querendo intempestivar toda a manhã. Tanto mais o sol se afugentava, mais se tornavam próximos, fazendo nascer a cordialidade com a graça dele (que só depois, na sala de avaliação, tomaria nota e que viria com curiosa remetência a Leonilson, um dos artistas de maior apreço dela, de quando se colocou como observadora de sua própria existência).
Os olhos semiabertos, sorrisos cúmplices na interpelação crítica ao/em território fluminense: só o que importava ‒ o input necessário para que um diálogo despretensioso, porém, deveras coincidente, viesse a termo. Chamado à partilha de impressões acerca da carência identificada por ambos no movimento de migração para o Rio. Entre os distintivos do local de origem deles dois avultaram: o espaço residencial de uma casa que se eclipsava em um apartamento (como acolher os muitos livros? como aumentar a vitrola?) e a pouca qualidade oferecida no setor de serviços, em destaque no trato das relações. (O que mais adiante, sem imaginar, viriam muitas outras aquiescências.) De outro modo, a positivação se inclinaria justamente à iniciativa de comportamento que era ao mesmo tempo alvo de receio e admiração da parte dela e que se compreende, à perfeição, pelo ditado-fórmula a seguir: “Quando em Roma, faça como os romanos”. Esse o ponto, via crucis dela, que, desde sempre, a tomou de sobressaltos, a contragosto do que desejava ser mas não podia, ou não, conseguia sê-lo, ainda que muito o tentasse. Ao menos, até aquele momento, porque depois desse encontro, amealhou o pensamento, imaginando balouçar na praia, aplaudir o pôr do sol no Arpoador, andar de bondinho para entregar-se à imersão na vista mais bonita de todas, sentir a irrestrita alegria da Marquês de Sapucaí ou do Maracanã, flanar pela Cidade do Rock… ‒ para flertar, afinal, com movimentos contrastantes ao índice remissivo de sua biografia.
Portões abertos, enfim, encaminharam-se rumo ao local assinalado no comprovante de inscrição. Ela, space mistake de sempre, impregnando aquele instante com o receio que repetidas vezes no passado viveu de se perder, como quem dobra a aposta na voltagem da rarefação de sua autoconfiança ‒ volume diminuto de amor próprio. Fosse como fosse, mal poderia imaginar que surpreendida seria ao se descobrirem no mesmo prédio, bloco e… sala (!), alterada para ele, de última hora. O antídoto ao nervo da solidão e da desesperança. Pensava-se a partir do outro, sentindo o rastro de acalanto especialmente enviado para ela. O tempo correria enredado de forma mútua pelo guardião de todos. Ele, de calma organicamente previsível, sairia antes dela. Porém, pouco depois, os olhos chafurdados a furtariam de maior insistência com aquela provação toda. O fosfato restante seria para pensar em se ausentar daquele lugar e, se possível, de súbito. Os pontos a serem ligados um a um de sua compreensão circustancial encapsulavam o clarão da saída. Chegou a questionar a moça ao lado, quando descia as escadas, rumo ao acinzentado que, ao natural, conquanto já marcasse pouco mais de meio-dia, se fazia avistar. Frente à negativa de qual seria a melhor maneira para retornar a Copacabana, deparou-se mais uma vez com a presença dele: asas à ausência da razão. De novo. Hesitação que sequer faria parte de seu vocabulário quando do convite dele para irem embora juntos. Nem o desamor próprio da parte dela camuflaria o milagre da gentileza que bateria à sua porta, pois capaz seria de extrair da tormenta das horas anteriores um encanto profundo pelo encadeado prosaico, como tinha de ser. À poesia, o enlevo da companhia que repetiria muito tempo ainda o refrão do sentimento daquele último dia. A interrogação das coincidências, na verdade, ainda respiram no porvir dela, quais sejam, chaves múltiplas à fortuna d’Ele, escolhas ao caprichoso acaso ‒ espontaneidade afetiva.
Letícia Ferro é doutora em Letras e Linguística pela UFG, crítica literária e editora. E-mail para contato: let_ras@hotmail.com










