A mulher sem cor, que lia Daniel Faria, é, agora, um punhado de cinza. Devia ter-lhe dado mais alegria e menos filosofia, devíamos ter caminhado à chuva, devia tê-la beijado na nossa última despedida, devia tê-la abraçado no jardim de agapantos e estrelícias, devia ter chamado o táxi que nos levaria à praia onde morreríamos felizes. Permaneci horas ancorado num emudecimento acrílico, velando seu corpo sem vida. Devia tê-la navegado nos dias em que a febre e a astenia se extinguiam. Sua anca, minha quilha. Seus cabelos, minha vela latina. Sua boca, minha ânfora de vinho. Seríamos unos, seríamos o que a Costa da Morte fundeia. Viriam dias cheios, luares oclusos, marés vivas, cintilações longínquas, madrugadas indivisas, auroras cardíacas, ventos sibilinos, tormentas e naufrágios, solstícios e lemniscatas, mas estarias sempre comigo, até os mares evaporarem na coroa solar que nos acende. Todos os gestos ecoariam na eternidade, até o Nada tomar conta do Atlântico, alimentando nossos sonhos líquidos. Tudo cintilaria no limiar de uma nova vaga, regressando à última–primeira morada, nossa singularidade, ação límpida. Ainda estás aí? Ainda tens o mal-me-quer-das-praias que te dei por razão nenhuma. Que razão têm as gaivotas para voarem em círculo sobre o banco de madeira onde sorris sem destino nas dunas? Que razão tem o Nada para levar o teu corpo e as tuas luas desfeitas no peito cicatrizado? A numinosidade do Nada ou o luminosidade de Tudo? Comemos um gelado, a meias, no areal. Abraçámo-nos, tu semidespida e eu descalço. Beijei-te os joelhos, lambi teu calor rosáceo, puxaste minha cabeça para teu ventre alagado. O acaso abriu a porta e fomos descobertos por duas crianças que construíam castelos na areia molhada. Tivemos de correr, fugindo do ser. Rimos, como nunca choramos, atrás do obelisco da praia. Quanta loucura, liberdade e coragem nos despiram e nos transfiguraram naquela tarde? Ainda acreditas que o desejo que calávamos foi a fome necessária para estarmos juntos? Talvez a sorte habite nos ventos e marés desta esfera azulada. Tenho a madeixa que me deste, a que crescia nos dias em que estavas linda, a que meneavas quando usavas batom rosa e brincos de filigrana. Está no interior do meu relicário, sob a tua almofada de espuma. Não tinhas gostos refinados. Não lias simbolistas ou modernistas. Não lias neorrealistas ou existencialistas. Não lias tragicistas ou niilistas. Não gostavas de jazz, nem de música contemporânea. Gostavas de histórias com final feliz e de canções românticas. Gostavas de ler a vida dos Padres do Deserto e de falar sobre Santa Teresa de Ávila. Gostavas de catedrais e de lugares sagrados que nunca visitaste. Não tinhas o dinheiro que merecias, nem a liberdade para que nascemos. Gostavas de aletria, de algodão-doce e de formigos. Gostavas de abraçar e de sorrir, mesmo que estivesses zangada. Gostavas de bebés e de ani mais abandonados, gostavas de crianças e de velhos acamados. Nada precisava de explicação quando estava sentado a teu lado. Eliminaste toda a minha ânsia de glória, indicando-me o caminho de uma vida simples, contente com toda a miséria que escondias no teu olhar enfraquecido, sem cuidados continuados. A minha lembrança a sépia, a nossa curta vida enrolada nesta epístola-cigarro, sonhei-a mais de mil vezes na praia, perto do real obelisco de granito, raio de luz atirado para o umbigo da Via Láctea, olhando o horizonte encarnado onde sei que me esperas, debruado em lírios de saudade, despido de pensamentos, sentimentos, vontades.
In «Obediência», Sérgio Firmino Mendes (2023), Busílis.
Sérgio Firmino Mendes, nascido em 1974, escreve para adultos e crianças há mais de vinte anos. Para além de poesia, teatro e contos infantis, também escreveu dois romances: «O Quarto da Mãe» e «Obediência», editados em 2018 e 2023, respetivamente. Físico de formação, é professor na Escola Pública e moderador na Rádio Transforma. Atualmente, reside na Maia, na companhia da sua família.










