
Quando me apaixonei por Julia, tive os maiores picos de fluxo criativo de toda a minha vida. As ideias jorravam aos borbotões, eu nem tinha tempo de registrá-las. Resgatei o antigo caderninho amarelo da adolescência, que ficava sempre em cima do criado-mudo, e espalhava e recolhia papeizinhos avulsos com anotações, nos bolsos, no braço do sofá, na prateleira do banheiro, no porta-luvas do carro e outros locais inusitados. As palavras saíam perfeitas como pérolas, concêntricas, de brilho suave e leitoso, eu as enfiava no fio da narrativa, formando assim o colar com que adornava o pescoço da minha musa… Claro que eu já tinha, inúmeras vezes, usado a habilidade com as palavras, para seduzir mulheres. Isso era mais velho que andar para frente, como no antigo ditado árabe: os homens são seduzidos pelos olhos, e as mulheres, pelos ouvidos. Raro era alguma que me resistia, embora eu não fosse rico, nem especialmente belo. Mas, desta vez, a inspiração para escrever vinha num tal volume e intensidade, que confundi com amor verdadeiro. Ilusão que o tempo ( esse desmancha-prazeres ) se encarregou de desfazer. Porém, por quase dois anos, a avalanche literária me soterrou, me deslumbrou e me fez crer piamente que Julia, a poeta, era a minha alma gêmea, embora eu nem entendesse esse conceito e o encarasse com o cinismo típico das pessoas instruídas. Eu já tinha dito que ela era poeta? E das boas. Brilhante, aliás. Seu ponto alto eram os poemas metafísicos e de amor erótico. Eu inflava de orgulho ao ler alguns, que acreditava terem sido feitos sob a ação de seu irresistível desejo por mim, embora a ferroada do ciúme e da inveja deixasse suas marcas. Oh Santíssimo, perdoai os escritores, essa raça insatisfeita e malévola… Mas os colecionava, manuscritos, em sua caligrafia redonda de moça, os colecionava como pequenos troféus que exaltavam minha virilidade. E dediquei a ela muitos contos, já que era bom prosador, mas poeta medíocre, e conhecia muito bem meus talentos e limitações. Eu a disfarçava em diferentes nomes e personagens, mas ela sempre descobria a si mesma, num lampejo de alegria, mesmo que a história fosse triste ou a personagem tivesse péssimo caráter e atitudes. Dizia que depois de mim e de minha literatura, conhecia muito melhor a si mesma, e que também sua poesia estava extraordinariamente inspirada, inundada pela nossa recíproca paixão. A literatura era o nosso termômetro. E era possível prever as condições meteorológicas do nosso amor, conforme as crônicas semanais que eu publicava numa prestigiada revista. Eu alcançava níveis de excelência percebidos pelo meu público leitor, que comentava a respeito. A síndrome do impostor me rondava. Eu me perguntava se aquilo era legítimo, se eu tinha realmente escrito aqueles textos, pois me davam a impressão de saírem prontos, num relâmpago, como se caídos do céu. Contudo, eu tinha direito legítimo a me proclamar o autor, não estava em transe, nem psicografava as minhas histórias. Porque, então, esse mal- estar e a sensação de desonestidade? Talvez, porque, antes de Julia, meus textos, de qualidade atestada por meus pares, por críticos e leitores de diversas camadas sociais e origens, eram sempre muito trabalhados e burilados antes que fossem publicados. Ainda que escritor de talento, sempre fui, antes de tudo, um operário da palavra, e não era sem esforço, que as domava e dobrava à minha vontade soberana. Daí, a sensação de estranheza ao deparar com a facilidade da avalanche inspiradora. E qual a explicação para isso, a não ser a “força que move o universo”, O Amor, com letra maiúscula? Podem imaginar que eu havia me colocado em altos píncaros e dali despencaria, abissalmente, de um momento para o outro. Com costelas quebradas, coração partido e as mãos vazias. Eu vivia assim, duplamente assombrado, pois com a perda do amor, pensava que perderia também todo o meu talento e inspiração, além do ganha-pão, já que fazia vários trabalhos freelancers na área da escrita. Enquanto Julia, minha doce carrasca, seguia jovem, bela, irradiando felicidade inocente e descuidada. Comecei a ficar paranóico e obsessivo. Rondava seus poemas como uma ave de rapina, farejando amores ilícitos, traições platônicas ou carnais, media o pulso de seus versos para saber se a febre por mim continuava a arder ou teria arrefecido. Evidente que um animalzinho livre como uma poeta, cedo ou tarde, se aborreceria disso. Inúmeras discussões inúteis foram semeadas em finais de semana que deveriam ser de convivência e prazer, até que uma manhã de sábado, acordei e meu olhar recaiu sobre o travesseiro, onde sua bela cabeça ruiva estava ausente. Sobre a fronha branca, uma flor meio murcha e um papel rabiscado, com um poema pungente de adeus. As letras borradas me alegraram, talvez ela tivesse chorado. Talvez não fosse definitivo. Mas, era um alarme falso: Julia nunca mais atendeu meus telefonemas, trocou de endereço e me bloqueou em suas redes sociais. Passei madrugadas e madrugadas relendo seus poemas inflamados, sofrendo como um cão. Acreditava que nunca mais, nunca mais, em toda a minha vida, eu amaria ou seria amado, ou conseguiria escrever novamente. Toda a inspiração escorreu pelo ralo. Minha mente estava vazia, e tão leve, que parecia que ia sair voando, como uma pipa ou balão de gás. Eu andava pelas ruas, sonâmbulo, apático, flanando sem rumo, buscando uma chama qualquer que reacendesse minha inspiração, mas a cidade me parecia úmida e cinzenta, sem nenhum sabor. Não conseguia me concentrar em nada, nada despertava o meu interesse. Se, por acaso ou sorte, descobrisse um livro que me apetecia, tentava ler, mas em poucos minutos, as letras dançavam no papel, se misturavam numa massa amorfa e eu desistia da leitura. Não sei exatamente quanto tempo permaneci assim. Algumas semanas, meses? Quase um ano? O fato é que, numa tarde de verão, em que me comprazia em nada fazer, na varanda do apartamento, olhando sem ver o pôr-do-sol que se derramava em rosas e alaranjados, senti, súbito, o chamado irrefreável da escrita. Esse instante ficou indelével na memória, até a música que eu ouvia no rádio ( sim, sou desses, embora escute pelo notebook ) ficou gravada na memória, a voz rouca de Marina ressoando pela sala “ as coisas não precisam de você / quem disse que eu tinha que precisar…” Num jato, levantei da rede, peguei do papel e da caneta e escrevi cinquenta páginas ininterruptas do que seria o melhor romance da minha vida, com o qual conquistei meu primeiro Jabuti, esse que agora enfeita a estante da sala. Está uma prateleira acima dos meus dez publicados, de meia dúzia de livros de poemas de Julia, com dedicatórias derramadas e as obras completas de Machado de Assis, em edição luxuosa, afinal, também sou filho de Deus e posso me dar alguns presentes, de vez em quando. Sim, a vida é imprevisível, eu não acredito em alma gêmea e bem, talvez eu seja mesmo um escritor com talentos mediúnicos.
Daniela Pace Devisate nasceu em São Paulo, capital, em 20 de julho de 1971. Vive atualmente em Iguape. é professora de arte, poeta e artista visual. Teve poemas publicados em diversas revistas literárias digitais, como Germina, Mallarmargens, Literatura&Fechadura, entre outras. Em 2018, participou da coletânea da antologia Voos Literários, pela editora Essencial. No mesmo ano, participou de feiras de publicação independente, onde vendia seus livros artesanais de poesia, editados por sua editora cartonera, a Verso Livre. Em 2019, lançou Haikai Tupy, edição independente com tiragem minúscula. Em 2020, participou da plaquete As luas e suas variações, organizador Cláudio Daniel; participou da antologia Simpósio dxs poetxs bêbadxs; publicou um poema na revista portuguesa T¨lön, editada por Luiza Nilo Nunes e nesse mesmo ano, publicou seu primeiro livro individual, Tantos Quartos lunares, pela editora Urutau. Em 2021, saiu no livro As mulheres poetas na literatura brasileira, editora Arribaçã. Lançou um livro pela editora Kotter, Véus de Alethea. O seu último livro publicado é Berço de lírios, pela Editora Cloe, 2023.










