
Para o Poeta e Editor João dos Santos, in memoriam
“chega o entardecer
– os toureiros também sentem fome -o touro é servido vivo”
Epigrama de fatura conceitual, formalmente estruturado numa tríade de versos brancos caracterizados pela independência individual em relação ao conjunto, mas perfazendo pelo sentido somente agrupados. Sua composição trilinear parece com o a do Haiku japonês, conforme foi adotada no Brasil, porque, no Japão, isto não constitui uma regra, porém, as evidências mais importantes são, a saber: a ambientação natural cantada no primeiro verso, o que os japoneses denominam kigo, a concisão verbal para dizer o suficiente com pouco, a provocação da interatividade do leitor/visualizador, enfim, a imagética através da qual pretendi transportar o participante ao ambiente por mim sugerido no terceto.
Contudo, enquanto o Haiku consiste numa breve descrição fenomenológica natural e também é literovisual, este poema possui um caráter dúbio, conciliando objetividade e subjetividade; o visível e o invisível.
Recorrendo a uma análise de seus elementos constitutivos, constata-se que o verso inicial é objetivo ao anunciar a chegada do entardecer, ou seja, da hora em que o touro e os toureiros iniciam a corrida.
Já o segundo anuncia algo subjetivo ao referir-se a uma sensação coletiva, que, em verdade, consiste numa metáfora. O terceiro e último verso do epigrama mantém relação interna com seu metafórico título, onde, implicitamente, sugeri a arena como uma mesa posta para o jantar, quando, então, será servido o “prato de resistência”, isto é, o touro, que irá resistir até o fim. Ora, o modo de composição poética nipônico que, no Brasil, se conhece como Haicai, não comporta metáforas nem títulos determinantes. Neste caso empreguei o substantivo fome como metáfora da ânsia dos toureiros pela lida e, em consequência, pelo que será derramado na arena, porque, aqui, este vocábulo significa apetite de sangue. Portanto, a subjetividade se entronizou no poema também através do título, aplicado como metáfora do próprio bicho, designado como um prato específico do cardápio alimentar, destinado para manter o ânimo dos participantes de uma festa ou reunião de trabalho.
Enfim, são estas subjetividades estilísticas e metafóricas que constituem as notórias distinções entre este epigrama e o modo epigramático oriental, conhecido no, Brasil, como Haicai, que se caracteriza por ser um registro instantâneo e objetivo da natureza, não metafórico e que dispensa a atribuição de títulos.
Em 1999, na cidade de Londrina, no Paraná, o poeta e editor João dos Santos, após ler/ver este epigrama publicado na sessão das poesias classificadas da Antologia do Prêmio Escriba de Poesia, Piracicaba – São Paulo – 1998, manifestou-se em correspondência que guardo comigo, preservando o manuscrito original, onde ele disse: sua poesia Prato De Resistência é um show de magia e de síntese.
Lembro-me de haver ficado surpreso ao saber que alguém, distante da minha pessoa física e desconhecendo-me pessoalmente, estivesse espiritualmente próximo de mim, através deste canto cuja densidade imagética e metafórica extrapola de seu pequeno corpo, por sua enorme dimensão poética, pois foi criado para sintetizar mediante três versos, uma cenografia constante na arena da Tauromaquia, quando em função. João dos Santos, que participou efetivamente da fruição estética do terceto, em sua breve mas incisiva e elogiosa crítica poética, afirmou, como eu também afirmo e as evidências confirmam, que consegui realizar meu intento.
Couto Corrêa Filho
Ilha de São Luís
Maio de 2023
Couto Corrêa Filho é poeta, ensaísta, crítico de artes visuais e ator de cinema. Doutor em Filosofia, é autor, entre outros, de Por Espanha, livro de poemas vencedor do quase centenário Prêmio Literário Cidade do Recife.










