Poesia & Conto

A arte suave da palavra: 15 poemas | Morgado Mbalate

Foto de José Antonio Pulido Serrano na Unsplash

NA PELE DAS PALAVRAS

Escrevo 

poesia

motivado pelos 

sonhos de todas as crianças 

da minha terra.

Sempre

choro 

com a África

nos seus dias mais escuros.

Sempre

justifico a força que absorvo

das gentes da minha terra.

Há

pássaros 

voando no quintal

do meu ser.

 

A CASA DA INFÂNCIA

Há

memórias 

da minha infância

nas artérias e na pele da minha casa.

Dentro 

da minha casa

a lua repousa no idioma dos jacintos

dos girassóis e das papoilas.

Já 

na infância 

tinha nas mãos as cores das águas do mundo

e as cores de todas flores do mundo.

Uma

vez minha mãe

me disse que eu não saberia viver sem a poesia.

Meu

silêncio senta-se 

nos seios da terra.

Há 

um arco-íris de mil cores 

enchendo todos os compartimentos 

da minha casa da infância.

 

CORES DA IMAGINAÇÃO

Sigo

amando

o meu sonho da infância

e os primeiros raios do sol poente.

Aguardo 

a ordem 

de um mundo novo

para mim e todas as coisas.

Na luz

sagrada do olhar 

da minha mãe

vejo

um anjo e 

o novo nascimento do mundo.

Tudo 

na minha escrita 

é uma prece de gratidão pelo amor da minha mãe.

 

GEOGRAFIA DOS MEUS PASSOS

Quando 

eu era pequeno

tinha uma casinha

pintada de flores e pássaros.

Dentro

dessa casinha

tinha um mundo grávido de amor

e eu habitava uma pátria universal.

Quando

eu era pequeno

tinha a missão 

de proteger a alma do mundo.

Uma vez

minha mãe

me disse que sonhar significa

estar sentado no chão de um arco-íris

levando o crepúsculo no colo.

Sempre que sonho

acendo a lua 

nos olhos da noite 

do mundo.

 

RITUAL DE AMOR

Há no meu olhar

um rio cheio 

de madrugada.

Deslizo

sobre

o azul infinito do céu.

Sento-me

por cima dos montes

para ver a beleza

da pele da minha cidade

e para conversar 

com todos os rios de Maputo.

Minha mãe

me ofereceu 

o rosto azul do céu da minha cidade.

Para mim 

a poesia foi sempre fruto 

das odisseias da alma.

 

TROPICAL

Encontrei 

a luz da poesia 

antes de conhecer

as trevas do mundo.

Minha alma 

dança com a lua

que me 

acompanha na estrada.

Meu caminho 

é feito de luz 

marcho de mãos dadas 

com todos os astros.

Salpicam 

cores do aroma 

da primavera em mim.

Trago da infância 

a mania de colecionar 

conchas do mar.

 

O DADOR DE ESPERANÇA

Era 

uma manhã 

de passarinhos 

quando me levantei da cama.

A armadura 

da esperança amanheceu 

ao meu lado.

Pingou em mim 

uma gota 

do azul do céu.

O meu desejo 

de curar a humanidade 

se renova quando olho 

para os olhos de Laura cheios de poesia.

Hoje 

os meus versos 

beijam a cor do mar.

Ponho-me 

a olhar as pegadas da esperança 

na longitude do mar.

ÁFRICA MINHA, ÁFRICA NOSSA

Nasci 

na terra dos rios 

das águas límpidas e serenas.

Alimento-me 

dos sonhos

carregados de ondas 

do mar 

dos pescadores da minha terra.

Das verdades 

do meu povo 

nascem os mais belos 

cânticos das aves 

da minha terra.

As saudades que tenho dos heróis 

da minha terra 

fazem brilhar a aurora.

É dos meus sonhos

que se renovam 

os rios da África.

Sou a força 

da minha terra, da minha gente.

 

PASSEIO COM MANOEL DE BARROS

Minha alma 

resgata os meus sonhos

de menino.

Amor

é quando um passarinho 

e uma passarinha 

fazem amor 

no bolso do vento

de madrugada 

e a passarinha 

geme do lado 

de dentro do coração.

Minha solidão 

acende a lua 

e todos os astros da noite.

Manoel de Barros 

reina 

no pantanal dos céus.

 

O HOMEM DAS LETRAS

Muitos olhares

de gaivotas.

Poucas 

palavras de andorinhas.

Escrevo 

acreditando que 

Deus é comigo

e que a minha poesia 

vai curar as doenças da alma 

dos seres humanos 

e do mundo. 

Palavras 

de amor e esperança 

envolvem as paredes 

da minha casa.

Procuro no silêncio 

a aurora da vida 

dentro da vegetação das palavras.

 

VENTRE POÉTICO

Vivo nas gavetas

do tempo.

Tenho uma ligação

umbilical

com a sabedoria do mundo.

Venho de um ventre

poético

que não dá lugar 

às vaidades do mundo.

O meu nome

é cantado pelas vozes de toda África.

Meu olhar

sobre o mundo 

é sempre inaugural.

Minha vida

tem o brilho

de uma estrela pendurada no céu.

 

NASCENTE DOS MEUS POEMAS

Teus olhos 

são pérolas enfeitadas

com a luz da aurora e as cores da primavera.

Teu olhar 

é uma joia da África 

a coisa mais rara do mundo

e é a nascente de todos os meus poemas.

Tua voz

é um rio da aurora

semelhante à melodia 

da mais bela canção de amor.

Teus seios 

são poemas de amor 

vestidos das águas calmas de um lago azul.

Tua pele 

cheira ao perfume do sol da África

que espalhas pelo mundo.

Deus escreveu 

o sol da tarde para iluminar o nosso amor e os nossos sonhos.

A ESCRITA DO TEMPO

A imaginação é 

o olho da poesia.

Toda a poesia

do mundo me visita.

No meu sangue 

correm as cores da imaginação

e as cores da poesia.

A poesia me concede 

o poder de recriar o mundo.

Eu sou um verso de luz

recriando o mundo.

De súbito

o calor do sagrado 

e do amor me afagam.

A escrita é sagrada 

e precisa de tempo.

A escrita sagrada

é o tempo.

 

PAISAGENS DA ALMA

Há um beija-flor 

tomando banho de rio

dentro da minha escrita.

Meu livro 

é uma cidade

reunindo todas as paisagens do mundo.

Viajo sempre de poesia

e nunca de prosa.

Não escrevo 

a febre do vento.

Escrevo

pétalas de água.

Minha alma

fita o céu

no abismo da noite.

Minha alma sabe

que a lua 

é o crepúsculo das estrelas.

Sem a luz da poesia

não há luz na minha vida.

 

DIA

Hoje

passei a tarde toda conversando com as 

árvores

passando a mão na pele das 

formigas

e vendo passarinhos tomando                               

banho de areia no quintal da casa.

Se me perguntasses como foi meu 

dia,

te responderia que hoje ele estava 

grávido de passarinhos.

 

Foto Morgado Mbalate

Morgado Henrique Mbalate, mais conhecido por Morgado Mbalate e O Anjo das Palavras, nasceu em Maputo, no dia 6 de Setembro de 1993. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO); Licenciado em Filosofia pela Universidade São Tomás de Moçambique (USTM). É autor do livro Odisseia da Alma (Editora Edições Esgotadas, 2016); A Arte Suave da Palavra (Chiado Books, 2020); Co-autor do CD de Literatura Negra ‘O que nos a Bala‘ (Comunidade do Tambor, 2018). De entre Prémios e Distinções: destaque para o Prémio Bicentenário de Dostoiévski (2021), menção honrosa no Premio Mondiale di Poesia Nosside (2014), menção honrosa no Prémio Fernanda de Castro do IV Concurso Internacional de Poesia e Prosa (2017). Participou no Festival Internacional Earthquake Terremoto 5ª edição 2021. Participa em várias Antologias, e colabora em diversas revistas internacionais. Seu poema “Africanizando” foi contemplado no ensino fundamental e médio brasileiro. Seus textos foram traduzidos para francês, inglês, espanhol, italiano, e são estudados em escolas e Universidades em Moçambique e no Brasil.

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