
Num momento em que Moçambique vive uma onda de insegurança, com crimes macabros registados em várias províncias, a destacar Cabo Delgado e Maputo, o serviço de táxi por aplicativo Yango tornou-se um reflexo desse cenário alarmante, atravessar a cidade nas horas de pico tornou-se um acto de coragem. Em Moçambique, onde o transporte público continua sobrecarregado, lento e escasso, o aplicativo Yango surgiu como um alívio para muitos de nós. Sou usuário frequente e, até agora, nunca sofri nenhum incidente. Mas sei que tenho tido sorte.
A Yango rapidamente substituiu o táxi tradicional – com tarifas significativamente mais altas – e serviços como o Viva Táxi, conquistando o mercado ao oferecer preços baixos e conveniência digital. Com presença nas cidades de Maputo, Matola e Beira, a plataforma oferece dois serviços em um único app: transporte de passageiros e entrega de encomendas.
Porém, o conforto digital esconde uma realidade sombria: sequestros, assaltos, desaparecimentos e homicídios tornaram-se uma ameaça real. O caso de Egas Bié, brutalmente assassinado após aceitar uma corrida, é o exemplo mais trágico e revoltante. Teria sido crime passional? Ajuste de contas? Crime organizado? Ou até uma conspiração empresarial, já que a Yango tem substituído os táxis tradicionais e outros serviços.
Apesar da sua popularidade, a Yango não se mostra preocupada com segurança. Não há crachás nem identificação visível dos motoristas. É comum surgirem carros com vidros fumados, veículos diferentes dos registados no app ou motoristas acompanhados por terceiros – o que levanta sérias suspeitas. Passageiros podem cadastrar-se com dados falsos, dificultando investigações em casos de crimes.
A empresa investe pesado em marketing e expansão, mas negligencia a segurança. As denúncias feitas no aplicativo muitas vezes são ignoradas. O sistema recolhe feedback dos clientes, pune motoristas, mas raramente ouve ou protege esses profissionais. Não há canais eficazes de emergência, nem acompanhamento em tempo real das rotas.
Como dizia Thomas Hobbes, “onde há medo constante, não pode haver liberdade,”. A insegurança mina o direito de ir e vir, destrói a confiança nos serviços digitais e abre espaço para que o crime organizado explore essas falhas. Há utentes que usam o app todos os dias e nunca passaram por problemas – mas há muitos que sofreram agressões e ficaram em silêncio, sem apoio, sem justiça.
Sugestões urgentes para mudar essa realidade:
- Cadastramento rigoroso com crachás de identificação obrigatórios;
- Câmeras internas e externas nos carros, com gravação em tempo real;
- Registo e gravação de chamadas feitas dentro do aplicativo;
- Histórico de viagens visível no app para motoristas e passageiros;
- Apoio psicológico, jurídico e compensatório para vítimas e familiares;
- Supervisão estatal urgente sobre a atuação da Yango em Moçambique.
A Yango ajuda onde o Estado falha, sim – mas isso não justifica o sacrifício de vidas humanas nem a ausência de responsabilidade social. A mobilidade urbana do futuro deve ser segura, digna e humana.
A vida tem que valer mais do que a tarifa. Que a tragédia de Egas Bié não fique impune.
Morgado Henrique Mbalate, mais conhecido por Morgado Mbalate e O Anjo das Palavras, nasceu em Maputo, no dia 6 de Setembro de 1993. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO); Licenciado em Filosofia pela Universidade São Tomás de Moçambique (USTM). É autor do livro Odisseia da Alma (Editora Edições Esgotadas, 2016); A Arte Suave da Palavra (Chiado Books, 2020); Co-autor do CD de Literatura Negra ‘O que nos a Bala‘ (Comunidade do Tambor, 2018). De entre Prémios e Distinções: destaque para o Prémio Bicentenário de Dostoiévski (2021), menção honrosa no Premio Mondiale di Poesia Nosside (2014), menção honrosa no Prémio Fernanda de Castro do IV Concurso Internacional de Poesia e Prosa (2017). Participou no Festival Internacional Earthquake Terremoto 5ª edição 2021. Participa em várias Antologias, e colabora em diversas revistas internacionais. Seu poema “Africanizando” foi contemplado no ensino fundamental e médio brasileiro. Seus textos foram traduzidos para francês, inglês, espanhol, italiano, e são estudados em escolas e Universidades em Moçambique e no Brasil.










