Cultura

Carta a Setembro | Fernanda de Queýroz

Foto de Veliko Karachiviev na Unsplash

Sento-me e imagino as aves a migrar, como escreveu Vasco Graça Moura: “partem, e eu fico, tentando guardar um pouco de tudo o que se move” — o frio que escorre pela pele, o vento que arrasta folhas, os aromas ainda sem nome que anunciam mudança. Mas também sinto a abundância que trazes: vinhas carregadas, o perfume das maçãs, cores que se deitam sobre as ladeiras pedindo para serem guardadas.

 

E há silêncio, o silêncio das rosas de Eugénio de Andrade, quietas e resistentes, como quem insiste em florescer quando o mundo se recolhe. Tu és a ternura do mundo e o seu pulso secreto. Sophia também te viu assim: instante equilibrado entre dia e noite, passado e futuro, com o mar presente nos ouvidos de quem quer ouvir.

 

Setembro, tu és ciência e poesia, rotina e encanto. Anuncias o outono e fechas o verão, mas também és o meu aniversário — o meu ponto inicial, a lembrança de que cada ano se abre e se encerra como círculo de fogo e renascimento.

 

Por isso te escrevo. Obrigado por me ensinares a sentir o tempo não como relógio, mas como respiração. Obrigado pelos perfumes, pelos silêncios, pelos voos. Obrigado por seres promessa de recomeço.

 

Nasci no teu primeiro dia, e é como se tivesses nascido comigo. No ar paira o perfume das maçãs ainda verdes, enquanto ao longe as aves ensaiam o voo sem mim. Mas eu guardo tudo: o frio líquido, a luz oblíqua, a paisagem que lentamente se recolhe.

 

Tu és um equinócio de sensações, no murmúrio de  Sophia:   
“Oblíquo setembro de equinócio tarde, com o mar desse morar em meu ouvido, pura paixão que não conhece olvido.”
E nesse murmúrio sinto o mar nos ossos, o sal no sangue, como se cada batida fosse início e eternidade.

 

És também a ciência: a Terra que se inclina, a luz que muda de ângulo, as sombras que se alongam como fios invisíveis. Cada hora é milagre físico que converte o banal em encantamento.

 

No meu aniversário, não sopro velas: acendo o mês.

 

Cada respiração é promessa, cada pensamento uma ponte entre o que fui e o que ainda posso ser. Setembro não termina — expande-se dentro de mim.

 

Assim celebro não apenas o meu nascimento, mas a magia do teu existir. És palco de cores, biblioteca de memórias, laboratório de sentimentos és poesia viva, e nela o meu começo coincide com o teu.

 

No relógio da cidade, entras sem pedir licença. Acordas cedo como a luz atravessando as janelas, escorres pelas ruas e parece que tudo quer florescer ao mesmo tempo.

 

Não és verão, não és inverno: és um mês de meio-termo, lembrando a vida que não espera, mas também que ainda há tempo para respirar.

 

Escritores e poetas já colheram em setembro as lições escondidas, Drummond via nas flores de setembro uma paciência silenciosa, quase uma lição: a natureza não pressiona, mas cumpre a sua promessa de renovar. Clarice Lispector, nos textos breves, fala do instante, do detalhe que passa despercebido — e setembro está cheio deles: a primeira árvore florida, o cheiro de terra molhada, o vento que limpa a poeira da rotina.

 

És também o mês de aniversários, e quem nasce em ti carrega a marca subtil do recomeço: nascer junto com o mundo, no instante em que ele se abre para luz e cor onde não há pressa, mas há movimento onde tudo se move, como a cidade ao despertar hesitando entre o que passou e o que virá.

 

Na rotina, revelas-te nos cafés mais cheios, nas calçadas ensolaradas, nos jornais que trazem histórias pequenas de gente que continua. És discreto, mas insistente: recordas que sempre há algo por fazer, algo por admirar, algo que merece começar de novo. 

Não pedes aplausos, apenas atenção e quando a damos, compreendemos a delicadeza com que preparas o coração para tudo: para o verão, para o amor e para o recomeço.

 

Chegas sem cerimónia. A luz muda, o vento torna-se mais leve e as ruas parecem respirar diferente.

 

José Saramago lembrava que “o começo é sempre hoje” — e tu encarnas isso: um convite à renovação, ao movimento, ao que ainda virá. Sophia, com sua poesia límpida, viu em ti a brisa que corre pelo rosto, a luz que se inclina, a promessa da natureza em cada detalhe.

 

Há algo de literário em ti que vai além das estações. És o mês das pequenas histórias: o café prolongado na varanda, o passeio sem pressa, o jornal do dia que lembra que o mundo continua.

 

 E quando o quotidiano se aproxima da poesia e a poesia se infiltra na rotina, deslizas entre o verão e outono, entre o calor que ainda insiste e o frescor que se anuncia.

 

E a cidade desperta lentamente e a luz atravessa janelas e ilumina cantos antes invisíveis. Há um silêncio cheio de presença, uma respiração que se oferece ao corpo e ao espírito.

 

Setembro, tu és a plenipotência do calendário o encantamento do voo o cheiro da terra do campo do abafo do granito da cidade da partida e da chegada do começo e da despedida. “És”.

 

Celebro-te nas aves que partem, nas maçãs maduras, no silêncio das rosas, na luz do equinócio onde permaneces discreto. Não exiges aplausos, não impões a presença, ofereces páginas em branco, momentos suspensos, instantes que se repetem com nuances diferentes.

 
E em cada ano, suave e firme, celebro-me contigo.

 

Fernanda de Queýroz

fotografia de Fernanda Queyroz

 Fernanda de Queyroz é psicóloga, artista plástica, estilista e pesquisadora nas áreas de moda, arte e identidade. Estuda os cruzamentos entre corpo, cultura e linguagem visual, com enfoque na moda. Apaixonada por História da Arte, desenvolve projetos interdisciplinares que exploram o feminino como potência criativa e transformadora.

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