
As palavras engendram o mundo que habitamos. Tudo o que sabemos parte do estímulo e impulso dos vocábulos. Nossa realidade exterior se expressa por obra das palavras, as quais, constituem a nossa realidade, ou, ao menos, vestígios da realidade. Eis a mais cristalina verdade. Em meio ao universo humano, uma classe de seres especiais se destaca. Os escritores, sujeitos líricos por excelência, nômades que, não sabem mas buscam, estão em constante movimento, em jornada, numa travessia em que não importam tanto os locais de origem e destino, mas passagens, transições, trocas, frequentação mútua, o atravessamento, e o diálogo como força fecunda de uma outra atenção e outro modo de habitar a terra, conhecê-la, vivenciá-la através das palavras. Surge então a poesia que tem o mágico poder de excitar-nos a imaginação a tal ponto que as palavras podem dizer-nos uma miríade de coisas. No campo poético palavras são escorregadias, de índole metafórica, polissêmica, essencialmente simbólicas. Significante remetendo a outro significante, sem um ponto fixo, sem significados fechados.
O escritor e editor português, Jorge Vicente, em sua mais recente obra publicada pela Editora Urutau, “Os ventos e as marchas”, convida-nos a cogitar das possibilidades que a poesia nos oferece para descobrir sentidos esconsos, recuperar a plenitude das palavras e também, por que não? Desaferrar-nos do pensamento racional e pragmático. Em breves 72 páginas, Vicente lança mão de uma linguagem que nos abre um feixe de possibilidades de ser. São poemas que em certos momentos nos refrescam como aquele vento fresco e suave vindo do mar. Em outros poemas nos aborda tal insuspeitado vendaval de sentidos— eis a função do poeta, que sabe ouvir o que as palavras sussurram.
- 4.
escrevemos sempre palavras muito velhas / nos dicionários que confirmam a nossa / infância, palavras
presas por fios invisíveis / e fantasmáticos / palavras sem a leveza de um corpo que desafia / e transgride,
palavras sem ofício e sem a liturgia / da lama e do amor / palavras linhas-de-montagem-e-de-memória / e sem a voraz ventania /dos dias claros.
“Os ventos e as marchas”, reúne poemas divididos em duas partes correlatas ao título. Na primeira parte, “Os Ventos”, há profunda percepção afetiva que encharca os pensamentos com a seiva das dinâmicas e correntes do mundo natural, da vida mesmo. Estamos diante de um poeta atravessado pelas vozes do mundo natural. Emana dos textos um valor próprio à abordagem estética da natureza que introduz na relação entre homem e natureza um elemento afetivo, sentimental e (ir)racional.
não existe dualidade entre um pássaro / e uma tempestade
se abres a linguagem ao voo e ao relâmpago, / tens a leveza do mundo nos teus olhos de / trovão.
O poeta lembra-nos que a natureza é uma referência que encerra a experiência do sutil. Daí seus poemas abordarem palavras como vento, rios, floresta, pântanos, animais silvestres, frutos, e solo. Textos de significativo peso ético, porque repercutem as responsabilidades pelo modo como lidamos com estas instâncias. Nossa espécie polui as águas, extermina outras espécies, derruba florestas, exaure os solos afastando-nos da natureza da qual somos parte intrínseca. No mundo que criamos há inúmeros discursos, interesses os mais díspares, e forças em disputas. Nossa lógica infelizmente ainda é a da devoração e do consumo, do emprego da violência física e simbólica, das manipulações da ideologia dominante de um capitalismo que visa perpetuar um sistema de coisas que tem traduzido fragorosos desastres ambientais.
E não é só. Também vamos devastando a linguagem no momento em que privilegiamos com força brutal o mínimo expressivo em nossas comunicações nas tais redes sociais telegráficas (desculpem o anacronismo do termo), melhor seria usar curtidas ou likes. Vamos estilhaçando a conversa franca, o diálogo amistoso, o ouvir o outro. Andamos aferrados à radicalidade de imagens e vídeos, sejam eles verdadeiros ou “fakes”, e finalmente embarcamos na aventura cega da Inteligência Artificial! A devastação da linguagem vai também antecipando e desdobrando a devastação da vida. É nesta confusa, desordenada, anárquica e caótica seara, neste campo de disputas, divisões e desatinos de toda sorte que se infiltra a micropolítica da poética de Jorge Vicente. Nossa época e nosso mundo necessitam de grandes metamorfoses de percepções. A começar por uma sensibilidade primordial quanto ao meio que habitamos. Definha no horizonte a expectativa da esperança.
somos muros rompendo marés / promessas artesanais de outono / sem os dias escuros e fortes / da esperança despedaçada por bombas / e por salivas
um corpo escreve sempre na profunda voz / da catástrofe, mas dança com ternura extrema
/ para que a eternidade não possa [nunca / deixar de nascer.
não há vazio que separe em duas metades / o texto transformado em holocausto de tinta / tinta vermelha de pele / roupa que é mudada quando os astros / subvertem o seu verbo iniciático
tu és o múltiplo de milhares de corpos / não te lembras, mas eu sei: / morreste apenas nas sombras / breves da linguagem.
Aí temos uma poesia que se aproxima da filosofia, ao convocar o leitor a pensar sobre aquilo que está, quase sempre, ao rés-do-chão, pouco percebido e valorizado pelos homens, mais voltados para as tecnologias, para as descobertas científicas, e o antiquíssimo hedonismo humano de nossos dias no qual o poder econômico e a cultura de massa predominam. Sombrios tempos!
Vicente estimula uma compreensão do mundo natural como repositório simultâneo das dimensões espirituais e das condições físicas. Positivamente seus poemas catalisam possibilidades de leituras que atuam na mudança de visão de mundo, para que afinal possamos definitivamente deixar de lado os “dicionários que confirmam a nossa Infância”. Um livro como “Os ventos e as marchas” evoca e provoca a urgente necessidade de pensarmos as catástrofes climáticas do presente, como meio de educação moral da humanidade. O desequilíbrio ecológico que estamos a vivenciar exige imediatas e firmes atitudes. Essa a marcha constante que devemos nos empenhar para um “chegar-a-ser”. Para que tenhamos afinal, um planeta no qual seja possível “silêncio e vida e marcha e amor / e círculos de cultura nascendo e baptizando / o desejo e a esperança.
- se queres ser humano / dá o que for de ti / à correnteza de todos os rios.
Livro: “Os ventos e as marchas” – Poesia de Jorge Vicente, Editora Urutau – Barreiro / Setúbal, Portugal, 2025, 72p. ISBN 978-65-5800-871-1
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Krishnamurti Góes dos Anjos tem publicados os livros: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos, Embriagado Intelecto e outros contos, Doze Contos & meio Poema, À flor da pele – Contos e Destinos que se cruzam – Romance. Participou de 30 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Há textos seus publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último romance publicado pela editora portuguesa Chiado – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional – Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea veiculadas em diversos jornais, revistas e sites literários.












