Cultura

Por você, Mauro Santa Cecília | Letícia Ferro

Por você, Mauro Santa Cecília, Autor Letícia Ferro

Para você, Julio Santa Cecília

 

Inopinadamente, um sentimento na escrita emergencia o alcance de sua significância, revelando-se, ao mesmo tempo, incapaz de aludir todo seu valor – a plasmar na sorte do encontro, qual seja, da leitura, da escuta, do tête-à-tête. Ou de tudo isso junto e misturado. Eis o meu acesso a Mauro Santa Cecília. O que parecia sonho nada sonhável tornou-se, então, possível quando passei a residir na Cidade Maravilhosa, e fui apresentada a ele por Meg, amiga querida em comum. Era uma noit’arde de novembro de 2017, na Livraria Travessa, em Ipanema, no lançamento do livro de poemas Baião de 2 (7Letras) – escrito por Mauro e o cantor/ compositor Leoni. No aguardo da dedicatória, aceno distintivo, fiquei. À medida que a fila encurtava, a visão tremulava, a garganta se aferrava à secura. Por puro paroxismo, tamanha era a minha rejubilação. E não, não apenas naquele dia – acorrendo para outras oportunidades que se sucederiam: “Mas, ela não fala!”, o mestre dispararia, certa feita, para mim, com o sorriso largo que lhe era tão nobre quanto essencial – por todo o sempre. Flagrantemente, de cordata presença. E fingir costume nunca foi meu forte; minha cabeça falhava em razão – defronte a sua presença, e com quem fui me educando, ainda menina em flor – no sol a pino, no Cerrado. Foi com Santa Cecília que passei a acreditar ser possível ir “a pé do Rio a Salvador” (a Goiânia, então…) e a recobrar a vida, apesar dos pesares, em seu diferido brio, cantarolando-a, assim, exatamente, “como ela é”. Porque “[…] o que a vida/ quer da gente é coragem” (SANTA CECÍLIA, 2019, p. 55).

Estar com o Mauro era como acercar-me da vida com a poesia, no seu modo entronizado, de cor tirante ao que há de mais visceral. Era experiência que se dispensava ao post-it de sua realização e que, aos índices da ciência estatística, jamais aos da poiesis, não pressentia repetir-se. Mas o tempo se encarregaria de abraçar uma oportunidade segunda, terceira…, li-quefazendo-se lírico e generoso: o que estou, agora, a contar nestas linhas. (Tento, não obstante, com a presença que me falta, pelo calor da partida, descumprir a palavra despedida.) Por isso, é imperativo deter o instante. O primeiro deles, sobretudo, irrompera, para mim, como uma “senha” que, de dentro, me fizera abrir o baú das recordações – “cada lembrança é uma orquídea/ na sala” (SANTA CECÍLIA, 2019, p. 31). Com elas, pude (me) apr(e)ender, arremetendo-as contra a prospecção dos dias, já que a ação do tempo, não raro, insiste em apagá-las do jardim da Mnemósine. Não poderia permitir isso jamais. Resisto. Persisto. Registro. A lição é a de que o amor maior tem de ser pela sensação fiável com fios dispostos à eternização de momentos, ao (en)canto, avermelhado, do carpe diem, em que pese sua descontinuação. Nunca a sua durée (na pronúncia de Bergson). E se é pouco edulcorante ou intranquilo, beirando a situações-limite (vulgo “bofetes”), o que vem nos acometer, o melhor a ser feito é seu rearranjo. Afinal, retomo o lembrete do poeta: a vida deve justificar-se por si só – “como ela é”. E a arte a imita, mas também a excede e, a seu jeito, torna agudos os sentidos ao crestar em poeira de realidade – em ressignificação.

 

Percebendo e soçobrando o cotidiano, pude tomar nota de que os encontros com Santa Cecília não eram tão (só) ficção, já que, não tardaria, ele se faria presente no IEL, à época no bairro do Flamengo – e, onde, naquele contexto, como curadora dos “Concertos de Poesia”, teria a honra de entrevistá-lo. Quão imensas foram minha lisonja e alegria! Sim – sim, cumpria-se muito (de) verdade. Incrédula, repetia sem cessar, em meio a gaguejos. De novo, vi(ve)ria o poético. Poetizaria a vida. Não bastasse isso, estaria com Mauro noutras marcantes datas, como na da apresentação de sua Célula mater – projeto experimental feito em parceria com Maurício Negão, no quadrante dos estúdios da Áudio Rebel, em Botafogo. E que pude contemplar em mais de uma ocasião. A imersão sonora com a qual ele se projetava erguia-se no melhor modo sinestésico de ser. Era fascinante vê-lo. Então ela, a magia de sua assinatura, insurgia-se, mais uma vez, dando largas ao autorrisco da procura e adivinhação de si – como ele era. Mauro estava apenas sendo, pois “só sei escrever sobre/ a minha existência” (SANTA CECÍLIA, 2019, p. 53). E sem qualquer afetação. Sempre.

 

Sua voz precedia a noite para se esgarçar entre as manhãs de quem o entrevisse: a vida o/se espectralizava até em sua ausência (como, aqui, inclusive); era estrela a iluminar prescindindo de “menos muros/ mais pontes” (SANTA CECÍLIA, 2019, p. 35) – onde quer que fosse ou estivesse. Luminescência na mensagem de sua(s) letra(s). Isto é: aguilhão das palavras. Na forma antiforma e absolutamente humana sua, nenhum signo destoava da expressão plena de sê-lo. A escuta celular era rastreável, de encher os sentidos, com muita música (de) dentro. A condição mater, nela intrinsecamente arrolada ao horizonte pater, se comprazia no estreito das relações familiares, fazendo chegar ao Julio, filho – único! – de Mauro. Recordo-me, com preciosismo, a doçura no olhar e a fala dessa relação sendo palmilhados de modo terno no peito de Santa Cecília: o orgulho ímpar de seu rebento, o maior deles, sem hesitação – em relevância, dedicação, acuidade amorosa. Sinergia da noite mater à noite filius: assim se acenaria o plus – no vislumbre das nuances do Amarelo manga. Quer dizer (vale a abertura do parêntese): duo que Julio havia, há pouco, formado com Rafael Frejat, e, depois, com Leo Lattavo, Ricardo Kaplan, Antonio Dal Bó – entre as participações volantes –, a quem pude estender entusiasmada apreciação. A sonoridade resultante do Amarelo… se entremoveria no acumulado de influências – de Beatles, Oasis… a Tame Impala, como a quaisquer outras que contribuíssem para o conceito aberto do grupo. A música dos meninos tocava ao correr do diálogo do rock setentista, oitentista…, porém, de modo também muito mais amplo quanto contemporâneo, ou seja, tão mais diverso quanto agregador de escutas, texturas, modulações, gêneros outros. Os seus momentos de invenção espiralavam-se em variantes sem fim – “coisa da nossa geração”, sintetizava Julio (e coisa, também, do Mauro, sintetizo eu…). E sobre o qual avultava o segredo de polichinelo: o fruto não cai mesmo longe do pé.


O espaço entre pai e filho se infinita(va) talentoso, como caminho de crochê – artesania dos primeiros passos, tessitura in progress, pulsante, ciosa da convivência, da sua tenra origem ao fim da carne, nunca da
coexistência. Ou seja: da vivência mútua, calçada na admiração, cumplicidade, parceria. E nos desdobramentos disso. Como na dispensa de qualquer diálogo. Ou da presença física. Porque, às vezes, no próprio coração do silêncio se reconhece o outro, não se sabendo então só. Logo, o modo de (se) reverberar, de novo, em plano-sequência, ao natural. Porque é também natural o fluxo da vida, como deve ser. E, assim, Julio, Mauro (nos) deixa.

 

 

REFERÊNCIAS

 

SANTA CECÍLIA, Mauro. Decolagem. Rio de Janeiro: 7Letras, 2019.

Fotografia de Letícia Ferro com Mauro Santa Cecília.

Fotografia de Letícia Ferro com Mauro Santa Cecília.



 

 

Fotografia de Letícia Ferro

 

 

Letícia Ferro é Doutora em Letras e Linguística pela UFG. E-mail: let_ras@hotmail.com



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