
Era de madrugada que sentia escorrer pelas coxas aquela seiva, leitosa, em plena escuridão. As palavras doces e sussurros em seu ouvido, o abraço invisível. O calor de dormir abraçados. A chama que sempre se reacendia, já perto da aurora. Depois, o sono, profundo e sem sonhos. Só duas ou três vezes, sonhara, desde que chegara ali. Uma vez, um pesadelo terrível: um monstro bestial ( não conseguia visualizar perfeitamente sua cara ) alado, com longa cauda e escamas de réptil, medonho, repulsivo, seria seu noivo. Ela jazia amarrada a um penedo, um vento cortante batia em seu rosto, emaranhava seu longo cabelo negro, e o véu e a grinalda que o ornavam. Uma tempestade se aproximava. Ela se debatia e tentava se libertar, inutilmente, até que o monstro chegou, voando sobre o mar, as asas negras e peludas vencendo rapidamente a distância até à rocha escarpada. Ela sentiu seu hálito quente, podre, junto ao rosto e o seu coração pareceu que ia explodir. Abriu a boca para gritar, despertando no mesmo instante. Escutou seu nome sendo dito, suavemente, e apaixonou-se pela voz, de ardente ternura. O abraço os fundiu e o sonho mau escorreu para as profundezas da memória. Da outra vez, tinha sonhado com seu pai e irmãs. Acordou por entre as lágrimas de saudade. Ficou vívida na tela da mente, a imagem. Seu pai ao centro, as irmãs, uma de cada lado, todos bem-vestidos, como para uma festa. O pai sorria, um sorriso solar, radiante, e ela comparou o pai com o sol e as irmãs, com planetas que gravitavam, ao redor de sua luz. Os três no jardim, imóveis, como se posando para uma foto. Atrás, o lar. A magnífica casa onde tinha passado toda a sua vida. Reviu seu eu-criança, correndo por entre as roseiras, procurando ninhos de pássaro nas árvores. Aprendendo a tocar a flauta. Em uma das janelas, teve a impressão de ver o vulto da mãe, belo retrato desbotado pelo tempo, o pouco tempo em que conviveram. Guardou o sonho com cuidado, como se fosse uma flor seca e frágil, num papel de seda. Não lembrava de mais nenhum sonho, as noites eram intercaladas com amor anônimo e repouso absoluto. Tinha perdido, já, a noção dos dias. Não sabia se estava ali há semanas, meses ou anos. Tampouco se recordava de sua chegada. Como tinha vindo parar ali? Lembrava, vagamente, dos últimos dias junto à família, depois uma nuvem se estendia, nenhum vestígio de sua vida passada, ou dos acontecimentos que a haviam transformado tão radicalmente. Era belo, o lugar em que se encontrava agora. Um balcão dava para montanhas azuladas, que pareciam se esfumar no horizonte. Dali, podia ver o nascer do sol e o ocaso, com suas cores cambiantes. O quarto era finamente mobiliado, confortável, decorado com afrescos na parede. Música tocava baixinho, conforme andava pelos ambientes, todos sempre limpos, perfumados, arrumados. Quem os limpava? Na hora em que sentia fome, dirigia-se à mesa, que estava magicamente pronta, com delícias suas preferidas e outras, que nunca havia provado. Vinhos e licores atiçavam o paladar. Quando terminava, levantava-se da mesa e os pratos voavam até à cozinha, para serem lavados, da mesma maneira misteriosa. Todos os seus desejos e necessidades eram satisfeitos sem que, ao menos, precisasse falar. Salas de leitura e de música, com muitos livros e instrumentos, estavam equipadas para que ela se distraísse da absoluta solidão. Que só era parcialmente quebrada, quando a noite caía e ela se despia para dormir. Era um estranho paraíso e se ela tivesse amigas para perguntar se era feliz, provavelmente ficaria confusa e não saberia o que responder. Mas, sentia que a cada noite, o seu amor aumentava, seu prazer em ouvir aquela voz, o contato do corpo sedoso e forte, os risos e conversas no escuro. Pediu para acender a lâmpada, mas a voz negou. Chorou, então, lágrimas amargas, e desfiou um rosário de lamentos… da necessidade de ver e ouvir outras pessoas, de andar por aí, de dançar, de jogar, de brincar com crianças e animais, de conversar. E nós, não conversamos? Perguntou a voz, com uma mágoa contida. Era diferente. E porque nunca podiam se ver frente a frente? Se olhar nos olhos? Conviver durante o dia, partilhar jantares, cálices de vinho? Não, não era possível, dizia a voz, num tom cada vez mais triste e reticente. No peito, ela sentia a grande revolta. Tomou sua decisão. Esperou pelo ressonar tranquilo, depois da luta amorosa, que pareceu ainda mais intensa, nessa noite. Foi ao outro quarto e buscou o fogo, acendendo a lamparina. Devagar caminhava, sombras bruxuleavam na parede, criando ilusões de ótica. Porém, ao chegar mais perto, um joelho sobre a cama, inclinando-se, viu: o Amor. Tamanha beleza a assustou. Deslumbrou-se de tal forma, e de tal forma, perturbou-se, que a mão, trêmula, deixou cair uma gota do azeite fervente e espantou o Amor que, após um grito de dor, voou pra longe, deixando cair uma pena de ouro de suas asas. É com essa pena, mergulhada em umas gotas de sangue do próprio punho, que, hoje, ela escreve os seus poemas, para aliviar a imensa saudade.
Daniela Pace Devisate nasceu em São Paulo, capital, em 20 de julho de 1971. Vive atualmente em Iguape. é professora de arte, poeta e artista visual. Teve poemas publicados em diversas revistas literárias digitais, como Germina, Mallarmargens, Literatura&Fechadura, entre outras. Em 2018, participou da coletânea da antologia Voos Literários, pela editora Essencial. No mesmo ano, participou de feiras de publicação independente, onde vendia seus livros artesanais de poesia, editados por sua editora cartonera, a Verso Livre. Em 2019, lançou Haikai Tupy, edição independente com tiragem minúscula. Em 2020, participou da plaquete As luas e suas variações, organizador Cláudio Daniel; participou da antologia Simpósio dxs poetxs bêbadxs; publicou um poema na revista portuguesa T¨lön, editada por Luiza Nilo Nunes e nesse mesmo ano, publicou seu primeiro livro individual, Tantos Quartos lunares, pela editora Urutau. Em 2021, saiu no livro As mulheres poetas na literatura brasileira, editora Arribaçã. Lançou um livro pela editora Kotter, Véus de Alethea. O seu último livro publicado é Berço de lírios, pela Editora Cloe, 2023.










