Poesia & Conto

O amor é um lugar | Gabriela Ribeiro Lozano

Foto de Nikolai Lehmann na Unsplash

A única certeza existente na escrita do amor é sua característica imensurável de indefinição. O amor é, nas palavras do poeta norte-americano e.e. cummings (1894-1962), uma abstração – um lugar onde o etéreo é a construção própria desse universo amoroso. Talvez seja por isso que o amor, na poesia, seja tão explorado. 

 

Nesta pequena seleção de poemas de três poetas norte-americanos, busquei encontrar o que a voz de cada um deles falava desse tema tão universal e tão subjetivo. 

 

Para Barthes, a necessidade do discurso amoroso é o seu próprio existir no mundo enquanto colocado por um sujeito1. Podemos dizer, então, que o meio de resistência da produção cultural e artística sobre o amor é um fazer poético próprio – uma produção embebida de desejo, um chamamento ao concreto do corpo – um vislumbre de fechadura voyeur no qual o eu poético libera e ramifica seu desejo. A linguagem do amor, alude então, inevitavelmente, ao erotismo, onde as palavras se transformam em um corpo que acaricia o outro. O poema de cummings registra esse erotismo belamente em “somewhere i have never traveled, gladly beyond”, misturando as sensações do desejo com o toque sutil da estação florida – tudo isso atravessado pelo olhar.

 

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skillfully, mysteriously) her first rose

A discursividade amorosa de cummings, mais do que Ashbery ou O’Hara, está continuamente pautada na construção do gesto sutil do amor aliada à construção de sua poesia. A linguagem, para ele, é o caminho para a experimentação do amor como um mundo possível apenas pela linguagem e pelo coro vivo das palavras que constroem o rico arcabouço de imagens do poeta-pintor que era. Barthes defende que o amor possui uma atopia – termo retirado da filosofia socrática – específica e delimitada, na qual falar sobre o amor, em qualquer instância, exige que o sujeito se dirija a um outro, esteja imerso no amor para falar sobre ele e, sobretudo, imerso no desejo de se comunicar com esse outro. Essa voz, mergulhada no desejo é a que espalha a “pulsão de dedicatória” enunciada por Roland Barthes. 

Diferentemente da produção de cummings – mais conectada ao experimentalismo do Surrealismo e do Cubismo das primeiras décadas do século XX – Frank O’Hara (1926-1966) e John Ashbery (1927-2017) são poetas nascidos nos anos vinte, imersos nas transformações da metrópole e ligados à vivência artística da Escola de Nova Iorque, cujo prestígio –  advindo das influências do expressionismo abstrato e do Surrealismo de Max Ernst e Duchamp – revelou nomes como James Schuyler, Kenneth Koch , Barbara Guest, Bernadette Mayer e Ron Padgett. O’Hara e seus contemporâneos, cada qual a seu modo, exploraram o campo linguístico-amoroso em seu máximo. Frank O’Hara, muitas vezes, deixa seu eu lírico escapar-se à sorte da cidade e da sua língua que corre e se movimenta nas ruas de Nova Iorque, onde O’Hara tanto circulava à pé – onde tudo acontece na hora do almoço ou em uma banheira, como em “Mayakovski”, 

 If he

will just come back once

and kiss me on the face

his coarse hair brush

my temple, it’s throbbing!

then I can put on my clothes

I guess, and walk the streets.

(…)

I love you. I love you,

but I’m turning to my verses

and my heart is closing

like a fist.

 

A necessidade desse outro – presente e ausente pela linguagem – aparece belamente em “Morning”, no qual o eu lírico constrói as densas imagens através da ausência do outro – amado, desejado e adorado. Aqui, vemos que a necessidade do outro está inerente à linguagem e, em apenas uma sentença verbal, vemos o corpo inteiro e sua falta. 

 

is difficult to think                                          

of you without me in                                      

the sentence you depress                           

me when you are alone                                   

 

O desespero amoroso da dedicatória também aparece em “To you”, poema em que O’Hara recria a paisagem espelhada na figura amada, sobreposta em cores e paisagem pictóricas – em imagens lacônicas e eróticas ligadas à natureza como “you become a landscape in a landscape/with rocks and craggy mountains/and valleys full of sweaty ferns”. O “rastro múltiplo” da inscrição desse outro, nesse ponto, se volta para as origens idílicas do Romantismo, através da confluência harmônica entre eu e o mundo, mais precisamente, a Natureza

 

Qual o sentido, então, além da necessidade de o sujeito enunciar-se – a si mesmo e ao outro – escrever poemas de amor, continuar a debater sobre um tema tão explorado criticamente, desde o início da produção cultural humana? A resposta, talvez, nunca fique clara, racionalmente explicada nas linguagens exatas ou até mesmo nas linguagens artísticas. O fato é que a necessidade de se falar sobre o amor – e, mais profundamente, criar sob o efeito do amor – é que explorá-lo, espalhá-lo nas mais distintas ramificações subjetivas humanas é lidar com o problema da linguagem enquanto expressão e materialização de algo do amor sem lugar.

 

Contrariando algo da ordem universal e política vigente dos nossos tempos, talvez o amor apenas viva, enquanto manifestação, através da linguagem que o elucubra por intermédio das subjetividades criadas pelas Artes. John Ashbery, em “Late echo” – “Eco distante” – a necessidade da continuação da criação acerca do amor, “to write about the same old thing/In the same way” inscreve o amor como um fluxo contínuo necessário e diverso, amplo e disruptivo das qualidades e necessidades humanas em sempre e sempre expandir-se, movimentar-se através do amor como uma existência que compensa algo em relação a estar vivo nesse mundo, nesse tempo – apesar de saber que o outro nem sempre estará lá, nesse lugar do amor – mas que isso seja a mais sutil flâmula para o início do gesto da criação.

 

Alone with our madness and favorite flower
We see that there really is nothing left to write about.
Or rather, it is necessary to write about the same old things
In the same way, repeating the same things over and over
For love to continue and be gradually different.

Mas por que eu escolhi selecionar e traduzir poemas de amor desses três poetas norte-americanos? Talvez porque eu mesma, como quase todo mundo, sofra as dores do amor, e tenha encontrado nos poemas deles um pouco da subjetividade de que necessito para encarar minha objetividade no tema. Ou seria o contrário? Não sei se ainda sei a resposta, ou se algum dia cheguei a saber. Mas amo perguntar a mim mesma, amo perguntar secretamente a quem em segredo eu amo, e amo sentir que, de alguma maneira, vivo as mesmas dores que viveram e. e. cummings, Frank O’Hara e John Ashbery.  

Notas

1 “ (…) Quando um discurso é dessa maneira levado por sua própria força à deriva do inatual, banido de todo espírito gregário, só lhe resta ser o lugar, por mais exíguo que seja, de uma afirmação. (…)” – Epígrafe – Fragmentos de um discurso amoroso.

 

love is a place

 

love is a place 

& through this place of

love move 

(with brightness of peace)

all places

 

yes is a world 

& in this world of 

yes live

(skilfully curled)

all worlds. 

 

e.e. cummings, em complete poems 1904-1962.

 

o amor é um lugar

 

o amor é um lugar

& através desse lugar do

amor se movem

(com a paz luminosa)

todos os lugares

 

sim é um mundo 

& nesse mundo do 

sim vivem

(habilmente enredados)

todos os mundos.

 

Late Echo

John Ashbery

 

Alone with our madness and favorite flower
We see that there really is nothing left to write about.
Or rather, it is necessary to write about the same old things
In the same way, repeating the same things over and over
For love to continue and be gradually different.

Beehives and ants have to be re-examined eternally
And the color of the day put in
Hundreds of times and varied from summer to winter
For it to get slowed down to the pace of an authentic
Saraband and huddle there, alive and resting.

Only then can the chronic inattention
Of our lives drape itself around us, conciliatory
And with one eye on those long tan plush shadows
That speak so deeply into our unprepared knowledge
Of ourselves, the talking engines of our day.

 

Eco distante

John Ashbery

Sozinhos com a nossa loucura e flor favorita

Vemos que realmente não há nada sobre o que escrever.

Ou melhor, é necessário escrever sobre as mesmas velhas coisas

Do mesmo modo, repetindo e repetindo as mesmas coisas 

Para que o amor continue e se torne gradualmente distinto.

Colmeias e formigas precisam ser reexaminadas eternamente

E a cor do dia colore 

Centenas de vezes variando do verão para o inverno

Para que esse ritmo seja diminuído até o de um autêntico 

Saraband e se amontoe lá, vivo e descansando.

Somente então a falta de atenção crônica

Das nossas vidas se drapejará ao nosso redor, conciliadora

E com um olho naquelas longas sombras aveludadas de bronze

Que falam tão profundamente em nosso conhecimento inadequado

Sobre nós mesmos, os motores conversadores dos nossos dias. 

e.e.cummings

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skillfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands. 

algum lugar para o qual nunca viajei, alegremente além

de qualquer experiência, seus olhos tem um silêncio:

no seu mais frágil gesto existem coisas que me envolvem,

e que não consigo tocar pois estão muito perto 

seu olhar mais gentil facilmente me revelará

embora eu tenha me fechado como dedos, 

você sempre me abre pétala por pétala como a Primavera abre 

(tocando habilmente, misteriosamente) a primeira rosa 

ou se seu desejo é me fechar, eu e

a minha vida nos fecharemos belamente, de repente,

como quando o coração desta flor imagina 

a neve caindo delicadamente em todos os lugares:

nada que devemos perceber nesse mundo se iguala 

à intensidade da sua fragilidade: cujas texturas

me compelem com a cor dos seus países,

fazendo a morte se render para sempre e com cada respiração 

(eu não sei o que existe em você que se fecha

e se abre; apenas uma coisa em mim entende

 que a voz dos seus olhos é mais profunda do que todas as rosas)

ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.

e.e.cummings

since feeling is first
who pays any attention
to the syntax of things
will never wholly kiss you;

wholly to be a fool
while Spring is in the world

my blood approves,
and kisses are a better fate
than wisdom
lady i swear by all flowers. Don’t cry
—the best gesture of my brain is less than
your eyelids’ flutter which says

we are for each other: then
laugh, leaning back in my arms
for life’s not a paragraph

And death i think is no parenthesis.

já que o sentimento é o primeiro

que presta qualquer atenção

à sintaxe das coisas, 

nunca te beijará inteiramente;

inteiramente por ser um tolo 

enquanto a Primavera existe no mundo,

meu sangue ferve,

e os beijos são um destino melhor

do que a sabedoria 

querida eu juro por todas as flores. Não chore

-o melhor gesto do meu cérebro é menor do que

a palpitação de suas pálpebras que dizem

nós fomos feitos um para o outro: então

ria, recostando-se em meus braços

para a vida, que não é um parágrafo

e a morte eu acho não é nenhum parêntesis. 

Frank O’Hara 

To you

What is more beautiful than night

and someone in your arms

that’s what we love about art

it seems to prefer us and stays

if the moon or a gasping candle

sheds a little light or even dark

you become a landscape in a landscape

with rocks and craggy mountains

and valleys full of sweaty ferns

breathing and lifting into the clouds

which have actually come low

as a blanket of aspirations’ blue

for once not a melancholy color

because it is looking back at us

there’s no need for vistas we are one

in the complicated foreground of space

the architects are most courageous

because it stands for all to see

and for a long long time just as

the words “I’ll always love you”

impulsively appear in the dark sky

and we are happy and stick by them

like a couple of painters in neon allowing

the light to glow there over the river”.

Para você

O que é mais bonito do que a noite

e alguém nos seus braços

é o que mais amamos sobre arte

parece nos preferir e fica

se a lua ou uma vela tremeluzente

derrama um pouco de luz ou mesmo a escuridão

você se transforma em uma paisagem em uma paisagem

com rochas e montanhas escarpadas

e vales repletos de samambaias suadas

respirando e se erguendo até às nuvens

que na verdade caíram 

como um cobertor de aspirações azuis 

pela primeira vez não é uma cor melancólica

porque está olhando para nós 

não há necessidade de vistas somos um só

no primeiro plano complicado do espaço 

os arquitetos são os mais corajosos

porque permanece para todos verem 

e por um longo longo tempo assim como

as palavras: “Eu sempre amarei você”

impulsivamente aparecem no céu escuro

e estamos felizes e seguimos com elas 

como um casal de pintores em neon permitindo

à luz que brilhe lá sobre o rio.

Walking to work 

It’s going to be the sunny side
from now
    on. Get out, all of you.

This is my traffic over the night
and how
    should I range my pride

each oceanic morning like a cutter
if I
  confuse the dark world is round
round who
     in my eyes at morning saves

nothing from nobody? I’m becoming
the street.
    Who are you in love with?
me?
  Straight against the light I cross.

Andando para o trabalho

Será o lado solar 

a partir 

           de agora. Saiam da frente, todos vocês.

Esse é o meu tráfego pela noite

e como 

           Eu devo aumentar o meu orgulho

a cada manhã oceânica   como um cortador

se eu 

     confundir o mundo escuro que gira

gira quem

               nos meus olhos de manhã salva

nada de ninguém? Eu estou me tornando

a rua.

            Por quem você está apaixonado?

eu? 

       Direto contra a luz eu atravesso. 

Morning                                                    

I’ve got to tell you                                     

how I love you always                              

I think of it on grey                                   

mornings with death                         

 

in my mouth the tea                                  

is never hot enough                                   

then and the cigarette                                

dry the maroon robe                                  

 

chills me I need you                                  

and look out the window                           

at the noiseless snow                                 

 

At night on the dock                                  

the buses glow like                                    

clouds and I am lonely                               

thinking of flutes                                        

 

I miss you always                                      

when I go to the beach                               

the sand is wet with                                    

tears that seem mine                                   

 

although I never weep                                

and hold you in my                                     

heart with a very real                                 

humor you’d be proud of                            

 

the parking lot is                                           

crowded and I stand                                      

rattling my keys the car                                 

is empty as a bicycle                                      

 

what are you doing now                                

where did you eat your                                  

lunch and were there                                      

lots of anchovies it                                         

 

is difficult to think                                          

of you without me in                                      

the sentence you depress                                

me when you are alone                                   

 

Last night the stars                                         

were numerous and today                               

snow is their calling                                        

card I’ll not be cordial                                     

 

there is nothing that                                        

distracts me music is                                       

only a crossword puzzle                                  

do you know how it is                                     

 

when you are the only                                     

passenger if there is a                                      

place further from me                                      

I beg you do not go.

 

                                         

   

 

Manhã

 

Eu preciso te dizer

o quanto amo você sempre

penso nisso em manhãs

cinzas com morte

 

na minha boca o chá

nunca está quente o suficiente

então o cigarro

seca o manto marrom

 

me arrepia eu preciso de você

e olho pela janela

para a neve silenciosa

 

À noite na doca

os ônibus brilham como

nuvens e estou solitário

pensando em flautas 

 

Sempre sinto sua falta

quando vou à praia

a areia está molhada com

lágrimas que parecem minhas

 

embora eu nunca lamente

e seguro você no meu

coração com um verdadeiro   

humor do qual você se orgulharia

 

o estacionamento está 

lotado e fico

chacoalhando minhas chaves o carro

está vazio como uma bicicleta

 

o que você está fazendo agora

onde você comeu seu 

seu almoço e onde estão

os montes de anchovas é

 

difícil pensar

em você sem mim na

frase você me deprime

quando você está sozinho

 

Ontem à noite as estrelas

eram muitas e hoje 

a neve é o cartão 

telefônico delas eu não serei cordial 

 

não há nada que 

me distrai música é

apenas uma palavra cruzada 

você sabe como é

 

quando você é o único 

passageiro se há um 

lugar distante de mim

eu te imploro não vá. 

 

Mayakovsky 

 

1

My heart’s aflutter!

I am standing in the bath tub

crying. Mother, mother

who am I? If he

will just come back once

and kiss me on the face

his coarse hair brush

my temple, it’s throbbing!

then I can put on my clothes

I guess, and walk the streets.

2

I love you. I love you,

but I’m turning to my verses

and my heart is closing

like a fist.

Words! be

sick as I am sick, swoon,

roll back your eyes, a pool,

and I’ll stare down

at my wounded beauty

which at best is only a talent

for poetry.

Cannot please, cannot charm or win

what a poet!

and the clear water is thick

with bloody blows on its head.

I embrace a cloud,

but when I soared

it rained.

3

That’s funny! there’s blood on my chest

oh yes, I’ve been carrying bricks

what a funny place to rupture!

and now it is raining on the ailanthus

as I step out onto the window ledge

the tracks below me are smoky and

glistening with a passion for running

I leap into the leaves, green like the sea

4

Now I am quietly waiting for

the catastrophe of my personality

to seem beautiful again,

and interesting, and modern.

The country is grey and

brown and white in trees,

snows and skies of laughter

always diminishing, less funny

not just darker, not just grey.

It may be the coldest day of

the year, what does he think of

that? I mean, what do I? And if I do,

perhaps I am myself again.

 

Maiakóvski

 

1

Meu coração está agitado!

Eu estou na banheira,

chorando. Mãe, mãe

quem sou eu? Se ele 

só voltar uma vez 

e me beijar no rosto

sua escova de cabelo áspera

minha têmpora, está latejando! 

Então eu posso colocar minhas roupas 

Eu acho, e andar pelas ruas.

 

2

Eu amo você. Eu amo você,

mas estou voltando para meus versos 

e meu coração está se fechando como um

punho.

Palavras! Fiquem

doentes como eu estou doente, desmaio, 

revire seus olhos, uma piscina 

e eu olharei para baixo

para minha beleza ferida 

que na melhor das hipóteses é apenas um talento

para poesia. 

Não posso agradar, não posso encantar ou vencer

que poeta!

e a água clara é espessa 

com golpes sangrentos na cabeça. 

Eu abraço uma nuvem,

mas quando subi

choveu.

 

3

Que engraçado! Há sangue no meu peito

ah sim, eu tenho carregado tijolos 

que lugar engraçado para romper!

e agora está chovendo no ailanthus 

enquanto eu saio para o parapeito da janela

os trilhos embaixo de mim são esfumaçados e

estão brilhando com uma paixão por correr 

Eu salto pelas folhas, verdes como o mar. 

 

4

Agora eu estou silenciosamente esperando pela

catástrofe da minha personalidade 

para parecer belo novamente,

e interessante, e moderno. 

O país é cinza e 

marrom e branco nas árvores,

neves e céus de riso

sempre diminuindo, menos engraçado

não apenas mais escuro, não apenas cinza.

Pode ser o dia mais frio 

do ano, o que ele pensa

daquilo? Quero dizer, o que eu faço? E se eu fizer,

talvez eu seja eu mesmo novamente.

fotografia de Gabriela Ribeiro Lozano

Gabriela Ribeiro Lozano vive em São Paulo desde 2017, cursa Letras (Português/Espanhol) na USP e é professora. Publicou o amor é o fim do cerco (Editora Primata/2021) e outros textos em revistas digitais. Recentemente, publicou traduções de haicais do norte-americano Jack Kerouac no Rascunho 

 

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