Política

O Brasil e as eleições 2024, o desafio de enfrentar a extrema-direita | Jales Marinho

Foto de Jon Tyson na Unsplash

Antes de avaliar o resultado das eleições municipais no Brasil, com o avanço da direita e da extrema-direita nas urnas, é importante observar que não precisa ter posição ideológica mais à esquerda para reconhecer que o neoliberalismo, tão reverenciado nas décadas de 80 e 90 pelo mercado global e pela mídia corporativa, foi o responsável pelo avanço da pobreza, da desigualdade e da desesperança no mundo. Na esteira desse retrocesso veio o agravamento da crise migratória em diversos continentes e o avanço da extrema-direita na Europa e nas Américas.

              O drama dos imigrantes na Europa, fugindo da África e países árabes, na fronteira do México com os EUA e na América do Sul, bem como a explosão de pessoas em situação de rua e populações em condição de extrema pobreza nas grandes capitais europeias, nos EUA e na América Latina reafirma o trágico legado das políticas econômicas liberais focadas no Estado mínimo, no individualismo e contra o Estado de bem-estar social.

                Quem não se lembra o quanto eram idolatrados líderes como Margaret Thatcher, a Dama de Ferro e primeira-ministra da Grã-Bretanha, Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos, Mikhail Gorbatchov, presidente da então União Soviética, algoz do sonho comunista na Rússia, e até mesmo o Papa João Paulo II, hoje generosamente santificado pelo Vaticano?

            Afinal, eram vistos como coveiros do socialismo e salvadores do capitalismo global e do livre mercado. O próprio Papa João Paulo II era venerado, externamente, como embaixador do neoliberalismo no mundo, enquanto internamente censurava a Igreja progressista – que seguia os ensinamentos do Concílio Vaticano 2º, que fez a opção preferencial pelos pobres -, e pôs fim à Teologia da Libertação, idealizada pelo teólogo Frei Leonardo Boff, e que também estava em sintonia com as decisões do Concílio sobre o compromisso cristão com a justiça social.

                 Por outro lado, o apoio do Vaticano ao liberalismo econômico, o combate ao comunismo e a repressão à Igreja progressista acabaram resultando no avanço surpreendente das igrejas neopentecostais na América Latina, que aparentemente adotam a mesma ação pastoral. Apenas em 2019, foram abertas 6.356 Igrejas Evangélicas no Brasil, uma média de 17 novos templos por dia, segundo pesquisa “Políticas Públicas, Cidades e Desigualdades”, do Centro de Estudos da Metrópole (CEM-Cepid/Fapesp), coordenada pelo cientista político Victor Araújo, da Universidade de Zurique, na Suíça, e associado ao CEM.

                    Só que no ano anterior à pesquisa, Jair Bolsonaro, candidato da extrema-direita à Presidência da República, recorreu à farsa “Deus, Pátria e Família” e atraiu de imediato o apoio da maioria dos pastores dessas novas igrejas, que transformaram os templos em comitês eleitorais, além de explorar fiéis ingênuos fragilizados social e espiritualmente com a cobrança extorsiva de dízimo.

                  Combinando esse apoio com o discurso de ódio ideológico, o então candidato encontrou um terreno fértil para fazer avançar seu projeto autoritário de poder, ancorado na extrema-direita que, por sua vez, é alimentada pela ignorância e pela alienação de quem se diz cristão. Isso explica a difícil vitória do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022 e a tentativa de golpe após sua posse, além do crescimento das bancadas de direita e extrema-direita no Congresso Nacional e nos Legislativos estaduais.

                   Crescimento que se repetiu nas eleições municipais deste ano, com a direita e extrema-direita ampliando sua representação nas Prefeituras e nas Câmaras Municipais. Sem falar do cerco da mídia corporativa, com a permanente crítica aos gastos sociais, ao déficit público e à defesa do Banco Central independente. Isso sem falar na chantagem no Legislativo Federal, com sua insistência em manter o orçamento secreto e com pautas que nada têm a ver com o interesse público.   

                  Diante do avanço do extremismo desde 2018, a vitória de Lula, em 2022, representou uma luz na escuridão do autoritarismo e no fortalecimento da democracia. Em que pese o novo crescimento dos partidos mais à direita nas eleições municipais, os partidos de esquerda, especialmente o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Socialista Brasileiro (PSB), conseguiram avançar na conquista de mais prefeitos e vereadores este ano.

                    O PSB passou de 253, em 2020, para 312 municípios agora, e o PT de 182 para 248, e ainda disputará o segundo turno em quatro capitais – Cuiabá, MT; Fortaleza, CE; Natal, RN; e Porto Alegre, RS – e em nove cidades médias. E passou de 2.668 vereadores para 3.118. Juntos os partidos de esquerda somaram 811 prefeitos nessas eleições, enquanto o centro ficou com cerca de 3 mil prefeituras e a extrema-direita aproximadamente 2.500.  

                      Em relação aos partidos de esquerda, pelo menos foram registrados dois avanços importantes: o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST conseguiu eleger 133 candidatos nessas eleições, sendo 110 vereadores e 23 prefeitos e vices em 19 estados brasileiros. Outro ponto positivo foi o crescimento do número de candidatos eleitos egressos das periferias das médias e grandes cidades, e atuantes em movimentos sociais, dos quais 811 mulheres vereadoras.  

                      A imprensa brasileira e muitos analistas políticos insistem em destacar o baixo desempenho das esquerdas e do PT, mesmo estando o poder central com o Presidente Lula, mas muitos ignoram que a centro-direita sempre foi hegemônica nas eleições legislativas e municipais, fato agravado com o avanço do apoio dos segmentos evangélicos e com o fato de o bolsonarismo ter despertado em seus seguidores uma certa consciência política “de direita”.

                      Isso porque a maioria não tem qualquer noção sobre esquerda e direita. Parecem mais abduzidos por um discurso supostamente ideológico e messiânico do Deus, Pátria e Família. Por isso também se nota que as realizações materiais dos governantes, mesmo contribuindo para a melhoria de vida e de dignidade das pessoas, fazem cada vez menos diferença no processo eleitoral. E mesmo fazendo diferença, como os programas sociais como Bolsa Família, Mais Médicos e Minha Casa, Minha Vida, o gestor não pode se apresentar como político de esquerda.   

                    Em relação ao eleitor médio – ou de direita -, esse sentimento já vem ocorrendo bem antes. Tanto que se comentou em artigo anterior que as políticas públicas, mesmo assertivas, não formam consciência política e cidadã. Um exemplo foi observado na campanha eleitoral na capital paulista, quando se apurou que o maior número de apoiadores do coach Pablo Marçal, candidato de extrema-direita a prefeito de São Paulo, eram beneficiários de programas sociais, em especial os programas de moradia. Como se deduz, o eleitor não vota mais com base em resultado econômico e social ou em realizações dos governantes.

                     Como diz Alisson Mascaro, escritor e professor de Filosofia do Direito da Universidade de São Paulo – USP, a população brasileira foi politizada pela direita e, organizada politicamente, não vota mais com base em resultado social ou em realizações para sua comunidade. Hoje, antes de votar a pessoa já pergunta: esse candidato é de direita? “Porque eu sou de direita”. E para esses eleitores ser de direita é ser do bem, de Deus, da família, da ordem.

                      Diante dessa nova realidade política, Mascaro reconhece que as esquerdas não têm alternativas para fazer politização. Se vê presa num labirinto. Mesmo que tente fazer uma gestão municipal inovadora e a serviço do bem comum, não pode se declarar de “esquerda”, para não cair no desprezo coletivo. Esse quadro político leva o sujeito a atribuir à direita um ilusório status social. A ponto de aceitar trocar o asfalto na sua rua por posição social. E acreditar que é melhor ser de Deus, do bem e da família do que ter acesso à vacina, à moradia.                

                        A ironia dessa abdução feita pela direita faz com que pessoas simples e periféricas, excluídas socialmente, e que chacoalham diariamente quatro horas por dia em ônibus das grandes cidades pra ir para o trabalho, também se consideram pertencentes à classe média, por se sentirem de “direita”. Mesmo enfrentando a precarização de trabalho terceirizado.

                      Não é fácil o desafio que Lula terá pela frente com um Congresso Nacional hostil e uma imprensa que não lhe dá um dia de folga. A cada ano a situação se torna pior. É quase impossível acreditar que o PT esteja governando o país, diante da força da direita, do conservadorismo e da conjuntura contrarrevolucionária no mundo e na América Latina, como também admite Zé Dirceu, ex-presidente do PT e ex-ministro do primeiro governo Lula. Segundo ele, há uma pressão para ver o governo Lula de joelho para aceitar a receita neoliberal para a economia, que inclui a manutenção de um Banco Central independente.

                 Mesmo reconhecendo que o quadro político no país é amplamente adverso, durante a campanha eleitoral os dirigentes e lideranças do PT insistiram em destacar o legado dos governos petistas com as políticas públicas, com a geração de mais empregos formais, o controle da inflação, a retomada do crescimento econômico e os recordes da balança comercial, da atração de turistas estrangeiros, além da recuperação do prestígio do Brasil nos fóruns internacionais e no mercado global.

                  Apesar das sucessivas conquistas nesse período, o governo, o PT e os partidos de esquerda aliados de primeira hora não conseguiram capitalizar as realizações no processo eleitoral. Nem a previsão de crescimento superior a 3% no Produto Interno Bruto – PIB, o segundo maior entre os países do G-20, o desemprego em torno de 6,6%, um dos menores da última década, o recorde do superávit das exportações de U$ 98,8 bilhões em 2023 e U$ 54,5 bilhões no acumulado entre janeiro e agosto e a inflação em torno de 4,5% no acumulado neste ano.

                     Isso demonstra que a polarização ideológica não compreende apenas a lógica da disputa política. Faz parte de uma luta obscura pelo poder a qualquer custo, marcada pela intolerância, pelo ódio, por uma rede de intrigas e de mentiras com o objetivo maior de empurrar o PT para o gueto político, ignorando que o partido é protagonista das eleições presidenciais desde 1989, com cinco vitórias desde então. E dentro das regras do jogo democrático. Isso por se tratar do único partido com projeto político para o país, com mais de 1,6 milhão de filiados e por isso enraizado na sociedade brasileira.

                         

                         Diante dessa nova realidade política, marcada por essa nova forma de alienação política de “consciência de direita”, só resta ao governo Lula, ao PT e demais partidos de esquerda retomar as ações voltadas para o trabalho de base e a formação popular focada num novo despertar da verdadeira conscientização política. E simultaneamente ampliar o diálogo com os movimentos sociais e sindicais, além de uma maior presença junto às comunidades das médias e grandes cidades.

 

Fotografia de Jales Marinho

Jales Marinho, Jornalista e Advogado.

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