Política

Extrema Direita ou autoritarismo identitário? | Wesley Sá Teles Guerra

Fotografia de Regina Correia. Autor da fotografia: Ben do Rosario.

“O liberalismo e a direita deixaram de existir a partir do momento em que o Estado Liberal e Democrático deixa de lutar pelos direitos individuais e adota uma falsa coletividade excludente, fruto de uma visão deturpada de unidade normalmente com origem religiosa, identitária ou elitista, sem levar em consideração a própria diversidade social, gerando uma falsa dicotomia entre o indivíduo e a sociedade, como se as liberdades individuais fossem antagônicas ao bem-estar comum promovendo um autoritarismo disfarçado de proteção da sociedade, que prejudica a própria coesão social, já que a verdadeira ordem depende do respeito à autonomia e à diversidade de cada cidadão, como bem prega o liberalismo”

Wesley S.T Guerra

 

Com o término da Guerra Fria, o capitalismo consolidou-se como a força política, econômica e social dominante a nível global, impulsionando mudanças que pareciam irreversíveis. A vitória do bloco ocidental, liderado pelos Estados Unidos, foi celebrada como uma confirmação do modelo capitalista e das democracias liberais, onde os direitos e liberdades individuais emergiram como fundamentos da organização social. Esse triunfo trouxe consigo uma crescente privatização e descentralização do Estado, resultando em uma miríade de novos atores nas dinâmicas de poder, tanto no cenário internacional quanto nas políticas domésticas.

 

A globalização, alimentada pela financeirização da economia mundial e pelo ideário liberal, trouxe um crescimento econômico sem precedentes e novos atores internacionais que, gradualmente, desafiariam a hegemonia dos Estados Unidos, promovendo a diversificação das alianças globais e o surgimento de um sistema multilateral. Esse novo paradigma de cooperação resultou na criação de organizações internacionais para facilitar a resolução de conflitos e a proteção dos direitos humanos, enquanto o discurso liberal consolidou-se como ideal de progresso.

 

Contudo, nas últimas décadas, assistimos ao ressurgimento de uma onda conservadora e nacionalista, especialmente nos países outrora defensores das liberdades individuais e da integração global. Recentes vitórias eleitorais de figuras como Donald Trump nos Estados Unidos e Javier Milei na Argentina ilustram essa virada, em meio ao aumento da pobreza e da desigualdade em diversos países. Na Europa, o avanço de partidos de extrema-direita como o Chega em Portugal e o Vox na Espanha reflete uma oposição crescente aos princípios de multilateralismo e cooperação internacional. Esses movimentos, muitas vezes promovendo uma falsa coletividade em nome da “moral e da identidade nacional,” desafiam e limitam os direitos civis sob o pretexto de proteger valores tradicionais, obscurecendo as conquistas do período pós-Guerra Fria. Dividindo a sociedade entre “cidadãos” e “inimigos”, entre “nacionais” e “imigrantes”, validando sempre um lado em detrimento do outro… algo completamente contrário aos princípios que regem o pensamento liberal e o que até então se considerava ser de Direita. 

 

Coletividade Conservadora como Ferramenta de Controle

 

Embora os líderes da nova direita mundial promovam uma imagem de defensores de valores e tradições nacionais, muitos são conservadores que no fundo buscam reforçar o controle social à custa das liberdades individuais. A noção de coletividade que defendem frequentemente exclui minorias e grupos divergentes, impondo uma homogeneidade cultural que não reflete a realidade plural das sociedades modernas. Ao exaltar uma visão unidimensional da sociedade, esses movimentos ignoram as complexidades das nações contemporâneas, criando normas rígidas que reprimem a diversidade de comportamentos, culturas e valores.

 

O apelo ao “bem-estar social” é utilizado como justificativa para restrições sobre escolhas e liberdades pessoais. Na realidade, essa abordagem autoritária visa mais o controle e a uniformidade do que o verdadeiro bem coletivo, conduzindo a políticas que limitam a autonomia e fortalecem o poder do Estado sobre os indivíduos.

 

Um Estado que define uma base cultural ou religiosa única, que determina o que as pessoas podem ou não fazer com seus corpos, que limita os direitos civis em razão da origem, nascimento, etnia ou sexualidade dos indivíduos, que restringe manifestações culturais ou que ataca determinadas visões políticas, está longe de ser um governo de direita liberal e muito mais próximo de ser um regime autoritário e neofacista.

 

A Dicotomia entre Ordem Social e Liberdades Individuais

 

O conservadorismo moderno frequentemente justifica a limitação das liberdades civis como uma necessidade para a segurança e a ordem social, criando uma falsa oposição entre o bem-estar coletivo e os direitos individuais. Contudo, uma sociedade verdadeiramente equilibrada só é possível quando os direitos civis são respeitados, pois eles garantem a diversidade de ideias e a liberdade de expressão. Esta dicotomia resulta, muitas vezes, em um aumento do controle estatal sob pretextos de proteção moral, utilizando a religião ou tradições culturais como ferramentas de coerção.

 

Como alguém pode dizer que vive em uma democracia, quando o Estado limita seus direitos, tais como ser de uma determinada religião, cultura ou amar fora do sistema heteronormativo?

 

Paradoxo Conservador: Liberdade Econômica e Restrição Moral

 

Paradoxalmente, os movimentos conservadores, enquanto advogam pela liberdade econômica e pela menor intervenção estatal nas esferas financeiras, buscam expandir o controle do Estado nas esferas morais e culturais. A liberdade de mercado é defendida como um valor fundamental, enquanto a autonomia individual nas questões pessoais é suprimida em prol de um ideal de ordem. Esse paradoxo revela a seletividade do conceito de liberdade promovido por tais movimentos: o mercado é liberal, mas o indivíduo é cerceado.

 

Algo não muito diferente a tão criticada nêmesis do capitalismo liberal representada pelo comunismo do governo chinês, ambos os lados estão promovendo o liberalismo econômico, mas o controle estatal dos indivíduos, e em alguns casos como nos Estados Unidos, o ideal da “direita” mudou ao ponto de ser contrário ao multilateralismo e competitividade internacional, advogando pelo isolacionismo e protecionismo!! Os pais pensadores do mundo liberal devem estar se removendo em suas tumbas…

 

Desinformação e o Ataque ao Multilateralismo

 

A expansão dos movimentos conservadores é sustentada por uma máquina de desinformação que alimenta preconceitos e receios, moldando minorias e instituições globais como ameaças à soberania nacional. Narrativas que demonizam o multilateralismo e as organizações internacionais como interferências externas alimentam uma postura isolacionista. Essa retórica, ao legitimar o cerceamento das liberdades, mina a confiança nas instituições internacionais e fomenta tensões no sistema de governança global, dificultando o enfrentamento de desafios como a crise climática e as desigualdades econômicas.

 

O Impacto da Falsa Coletividade na Democracia

 

A democracia, que depende da pluralidade e do respeito aos direitos individuais, é fragilizada por uma coletividade que sacrifica liberdades em nome de uma moralidade seletiva. Quando o Estado toma para si o controle das normas morais e das escolhas pessoais, a democracia transforma-se em um sistema de repressão, em que a coletividade se torna um pretexto para cercear as liberdades dos cidadãos. Esse controle limita a diversidade de pensamento e enfraquece a coesão social, minando os próprios fundamentos democráticos.

 

Para que uma verdadeira coletividade seja alcançada, é essencial que os direitos individuais sejam respeitados, permitindo a cada cidadão contribuir com a sociedade sem que suas liberdades sejam cerceadas. Somente uma sociedade que valoriza a diversidade e respeita as liberdades fundamentais pode construir uma democracia saudável e inclusiva.

 

Conclusão: A Necessidade de Um Novo Modelo

 

A falsa coletividade promovida pelo conservadorismo moderno revela-se como uma ameaça à democracia e ao respeito pelos direitos humanos. Em vez de fortalecer a sociedade, esses movimentos autoritários exacerbam divisões e enfraquecem a confiança nas instituições democráticas. O desafio agora é conceber um modelo que preserve os valores da liberdade individual ao mesmo tempo que integra as demandas sociais e ambientais contemporâneas. Uma alternativa que promova uma governança global equilibrada e inclua a diversidade cultural e política pode ser o caminho para enfrentar as tensões do mundo atual, resgatando a verdadeira coletividade e assegurando uma convivência pacífica e produtiva entre os diversos sistemas econômicos e ideológicos que compõem o cenário global.

 

Wesley S.T Guerra

 

Fotografia de Wesley Sá Teles Guerra

Wesley Sá Teles Guerra, poliglota e hispano-brasileiro, escritor, professor e internacionalista. Gestor do Fundo de Triangulação e Cooperação Internacional Portugal, América Latina e Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa na Secretaria Geral Ibero-Americana. Autor dos livros “Cadernos de Paradiplomacia,” “Paradiplomacy Reviews: the Rise of the Subnations, Cities and Smartcities” e “Manual de Sobrevivência das Relações Internacionais”. Fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais e membro de diversas instituições internacionais tais como REPIT, IAPSS e European Consortium for Political Research (ECPR). Especialista em Relações Internacionais, Paradiplomacia, Cooperação Internacional, Gestão de Projetos Europeus e Gestão de Smartcities. Mestre em Políticas Sociais com Especialização em Migrações pela Universidade da Corunha, Mestre em Gestão de Smartcities e Doutorando em Sociologia e Transformações da Sociedade Contemporânea.

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