
Mudança de sonhos
Os sonhos, longamente tecidos pelo poder hegemónico anglo-ocidental nos últimos séculos, estão chegando agora, com a irrupção do “terramoto Trump”, ao seu fim. O modelo unilateral globalista, que tomou impulso vital a partir da II Guerra Mundial (após a demonstração atómica de Hiroxima e Nagasaki) e que ganhou força de expansão total com a queda da União Soviética, fica cortado das suas redes de aprovisionamento. Na realidade, o modelo tinha tocado seu limite biológico, após o sustento energético do mesmo, baseado no controlo das dívidas (o dinheiro criado por meio de dívida), entrar em colapso na crise bancária (que atingiu o pulmão sistémico de Londres e Wall Street) entre os anos 2007-2008.
Estes sonhos nasceram dos sonhos de Francis Bacon e a “Nova Atlântida” e dos sonhos de John Dee e as 13 colónias britânicas na América do Norte, como semente do futuro centro geográfico para guiar, no caminho da luz, o mundo… A quebra das finanças globais em 2008 tiraram os sonhos errados de poder material hegemónico, nascidos como pesadelos, sobre estes outros nobres sonhos.
De 2008 a 2010. A partir destas datas, a expansão anglo-ocidental teve de iniciar seu primeiro recuo. Os vazios deixados foram ocupados timidamente por uma Rússia em recomposição (dentro do 1º tabuleiro geopolítico: o militar) e por uma China já em desenvolvimento (dentro do 2º tabuleiro geopolítico: o económico). O nascimento dos BRICS, como semente de uma nova realidade multipolar, iria trazer consigo a remodelação no plano da cosmovisão, que até o de agora tinha sido hegemónica no mundo (no 3º tabuleiro social-cultural-civilizacional irrompia a voz do Sul Global, que procura outro mundo, fora do controlo da anglo-esfera ou anglosfera).
A voz do Sul Global – e sua aliança com a Rússia
O ideal de finais do século XIX, cristalizado na África por Cecil John Rhodes, de através do centro geográfico material britânico criar una unidade mundial, comandada pela superior civilização criada pelo homem anglo-saxão, tinha apagado as vozes das (em muitos casos milenares culturas) de outros povos do planeta.
No fim da Segunda Guerra Mundial, com a extenuação do Império Britânico, esta cosmovisão centro europeia teve de ser orientada desde o novo centro material norte-americano que, respondendo em essência aos mesmos valores, acomodou em seu seio o “dever superior do homem branco europeu” de guia e farol da humanidade, dentro do “excepcionalismo norte-americano”, mantendo o espírito da missão civilizacional seguir correspondendo à herança indo-europeia da raça ariana. No seu ponto de focagem mais extremo, surgiu o “nazismo”.
Nos inícios do século XX, o ponto mais elevado desse poder ocidental tocou seu zénite quando, a 16 de maio de 1916, mediante o tratado Sykes-Picot, as duas grandes potências europeias, a Inglaterra e a França, com a anuência da Rússia, dividiam as riquezas energéticas do mundo, ao dividir o Oriente Médio.
Poucos anos antes (entre 1881 e 1914), o novo imperialismo colonizador tinha repartido a África entre os poderes europeus, com pouco encaixe da Alemanha. Esta situação, junto a outros fatores de fricção ia desencadear a I Guerra Mundial.
Neste conflito europeu, desenvolvido entre 1914 e 1918, o poder britânico aproveitaria para eliminar todos os seus mais imediatos concorrentes, mas no processo o braço britânico em expansão tocou aquela linha que marca um limite, além do qual avançar já não é possível. Mas a queda da Alemanha, do império austro-húngaro, do império otomano, e a queda da Rússia, encobria na sua “momentânea euforia” o declínio visível que, na sua expansão territorial, já tinha atingindo o ponto de retrocesso (matando com esse limiar o sonho malogrado de Rhodes).
O chamado “grande jogo” pelo controlo da Ásia Central, entre os britânicos e os russos (que decorreu entre inícios do século XIX e XX, entre o Tratado Russo-Persa de 1813 até à Convenção Anglo-Russa de 1907), junto às duas guerras Anglo-Afegãs (de 1839 a 1842 e de 1878 a 1880, respetivamente) marcaram essa inércia de retrocesso no domínio britânico, que avivaria as ânsias de independência dos súbditos da “jóia da coroa:” a poderosa nação indiana. A primeira revolução em 1857 já marca esse caminho inexorável em favor da desconexão do iminente poder indiano com a velha metrópole (que se iria consumar finalmente em 15 de agosto de 1947).
A mudança de plataforma continental da Europa britânica para a América dos Estados Unidos era mais que nunca precisa, após o desgaste de Londres na II Guerra Mundial.
Os Estados Unidos partiram em posição de relevo após o poder britânico ter demolido definitivamente o poder de todas as potências europeias e asiáticas que o confrontaram. O poder espanhol (que absorvera e debilitara o poder português, nos finais do século XVI) fora removido definitivamente, com a ajuda dos Estados Unidos com as independências hispano-americanas (entre 1809 e 1829) e a perda de Cuba em 1898. O poderio holandês (com o estouro da bolha das tulipas no inverno de 1636-1637) e a posterior mudança do centro financeiro para Londres. O poderio em expansão francês (com a capitulação de Montreal a 8 de setembro de 1760). O poder chinês (máxima potência comercial ainda nos séculos XVIII e XIX) com as duas guerras do ópio (1839-1842 e 1856-1860). E a já referida queda dos impérios na I Guerra Mundial.
Por sua parte, a Rússia que, nos inícios do século XX acordou a realizar uma tentativa de modernização, levada pelo impulso sonhador de “missão civilizacional” e “reserva espiritual da Europa”, como sonhou Rudolf Steiner e a extraordinária “Geração de Prata”, foi banida ao poço obscuro da história com o bom trabalho da “Inteligência britânica”, que culminou com queda do Czar Nicolau II, após a revolução de outubro, em 1917.
Esse poder anglo-saxónico, movimentando-se nas sombras da sua magnífica inteligência, também apoiou o exército contra-revolucionário que, encabeçado por um general francês, esteve a ponto de abalar o novo regime. Essa mesma Inteligência também apoiou a ascensão de Adolf Hitler, numa tentativa de contrabalançar a expansão do poder soviético na Europa continental. Estes dois apoios do poder anglo-ocidental foram bem documentados pelo próprio economista e historiador anglo-americano Antony Cyril Sutton nos seus estudos “Wall Street and the Bolshevik Revolution“ e “Wall Street and the rise of Hitler”).
A ascensão de Stalin, no meio de uma guerra total dentro do partido bolchevique, mudaria o curso da história em favor do grupo soberanista contra o grupo internacionalista. Isto irá ter consequências muito profundas no desenvolvimento da multi-polaridade dos nossos dias. O sector conservador bolchevique toma o poder contra o sector mais progressista. A revolução permanente perde diante do socialismo em um só país.
Com a morte de Stalin e a ascensão de Kruschev, de novo o grupo mais atlanticista e progressista toma o poder na URSS (tal como bem documentou Grover Furr no seu ensaio “Kruschev mentiu”). Este movimento seria fundamental para a queda do regime, não pelas falhas internas, senão pela reorientação em favor de uma “aliança ou convivência com o poder progressista ocidental”, que finalmente atuaria por meio dos seus bons serviços de inteligência para acabar com a “ameaça soviética”. A retirada do rubro do padrão ouro vai criar uma vulnerabilidade, que vai impossibilitar a criação de um sistema económico alternativo ao predomínio do dólar dentro do espaço de controlo soviético. Um problema que se tornaria fulcral no devir da Guerra Fria, mesmo a queda da União Soviética tenha mais a ver com um derrube programado por dentro, como os próprios colaboradores de Mikhal Gorbachev têm amplamente documentado.
A família sueca Nobel, por meio de Immanuel (pai de Alfred Bernhard Nobel, membro da Academia Sueca das Ciências, em cujo nome se outorgam os afamados e cobiçados prémios) , trabalhou para o Czar Nicolau I, em projetos de desenvolvimento petro-químicos, mineiros e militares, no intuito daquele esforço por modernizar, que tanto inquietava o poder britânico.
Essas tentativas russas ficaram adiadas após o desastre da Guerra da Crimeia de 1856 e os recortes no gasto militar do novo Czar Alexandre II. Destes períodos de instabilidade, a Rússia imperial nunca se recuperaria. Seria a União Soviética, nos finais da II Guerra Mundial, que emergiria como poder central, junto com os EUA, deslocando definitivamente o poder europeu, após o período de descolonização da segunda metade do século XX, impulsionado tanto pelo poder norte-americano como pelo soviético.
A independência política da América do século XIX seguia na sequência da independência colonial da África e da Ásia do século XX. E agora começa a reclamar esse Sul Global uma independência económica que lhe dê voz, no marco internacional.
Os movimentos africanos de deslocamento do poder francês e norte-americano, em favor do poder russo- chinês (nestes últimos anos), junto à criação de diferentes organismos euro-asiáticos e à interconexão das novas rotas chinesas da seda (a mais recente Belt and Road Initiative), junto com o apoio militar e científico-tecnológico russo no plano dos novos projetos energético, reage dentro desta nova realidade de queda do poder global anglo-ocidental.
O triunfo do presidente Donald Trump, junto ao seu vertiginoso movimento de desconexão do centro norte-americano dos organismos e organizações internacionais (de caráter globalista supranacional) responde a esta nova realidade.
A nova realidade
Nesta nova tessitura, o poder norte-americano decidiu dar permissão ao novo presidente Donald Trump para encerrar definitivamente a aventura globalista. O ciclo de expansão progressista toca o seu fim. A entropia cultural woke chega à sua dissolução, pressionada pela mola dupla do conservadorismo oriental e a volta aos valores constitucionais “jacksonianos” do novo presidente Donald Trump.
Trump recupera, por sua vez, neste novo início de reorientação mundial, a figura do assassinado presidente McKinley e a sua imposição de taxas alfandegárias para proteger e criar industria nacional, mas sem a procura de um padrão ouro. Pelo contrário, o novo presidente ameaça com guerra económica total a quem tente pôr em dúvida o poder global do dólar.
Nesta guerra global, um grande perdedor surge: a Europa, onde os restos do poder globalista se protege.
O que poucas pessoas entenderam é que não resulta tão claro relacionar a chegada de Trump ao poder com uma rutura total com o velho estado na sombra, nascido durante o império britânico. Os relacionamentos da nova administração com os grandes conglomerados corporativos nascidos desse poder (as Grandes Energéticas, as Grandes Tecnológicas e os Grandes Poderes Financeiros) sugere, para um olhar mais atento, que esta aliança segue em pé. E que, na realidade, o que ocorre é que as elites deste poder que magistralmente retratou no seu livro Carroll Quigley (“The Anglo-American Estabilishment”) tomaram a decisão de, num movimento centrípeto para o seio do continente norte-americano, voltar os seus esforços até a uma raíz e, a partir daí, reorganizar suas forças.
Tomando de modelo a ideia do fascismo corporativo do poeta e dramaturgo italiano Gabriele D’Annunzio, impulsionar um poder forte neo-fascista onde, por meio de uma agenda imperativa, o poder corporativo anglo-americano possa tomar nova dimensão territorial neste momento de encruzilhada, onde as novas realidades e as novas delimitações todavia não foram estabelecidas. As necessidades levaram esta elite a apoiar o projeto Trump de neo-império norte-americano.
Um neo-império que precisa controlar todo o norte da América (daí a proposição de anexar o Canadá), controlar a parte da rota do Ártico (plataforma a tornar-se mais habitável com a mudança cíclica do clima), daí a necessidade de tomar posse da Groenelândia (além da necessidade de terras raras, fundamentais para o novo desenvolvimento tecnológico), oontrolo das rotas do Pacifico, daí a necessidade de controlar o canal do Panamá…
O problema é que, por necessidades internas de soberania económica, militar, cultural e científico-tecnológica, os países desse ainda confuso termo de Sul Global, encabeçados pela Rússia e pela China (o que alguns analistas como Alfredo Jalife levam a chamar a nova ordem em gestação – Ordem Tripolar), esse novo poder concorrente precisa de um modelo contrário, para evitar que os poderes corporativos privados anglo-americanos tomem conta das suas economias e dos seus domínios.
Por causa dessa necessidade, o novo poder emergente começa a caminhar em favor de um neo-socialismo, que tem por modelo o socialismo de mercado chinês. E não sabemos até que ponto esses dois modelos podem coexistir ou, no melhor dos casos, embater em zonas de fricção nas bordas…. Sendo o pior dos casos uma determinada zona de fricção como o Oriente Médio (para o Sul Global, agora denominado Ocidente da Ásia), pela sua delicada configuração, que possa derivar num embate regional, com a impossibilidade de uma solução dialogada, que leve a uma guerra regional que possa converter-se em global.
Este é o nó de Górdio ou nó gordiano: poderão coexistir, com as suas dinâmicas divergentes, o novo sistema neo-fascista e o novo sistema neo-socialista (ambos totalitários) neste momento de grandes mudanças?
A única solução seria uma Nova Convenção de Yalta (um Yalta 2.0). Para isso, seria preciso uma aproximação inicial em campos, onde ambos os contendentes possam chegar algum tipo de acordo.
A guerra da Ucrânia parece outorgar a inicial possibilidade. Trump, que não se importa tanto com uma derrota da NATO e Putin, que pode bem apoiar acordos com a nova Europa que Trump tenta criar impulsionando a nova direita neo-fascista europeia.
Neste nível, a doutrina Dugin da aliança pardo-vermelha, que permite ao Kremlin tanto estar de bem com Viktor Orban como apoiar Nicolás Maduro tem viabilidade. Mas, noutros entornos, cria muitos problemas e, mesmo, se torna inaplicável. Daí que a influência de Dugin (ao contrário do que acreditam muitos analistas) nunca tenha sido tão poderosa dentro do círculo de poder interno russo.
O poder de Trump na Europa não pode ser menosprezado. As eleições na Roménia, anuladas por vencer um candidato “soberanista” (com acusações de ingerência russa), que mantinham o anterior presidente da Romenia Klaus Iohannis no poder, por pressões de Bruxelas, podem agora ser, em segunda volta, renovadas. Sobrou com uma vista, no sábado, 8 de fevereiro, do enviado especial do presidente Trump para que Iohannis, no dia seguinte, domingo, 9 de fevereiro, se demitisse. Isto abre a possibilidade de termos uma segunda volta eleitoral? E mesmo a possibilidade do candidato vencedor, Calin Georgescu, possa obter outra vitoria?
Na América Latina, surge um difícil acordo. Trump precisa do controlo total do continente. Rotas de grande parte do Atlântico Sul, parte do Ártico, da Antártida e parte do Pacífico, assim como de todas as riquezas da zona. Os EUA precisam que todos os países da América Latina trabalhem em favor da maquinaria industrial norte-americana. Isto anula a independência da América do Sul, comandada pelo Brasil. OS EUA não podem permitir um desenvolvimento brasileiro autónomo em indústria, tecnologia e ciência.
Mesmo que Brasília tenha cedido parte da sua autonomia militar, resguardando-se debaixo do “guarda-chuva nuclear” norte-americano, isso não é suficiente para Washington, que precisa que todas as riquezas do sul do continente sejam encaminhadas para o centro norte-americano, voltando à América Grande de Novo. Esta situação impede uma supremacia económica, cientifica e tecnológica do Brasil, que poderá criar um centro dinâmico na América do Sul, em aliança com a África do Sul e a Índia (o famoso IBSA, como já temos falado em outros artigos).
A China e a Rússia precisam de um Brasil com suficiente independência, para levar à frente o seu projeto de novo organograma multipolar abrangente. A defesa da soberania brasileira da Amazónia forma parte do mesmo projeto de defesa da soberania russa sobre Sibéria.
O trunfo de Milei e a entrega da soberania argentina ao poder norte-americano, com o grande enfraquecimento da sua economia, do desenvolvimento militar, tecnológico (incluído o último hakeo aos planos secretos do seu programa nuclear pacífico) e social, já operando nos últimos decénios e acrescentado neste último ano, com a criação de uma base militar norte-americana na Patagónia… Tudo isto resulta num muito mau prognóstico para a cooperação precisa dos dois gigantes da América do Sul, vital para o desenvolvimento autónomo da região.
As redes do movimento sionista–evangelista, judeu e as redes da direita norte-americana trumpista vão favorecer Milei a afiançar o seu poder na Argentina, tentando impôr finalmente ao Brasil um candidato presidencial pró Trump. O poder mais soberanista do Brasil terá de unificar-se, à direita e à esquerda, para evitar ser arrastado nesta corrente, contrária aos seus interesses. A Rússia e a China têm a necessidade de apoiar o Brasil.
Por sua parte, parece que a aliança Russo-Chinesa-Iraniana se terá solidificado por causa da velha administração Biden ter impulsionado a guerra na Ucrânia e a guerra económica contra a China, aproximando mesmo a Rússia da Coreia do Norte (totalmente isolada, à exceção da China). A guerra económica–tecnológica de Trump contra a China precisa de conter Beijing no mar da China, impedindo que Taiwan se possa integrar de novo no centro continental (neste sentido, a agenda Trump condiz com a de Biden. Na prioridade de tombar a Rússia, não. A prioridade para Trump é a China).
Derrubar as rotas da seda chinesa são aqui uma prioridade de Trump, mas vão contra os interesses da Rússia cujas interconexões na região, com o Irão, a Índia, a China e as ex-repúblicas soviéticas são vitais para a sobrevivência do novo projeto de poder mundial russo.
Renovar os acordos de Abraão interrompidos pelo ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023 e a guerra de Gaza. Diluir a remota possibilidade de um estado palestiniano e minorar o poder persa na região é vital para Trump. Manter a hegemonia nuclear de Israel assim como validar e impulsionar o Grande Israel é um avanço fundamental para esta política, iniciada em seu dia pelo genro de Trump, Jared Kushner (que forma parte do conglomerado empresarial que quer expulsar os palestinianos de Gaza) é agora renovada. Esse poder israelense choca com o poder iraniano e mesmo com a nova ideia de neo otomanismo turco.
O poder turco e do Qatar tem-se tornado uma dor de cabeça para a Rússia, para o Irão e mesmo para a Arábia Saudita. O derrube de Al-Assad na Síria por iniciativa da Irmandade Muçulmana (à qual Erdogan pertence), apoiados militarmente pela Turquia e financeiramente pelo Qatar tem criado um grande “medo” nos sauditas e um grande atrito com a Rússia e o Irão.
A China logrou criar uma ponte entre os persas e os sauditas, assim como unificar as fações palestinianas (vital para a resolução de um hipotético estado palestiniano), ao mesmo tempo que realiza bons negócios com Israel.
Israel precisa asfixiar economicamente os palestinianos, fazendo Trump pressionar o Qatar, que auxilia o Hamas (membro da fraternidade muçulmana) e, ao mesmo tempo, derrubar o poder militar persa que trabalha no eixo da resistência em todo o Oriente e ajudar o braço armado do Hamas (daí os serviços secretos israelenses eliminarem os membros de Hamas mais favoráveis à aliança com o Irão, deixando vivos os mais próximos do Qatar).
A Rússia, com a sua renovada aliança estratégica com o Irão precisa de um Irão forte para contrabalançar o poder turco e o novo tabuleiro fragmentado na Síria, assim como para afiançar as suas rotas comerciais com a Ásia Central e com a Índia. Com a Índia, acaba de subscrever um grande acordo energético.
Todas estas áreas de fricção, em todos os continentes dificultam um acordo geopolítico global entre estes dois novos poderes totalitários. E possibilitam, na mínima fricção, futuras guerras.
Depois destas guerras, da demolição de fronteiras e das novas demarcações, terá de haver uma nova Convenção onde será delineada a nova estrutura de poder mundial.
Melhor se pode ser sem guerra global. Se for com guerra global, o neo-fascimo e o neo-socialismo lutarão por impor-se um ao outro. Se for sem guerra global, nessa nova Convenção se delimitarão os marcos de ambos os sistemas, que terão que conviver numa nova guerra fria.
Nessa futura Convenção, terão de participar os novos grandes poderes: EUA, China, Rússia, Índia e a África do Sul.
O Brasil, para poder participar, terá de, em primeiro lugar, resolver tomar corpo suficiente para impôr a sua agenda na América do Sul, sem prejuízo total para os EUA, ainda que com pequeno prejuízo de Washington ter que permitir a Brasília de tomar posse como aliado seu do Sul do continente.
A Europa ficará sem assento.
O fortalecimento de um eixo Brasil-Índia-África do Sul será fundamental para fazer de equilíbrio na balança, entre estes novos dois poderes mais totalitários, permitindo um modelo mais social democrata, recuperando aquele modelo europeu da Guerra Fria, eliminado aquando da queda da URSS e o surgimento da unipolaridade globalista.
Façamos nós o nosso melhor para, como cidadãos, impulsionar este acordo entre os novos poderes, evitando uma grande e mundial guerra.
Artur Alonso: escritor com vários livros editados de teatro, poesia, ensaio e romance… Ex diretor do Instituto Galego de Estudos Internacionais e da Paz. Ex secretario do Instituto Galego de Estudos Celtas. Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono. Membro de Honra da Associação de Escritores.Mocambicanos na diáspora. Membro do Conselho de Redação da Revista Identidades, etc.










