Cultura

Canalhas | Carlos Eduardo Matos

Na crônica Os noivos, Nelson Rodrigues conta que certa vez recebeu um telefonema do Palhares, “o canalha, ‘o que não respeita nem as cunhadas’. (…)”. Ele admitiu: “Não posso ver mulher. Não posso. Digo a verdade: – não posso. Um dia, cruzei com a cunhada no corredor. Era cunhada. Dei-lhe um beijo. Um ato vil, está certo. (…) E, se duvidarem, subo numa mesa e digo: ‘Sou um canalha!’. Parou, um momento, arquejante da própria sinceridade”.

 

Meu canalha é outro. Não é do Rio, como o de Nelson Rodrigues, apresentado como “o carioca radical. Sim, ninguém mais carioca, ninguém tão carioca”. Meu canalha é gaúcho. De POA – apelido da velha Porto dos Casais, hoje Porto Alegre.  Não anda pilchado, é urbanézimo, roupa da gente dos pampas não é para ele; costuma vestir terno e gravata, que o clima ajuda, ou, por vezes, um traje esporte finíssimo. Mas ele tem o mesmo comportamento de seu confrade rodrigueano, não pode ver mulher. Com uma agravante, com mais de 80 anos, tem consciência de que, mesmo sabendo usar, logo, logo vai faltar, e se atira sobre fêmeas de qualquer idade com uma sofreguidão de assustar.  

 

Imaginei o encontro, no astral literário, de Palhares, o canalha rodrigueano, e Moreira, o canalha cadumatesco. 

 

– Bom dia, Moreira.

 

– Bom dia, Palhares.

 

– Soube que você tem trepado adoidado aí em Porto Alegre. Legal, manda vara! Só livra a cara de mãe e irmã. E mesmo assim…

 

– Minha mãe já morreu, tchê. Sei que não dá pra notar, mas já não sou tão jovem [mentira dele, claro que dava]. E não tenho irmã. 

 

– Então não livra a cara de ninguém – disse Palhares, com um risinho sacana. – Me fala de você, amizade.

 

– Bah, considero-me um homem do mundo. Aprecio bons pratos, bons vinhos, belas mulheres. E viajei muito, sabe? Conheci mulheres de todos os países, dormi com muitas delas, centenas. 

 

– Mas não é só trepar, né mermão? Uma perversãzinha tem sua hora e sua vez…

 

– Capaaz! Claro que não é apenas sexo. Olha, tenho mais de 60 anos [eufemismo, tinha muuuito mais], não há tempo a perder. Daí me acusarem de sofreguidão na caça às mulheres, injustiça!

 

Palhares aguardou o resto da história. Moreira colou no rosto uma expressão de vítima de preconceitos e mal-entendidos, mas em seguida deu uma risadinha cúmplice e confessou:

 

– Quer saber? O que me dá prazer mesmo é impor minha vontade às mulheres. Isso, nos mais diferentes planos. Se a moça é virgem e não quer dar, tenho porque tenho de tirar-lhe os tampos; se ela está louquinha pra transar, não tem a menor graça, nem como. Se a mulher é casada, não basta guampear o marido, há que fazê-la abandonar o corno. Se traio uma parceira, preciso levá-la a aceitar a situação, sofrendo em silêncio e permanecendo a meu lado como uma esposinha devotada. Nada de relação aberta, gaúcho que é gaúcho não aceita isso [mentira, índio veio não aceita, a moçada tá poliamorosando adoidado, come a fruta, qualquer fruta, e chupa até o caroço]. 

 

Deu uma guinada na conversa.

 

– Sabe, Palhares, li Nelson Rodrigues, conheço a tua história. Também tive um lance com uma cunhada. Mas não foi um beijo no pescoço, sem mais. Passei meses seduzindo-a, minando sua decisão de ser fiel a meu irmão. Ela acabou se apaixonando por mim. Aí transamos uma vez, e dei-lhe um pé na bunda! – e resumiu:

 

– Então, descrevo-me com um homem do mundo que gosta de fuder com as mulheres. Não apenas com a xaninha mas, em especial, com a cabeça delas. Como observou Charles Bukowski, “foder a mente de uma mulher é um vício de conhecedores refinados, os outros se contentam com o corpo – e deu um risinho satisfeito.

 

Palhares explodiu.

 

– Porra, mermão, conhecedor refinado é o cacete! Homem do mundo é o caralho! Você é um canalha que nem eu, muito mais que eu! – e mandou uma porrada nos cornos do gaúcho.

Meu nome é Carlos Eduardo (Cadu) Matos. Nasci em 1946, em Niterói, cidadezinha diante do Rio de Janeiro – uma Almada da baía de Guanabara. Formei-me em Direito em 1968 mas jamais advoguei. Dei aulas de Sociologia na Fundação Getúlio Vargas- SP e, antes disso, em 1975, na Escola Bento de Jesus Caraça, em Évora. Sempre exerci o ofício de escritor. Desde 1969 trabalhei como editor, redator, tradutor, preparador de texto e revisor para editoras de fascículos, revistas e livros didáticos e não didáticos. Contudo, apenas em 2018 escrevi meu primeiro texto pessoal, não encomendado por uma empresa. E não parei mais. Lancei quatro e-books pela Amazon: Shoshana – publicado na íntegra em quatro edições sucessivas da InComunidade – e os livros de contos Lili dos dedinhos, A outra e Rebeldes.

 

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