
dedicadas ā Ana Quitēria,
que dā flores azuis
nāo sō na primavera
ontem, eu chorei;
nāo aguentei
o som do cortador de grama
e nem dos pāssaros:
lindos bem-te-vis.
tambēm das gralhas
que gritam com o nascer do sol.
foi a gota d’āgua.
fria. ē inverno.
os gritos, nas ruas,
assustam, mas sō
a nōs que os percebem.
o pica-pau canta engraçado
e faz som de britadeira
picando paus por aī.
nāo, o mundo nāo pode
acabar agora
estā cedo demais.
os saguis ainda nem acordaram
nem os bichos foram alimentados
cuidados
brincados
e treinados
para o fim.
mas, nāo.
nāo pode.
o mundo nāo pode
acabar agora.
quem vai balançar
no trapēzio
se o mundo acabar agora?
quem vai incansavelmente
varrer a calçada
para que esteja
limpa no dia
em que Godot chegar finalmente?
vocē nāo precisa ler Beckett.
ē uma metāfora
extremamente simples.
nāo.
nāo quero ver o fim do mundo.
mas nāo vou dormir em teu jardim.
tudo começou com uma bruxa:
sonhei com pēs de frutas
e nem me dei conta
de que o mundo estā para acabar.
desesperei-me. preciso ter pressa.
acho que vocē me entende.
as folhas caīram muito
com a ūltima chuva.
o pau-brasil ficou pelado.
e nāo suporto a metralhadora
lā fora, que vai chegar ao centro da terra
se centro ela tiver.
sigo sonhando. sonhei,
agora, com um mel
que estava em um pote
e sō o fundo estava cristalizado.
o restante: līquido;
mas com pequenos cristais
espalhados para estourar na boca
como em um beijo bom.
mas o mundo vai acabar.
eu sei, me ouça
fume
beba
goze
com essas pessoas.
vi um beija-flor
tomando banho
nas folhas nuas de uma mini-bananeira,
ao som das metralhadoras
que fazem o chāo tremer.
ontem, plantei um pē de jambu,
colhi com meu amor.
agora, quero colher beijos
que tremem a līngua
e molham a ideia.
hoje, chorei de novo;
nāo aguentei ver morta
a joaninha que resgatei.
ela era tāo linda.
sua sepultura foi o vaso
da Ana Quitēria,
a que dā flores azuis
nāo sō na primavera.
outra joaninha morreu
quase. verde e preta.
esmagada por um quilo
de farinha de trigo orgānica.
agora estā no vaso de tomilho.
espera pelo frio mais frio
dos ūltimos frios.
no meio da primavera.
lembro dos sorrisos fāceis de verāo —
corto.
a verdade ē dura.
nāo deveria.
deveria ser firme, sim;
mas suave.
como uma massagem na prōstata.
esses dias
vi
um casal de pica-pau
transando
trançando
com as cores
e cantos gritados
roucos.
o macho tem bochecha vermelha;
a fēmea, sō quando come mamāo.
o galo gritou —
socorro
ē ano de desespero.
vocē lembra quando o alecrim deu flor?
a fina flor.
verāo — uma borboleta
que entra pela janela
e observa a respiraçāo.
(eu me lembro
da flor do alecrim:
a fina flor.)
o vento vem —
caem as folhas
e meus cabelos.
hoje,
no auge
da minha agonia
encontrei minha paz.
uma andorinha cantou.
começa uma nova estaçāo.
Caio V. Selva é poeta, performer, yogi e tradutor. Ensina português e inglês, revisa, traduz e edita livros e textos. Co-fundador e co-organizador da revista de arte Anturragem. Organizou, juntamente com outros artistas de Florianopólis, o Núcleo d’Explosão da Palavra — grupo de leitura e de performances a partir das Galáxias, de Haroldo de Campos. Seu livro de poemas, amor te morde, ilustrado por Thomás Borges da Silva, está em processo de finalização. Sua tradução do livro do chileno Rodrigo Naranjo, Cor de saúva, já está no prelo da editora Papaterra.
Thomás Borges da Silva é um artista multiforme com inclinação humanista. Tem 28 anos de idade. Nasceu em 23 de agosto de 1995 no Hospital Santa Catarina, localizado na Av. Paulista, na cidade de São Paulo – SP. Atualmente faz graduação em Letras – Português na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis – SC, onde vive desde os seus 5 anos de idade. Enxerga a aprendizagem e o viver como atos indissociáveis a uma existência que valha a pena.












