Poesia & Conto

As quatro estações | Caio V. Selva, Thomás Borges da Silva

Ilustração de Thomás Borges da Silva

Ilustração de Thomás Borges da Silva

 

dedicadas ā Ana Quitēria,

que dā flores azuis

nāo sō na primavera

 

ontem, eu chorei;

nāo aguentei 

o som do cortador de grama

e nem dos pāssaros:

lindos bem-te-vis.

tambēm das gralhas

que gritam com o nascer do sol.

 

foi a gota d’āgua.

fria. ē inverno.

 

os gritos, nas ruas,

assustam, mas sō

a nōs que os percebem.

 

o pica-pau canta engraçado

e faz som de britadeira

picando paus por aī.

 

nāo, o mundo nāo pode

acabar agora

estā cedo demais.

os saguis ainda nem acordaram

nem os bichos foram alimentados

cuidados

brincados

e treinados 

para o fim.

 

mas, nāo.

nāo pode.

o mundo nāo pode

acabar agora.

quem vai balançar

no trapēzio 

se o mundo acabar agora?

quem vai incansavelmente

varrer a calçada

para que esteja

limpa no dia 

em que Godot chegar finalmente?

 

vocē nāo precisa ler Beckett. 

ē uma metāfora

extremamente simples.

 

nāo.

nāo quero ver o fim do mundo.

mas nāo vou dormir em teu jardim.

 

tudo começou com uma bruxa:

 

sonhei com pēs de frutas

e nem me dei conta

de que o mundo estā para acabar.

desesperei-me. preciso ter pressa. 

acho que vocē me entende.

 

as folhas caīram muito 

com a ūltima chuva.

o pau-brasil ficou pelado.

e nāo suporto a metralhadora

lā fora, que vai chegar ao centro da terra

se centro ela tiver.

 

sigo sonhando. sonhei,

agora, com um mel

que estava em um pote

e sō o fundo estava cristalizado.

o restante: līquido;

mas com pequenos cristais 

espalhados para estourar na boca

como em um beijo bom.

 

mas o mundo vai acabar.

eu sei, me ouça

fume

beba

goze

com essas pessoas.

 

vi um beija-flor

tomando banho

nas folhas nuas de uma mini-bananeira,

ao som das metralhadoras

que fazem o chāo tremer.

 

ontem, plantei um pē de jambu,

colhi com meu amor.

agora, quero colher beijos

que tremem a līngua 

e molham a ideia.

 

hoje, chorei de novo;

nāo aguentei ver morta

a joaninha que resgatei.

ela era tāo linda.

sua sepultura foi o vaso

da Ana Quitēria,

a que dā flores azuis

nāo sō na primavera.

 

outra joaninha morreu

quase. verde e preta.

esmagada por um quilo

de farinha de trigo orgānica.

agora estā no vaso de tomilho.

espera pelo frio mais frio

dos ūltimos frios.

no meio da primavera.

 

lembro dos sorrisos fāceis de verāo —

corto.

a verdade ē dura.

nāo deveria.

deveria ser firme, sim;

mas suave.

como uma massagem na prōstata.

 

esses dias

vi

um casal de pica-pau

transando

trançando

com as cores 

e cantos gritados

roucos.

o macho tem bochecha vermelha;

a fēmea, sō quando come mamāo.

 

o galo gritou —

socorro

ē ano de desespero.

 

vocē lembra quando o alecrim deu flor?

a fina flor.

 

verāo — uma borboleta

que entra pela janela

e observa a respiraçāo.

 

(eu me lembro

da flor do alecrim:

a fina flor.)

 

o vento vem —

caem as folhas

e meus cabelos.

 

hoje, 

no auge

da minha agonia

encontrei minha paz.

uma andorinha cantou.

começa uma nova estaçāo.

 

Fotografia de Thomás Borges da Silva

 

Fotografia de Caio V. Selva. Autor da fotografia: Sérgio Vignes

 

Caio V. Selva é poeta, performer, yogi e tradutor. Ensina português e inglês, revisa, traduz e edita livros e textos. Co-fundador e co-organizador da revista de arte Anturragem. Organizou, juntamente com outros artistas de Florianopólis, o Núcleo d’Explosão da Palavra — grupo de leitura e de performances a partir das Galáxias, de Haroldo de Campos. Seu livro de poemas, amor te morde, ilustrado por Thomás Borges da Silva, está em processo de finalização. Sua tradução do livro do chileno Rodrigo Naranjo, Cor de saúva, já está no prelo da editora Papaterra.

Thomás Borges da Silva é um artista multiforme com inclinação humanista. Tem 28 anos de idade. Nasceu em 23 de agosto de 1995 no Hospital Santa Catarina, localizado na Av. Paulista, na cidade de São Paulo – SP. Atualmente faz graduação em Letras – Português na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis – SC, onde vive desde os seus 5 anos de idade. Enxerga a aprendizagem e o viver como atos indissociáveis a uma existência que valha a pena.

Qual é a sua reação?

Gostei
0
Adorei
5
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.