Cultura

A feminina arte de nascer | Tere Tavares

Nunca escapamos de sermos nós mesmas ainda que estranhemos.

 

Um pássaro à procura de alimento saúda a borboleta quase inerte. Sua exuberância enfeita o chão contornado com suas asas bíblicas. Há uma fertilização não arbitrária nos pedúnculos dessa campina ocre. Outros casulos herdam a efervescência das águas submersas. Touças imitam a linha do horizonte. Repousam nas probabilidades de um futuro esmaecido, perfilado nas linhas tortuosas do infinito que especula as funduras – proclamando a Terra, sendo ar e sendo fogo, culminando em verdores de páginas e arabescos inexprimíveis. Oh! Formas de raízes fosforescentes, quanto amor vos suprime a vontade. Que desmorrer vos tolhe as autorias da vida? Quanta energia se captura dessas profusões invertidas, dessa origem inexplicável? Quais mistérios inundam esses tremores veneráveis? A firmeza dos elementos espera e projeta células com toda sua química eletrizante. E, dessas memórias rutilantes, capta-se o movimento incompleto, persuasivo, compondo-se e recompondo-se a cada viés do invisível, do imponderável. Do assombroso florescimento à finitude, quanto há de luz? Todos os momentos são existências plenas quando coexistem os mundos.

 

 

Começo a desorientar a realidade. A ficção nada mais é que um naufrágio salvador, um outro aspecto do real que possui suas próprias vertentes. Escrevo, seja qual for a estação porque sou uma eterna enamorada por palavras. Algo de mágico exala-se da paciência que não sei ter. Não se trata de pressa, mas de uma espécie de urgência na mente, a travessia do espanto que me exila da assoberbada lonjura do tempo, da injúria que tenta subtrair o Sol do meu rosto e, inglória, abata-se antes de atingir-me. Enfrento o terror da estrada coberta de perigos, o pasmo ante o silêncio sombrio da morte, o desmoronamento; é tão profundo mergulhar na alma que me reformula como se argila novíssima.

 

 

O ritmo vivo do meu ser, rente às flores, testemunha-me o sorriso. Dá a ti mesma esse presente e destrói os ídolos, diz-me a voz desde a primeira fêmea nascida. Irmana-te a todas as mulheres que foram testemunhadas pelo assombro. Não coadune com a exortação prenunciadora da perda da sanidade e da aceitação da mentira dos milênios que te concernem culpas e incúrias. Os filhos que nos nascem ardem em cada gota do nosso sangue, em cada espasmo dos nossos ossos; sobra-nos, à brancura dos lençóis e trapos, estender e completar o berço; contemplá-lo e defendê-lo até ao nosso último suspiro.

 

Tere Tavares, escritora e artista visual, residente em Cascavel, PR, autora dos livros Flor Essência (2004), Meus Outros (2007), Entre as Águas (2011), A linguagem dos Pássaros (Ed Patuá 2014), Vozes & Recortes (Ed Penalux 2015), A licitude dos olhos (Ed Penalux 2016), Na ternura das horas (Ed. Assoeste 2017) Campos errantes (Ed. Penalux 2018), Folhas dos dias (Selo Ser MulherArte Editorial, 2020), Destinos desdobrados (Ed. Penalux, 2021) e Diário dos inícios ( Meatanoia Editora, Selo Mundo Contemporâneo Edições, 2021) . Conta com publicações em antologias, jornais e sites literários nacionais e internacionais. Integra a Academia Cascavelense de Letras.

 

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