Cultura

Três poemas em fúria | Antonio Manna

O  urdido cabo do medo


Lá longe onde o mar é mais belo do que se possa imaginar

onde as praias alvas de pó de coral espelham o azul do céu

está o falso paraíso na terra emoldurado pelo imenso palmar

onde as mãos e as cabeças decepadas do seu povo são o troféu

 

Lá longe onde esta gente vivia esquecida à sua sorte

ávidos caçadores furtivos descobriram no fundo do mar

um dragão gigante e valioso que fala a língua da morte

e a troco de jazidas mandou-lhes o drago o povo chacinar



O mar ouviu a voz da peçonha e vomita conchas e búzios

nas praias silenciosas ecoam os gritos dos esquartejados 

misturados ao uivo da maresia surdem tétricos bramidos

que sobem pelas palmeiras como ventos ensanguentados

 

Lá longe no norte, morre-se, a cobiça ergueu o seu magistério 

de fome não se morria, o abandono, a orfandade, eram a agonia 

o futuro dos assassinados ficou traçado com a chegada do drago

os falsos caçadores imolaram as vidas em Mocimboa e Macomia



Lá longe no Norte, a população descreve a magia dos caçadores,

dizem que por cada decapitado os seus poderes se multiplicam
o êxodo é sem rumo e nas povoações abandonadas ovos enormes

chocam dentro das casas enquanto gordos vampiros os vigiam

 

Lá longe no Sul, os vampiros zelotas gargalham e esfregam as mãos
os dentes afiados a sorrir deixam escorrer uma baba sanguinolenta 

o tesouro na toca do dragão chega para o povo não ter falta de pão,

dá para levantar uma nação, mas o futuro é certo, a cruel morte lenta

***

 

Os papagaios de papel fazem-se nos contentores do lixo
arma-se a estrutura nas latas de atum esventradas à língua
o rabo, mesclado de fluídos nauseabundos é puxado do fundo
as múmias vivas correm para o chapa da primeira ligação
no contentor enquanto mastigam os restos do resto não se olham
o trânsito, as buzinas e os semáforos vermelhos acendem os olhos
esbugalhados da vida na merda a comer do lixo e remexem de novo
azáfama e vozes altas no até amanhã, no não dá tenho de ir, no ciao
a pressa na viagem labiríntica para casa, nada sobra mas vai mais uma beer?



Os meninos saltaram do contentor com as bocas lambuzadas de fome,
o papagaio voará das cinzas da fénix, um atilho de cacos, um rabo de trapos
o grito cantado do cobrador explode na agonia metálica das portas a fechar
as putas que namoram nas barracas, as putas apalpadas nos my love,
as putas que vagueiam pela Julius Nyerere, as putas de plantão na cidade,
não são putas, são mulheres sofridas Maria!    
Outras que não as putas, bebem champanhe em suites de luxo com o diretor postado no instagram 
Nas esquinas escuras à luz dos candeeiros da rua as mulheres da vida roem as sobras
a vergonha escondida nos lábios vermelhos denuncia-se na tissagem de ráfia

Os putos não têm casa para onde levar os sacos plásticos com o jantar variado
as unhas enegrecidas de gordura velha do árduo labor diário de matar a fome
cruzam-se na noite profunda com o cansaço das putas que nunca têm clientes
os putos ainda não tinham sorrido e o dia há muito apagado já quer nascer de novo
– Já está a ir para casa tia Maria?
– Sibazinho, tens alguma coisa para eu comer?
Os olhares  agigantam-se e acocorado o menino abre o saco e sorri-se todo:
-Tenho um pedaço de bolo, está azedo, mas ainda é doce! Tenho três uvas, queres?

***

 

 

Manifesto

Maldito tempo este, o das caladas vozes em carne viva
o tempo dos imperadores sem láurea, títeres gordos, vis
ao ciciar moribundo da podre pátria fétida, não se atenta 
as vozes que se ouvem não são vivas, não são de revolta

Cozinhe-se em lume brando todo o ódio, junte-se a audácia
e antes que a pátria se desfaça em nada, aumente-se a chama
o silêncio é sem fervura, as vivas vozes têm de ser fervente pez
a jogar como facas pelos becos, a fazer explodir todos os casebres 

Fartem-se de fingir que gritam e lúcidos de dor resgatem a voz
do oco conforto, das tertúlias sem sangue, arranquem as plumas,
armem-se com a pobreza calada, lembrem-se dos olhares vazios
a missão das vozes vivas é estraçalhar o mal e trazer o povo prá rua!

 

 

António Francisco da Poça Manna, 65 anos de idade, natural de Maputo e com residência alternada em Vilankulo e em Lisboa.
Autodidata e apaixonado pelo belo, teve desde sempre uma ligação profunda com as artes, sendo os livros e a música a paixão maior e incondicional. 

Na década de 90 publicou alguns textos no Savana com o pseudónimo de António F. 

Em 1999 criou um espaço cultural e de promoção de arte na baixa de Maputo, na Rua de Bagamoyo, que se chamava Artebar.

Recebeu uma menção honrosa na 1ª edição do Prémio Eugénio Lisboa com o livro “Bebi do Zambeze” composto por quatro contos escritos nos anos 80

https://www.amazon.com/dp/B07GNXFD31


A 28/02/2022 publicou na Amazon um romance intitulado “ A rola elegante e os azuis diáfanos”
A 23/04/2022 publicou na Amazon um livro de poesia “43 poemas noturnos”

https://www.facebook.com/antoniomanna57/
https://www.instagram.com/afmanna

 

 

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