
A CASA ESTÁ EM SILÊNCIO
Valor do silêncio
Eu já não tenho idade
Para tagarelices, líricas, poemas de amor eterno
Eterno nem o buraco escuro que me espera
No cemitério. Não tenho idade para leviandades.
Silêncio fora
Apaguem-se as conversas frívolas, esses
Fala-barato, pregoeiros
Políticos em comício
Feirantes, pequenos tratantes
Que recebemos em casa
Esse crepitar da mentira, do logro
Essa gritaria da publicidade, o comércio,
O compra-compra
Que eu vendo-vendo
Vendo a alma se necessário
Claro que isso estou vendo.
Silêncio, preciso de ouvir as formigas
Marcharem em correntes
As andorinhas a aninharem
O barulhito das asas de encontro ao barro
As libélulas a sobrevoarem os planos de água
As minhocas a abrirem galerias no solo friável
Os fetos a quererem falar com as grávidas mães
Preciso de ouvir a erva a crescer, as magnólias
A florir em câmara lenta.
Silêncio, silêncio,
Que já
Oiço correr o sangue nas veias
E o chape-chape das válvulas no coração.
Um momento, que também já oiço
Neste deserto de sinais audíveis
O murmúrio das palavras
A levantarem voo do meu pensamento
E a pousarem cheias de graça
no teclado.
A casa recheada com silêncio
Não posso orar a Deus em alta voz
Não posso chamar aos gritos a Joana.
Que descanso
Para quem quotidianamente convive
com a logorreia
Exercício espiritual, aproveita.
Medita, escreve e lê, recolhe abissalmente
Às raízes do silêncio.
Ouve-o, lambuzado de sílabas crocantes
A escorrerem
mel dos parágrafos.
Ruídos
Esse padre, branquinho de pele
Nunca viu sol e anda na praia
Entrou no refeitório e sentou-se à nossa mesa.
Começou pelas uvas e foi-se embora,
Nós pensando:
além do exercício do silêncio
Também fará o de jejum?
Regressa, remira tudo, pega num pequenino
Prato de sobremesa e serve-se.
Come até à derradeira migalha de ovo, até ao último
Grão de arroz
Apanha com os dedos o pedacinho de alface
Caído do prato e leva-o
À boca.
Deposita os talheres, o copo e os pratos nos devidos
Tabuleiros da louça suja.
Vai-se embora? – perguntamo-nos.
Eis que regressa, pega na malga, serve-se até
À borda infinita de sopa.
Todo ele é ruído contra a promessa de silêncio
E no entanto só para comer abriu a boca.
Exercício de oração
De costas para a parede
Essa mulher contempla um quadro
Mais abstrato que concreto
Cortado em quatro
Pelo que podia ser um ponto de cruz
Ou um sinal de somar
E ali permanece, imóvel,
em exercício de oração.
Maria Estela Guedes (1947/-) tem umas centenas de títulos publicados, em Portugal e no estrangeiro, entre livros, ensaios e crónicas, sobre literatura e outras artes. Figura em diversas obras coletivas, entre as quais salienta Todos os Saramagos (2022) e Contos que Fernando Pessoa não escreveu (2019). Foram levados à cena dois trabalhos seus, O lagarto do âmbar, na Fund. Calouste Gulbenkian, dirigido por Alberto Lopes, e A Boba, no Teatro Experimental de Cascais, dirigido por Carlos Avilez. Também tem participado em eventos de artes plásticas, o último dos quais em 2021, no Museu de Arte Contemporânea de Lisboa, no âmbito das comemorações do Centenário de Ernesto de Sousa. Dirige o site e a Revista Triplov, em triplov.com. Considera suas obras de referência: Herberto Helder, Poeta obscuro, Lisboa, 1979 e A obra ao rubro de Herberto Helder, São Paulo, 2010. Livros publicados mais recentemente: Esta noite dormimos em Tânger e Conversas com Federico García Lorca, ambos de poesia e ambos publicados pela Editora Urutau, Pontevedra/São Paulo, em 2021 e 2022. Edita em 2024, pela editora Tesseractum, o ebook Glugluglu, que reúne a totalidade da sua obra.










