Poesia & Conto

A casa está em silêncio | Maria Estela Guedes

Foto de Emily Campbell na Unsplash

A CASA ESTÁ EM SILÊNCIO

 

Valor do silêncio

 

Eu já não tenho idade

Para tagarelices, líricas, poemas de amor eterno

Eterno nem o buraco escuro que me espera

No cemitério. Não tenho idade para leviandades.

 

Silêncio fora

Apaguem-se as conversas frívolas, esses

Fala-barato, pregoeiros

Políticos em comício

Feirantes, pequenos tratantes

Que recebemos em casa

Esse crepitar da mentira, do logro

Essa gritaria da publicidade, o comércio, 

O compra-compra

Que eu vendo-vendo

Vendo a alma se necessário

Claro que isso estou vendo.

Silêncio, preciso de ouvir as formigas 

Marcharem em correntes

As andorinhas a aninharem

O barulhito das asas de encontro ao barro

As libélulas a sobrevoarem os planos de água

As minhocas a abrirem galerias no solo friável

Os fetos a quererem falar com as grávidas mães

Preciso de ouvir a erva a crescer, as magnólias 

A florir em câmara lenta.

Silêncio, silêncio,

Que já

Oiço correr o sangue nas veias

E o chape-chape das válvulas no coração.

 

                          Um momento, que também já oiço

Neste deserto de sinais audíveis

O murmúrio das palavras

A levantarem voo do meu pensamento

E a pousarem cheias de graça

                                                    no teclado.

 

A casa recheada com silêncio

 

Não posso orar a Deus em alta voz

Não posso chamar aos gritos a Joana.

Que descanso

Para quem quotidianamente convive

                                                     com a logorreia

 

Exercício espiritual, aproveita.

Medita, escreve e lê, recolhe abissalmente

Às raízes do silêncio.

Ouve-o, lambuzado de sílabas crocantes

A escorrerem 

                               mel dos parágrafos.

 

Ruídos

 

Esse padre, branquinho de pele

Nunca viu sol e anda na praia

Entrou no refeitório e sentou-se à nossa mesa.

Começou pelas uvas e foi-se embora,

Nós pensando:

                              além do exercício do silêncio

Também fará o de jejum?

Regressa, remira tudo, pega num pequenino

Prato de sobremesa e serve-se.

Come até à derradeira migalha de ovo, até ao último

Grão de arroz

Apanha com os dedos o pedacinho de alface 

Caído do prato e leva-o 

                    À boca.

Deposita os talheres, o copo e os pratos nos devidos

Tabuleiros da louça suja.

Vai-se embora? – perguntamo-nos.

Eis que regressa, pega na malga, serve-se até 

À borda infinita de sopa.

Todo ele é ruído contra a promessa de silêncio

E no entanto só para comer abriu a boca.

 

Exercício de oração

 

De costas para a parede

Essa mulher contempla um quadro

Mais abstrato que concreto

Cortado em quatro

Pelo que podia ser um ponto de cruz

Ou um sinal de somar

E ali permanece, imóvel, 

                                 em exercício de oração.

 

Fotografia de Maria Estela Guedes

Maria Estela Guedes (1947/-) tem umas centenas de títulos publicados, em Portugal e no estrangeiro, entre livros, ensaios e crónicas, sobre literatura e outras artes. Figura em diversas obras coletivas, entre as quais salienta Todos os Saramagos (2022) e Contos que Fernando Pessoa não escreveu (2019). Foram levados à cena dois trabalhos seus, O lagarto do âmbar, na Fund. Calouste Gulbenkian, dirigido por Alberto Lopes, e A Boba, no Teatro Experimental de Cascais, dirigido por Carlos Avilez. Também tem participado em eventos de artes plásticas, o último dos quais em 2021, no Museu de Arte Contemporânea de Lisboa, no âmbito das comemorações do Centenário de Ernesto de Sousa. Dirige o site e a Revista Triplov, em triplov.com. Considera suas obras de referência: Herberto Helder, Poeta obscuro, Lisboa, 1979 e A obra ao rubro de Herberto Helder, São Paulo, 2010. Livros publicados mais recentemente: Esta noite dormimos em Tânger e Conversas com Federico García Lorca, ambos de poesia e ambos publicados pela Editora Urutau, Pontevedra/São Paulo, em 2021 e 2022. Edita em 2024, pela editora Tesseractum, o ebook Glugluglu, que reúne a totalidade da sua obra.

 

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