Política

Ascensão e sucesso da criminalidade política | Celso Japiassu

Foto de Fine Photographics na Unsplash

Steve Bannon pretende candidatar-se a presidente dos EUA, depois de dar mais um mandato a Donald Trump. Bannon fundou “The Movement”, uma organização de caráter ideológico que visa instalar governos de extrema direita nos países do mundo.

 

A eleição de Trump nos Estados Unidos, o Brexit, sem esquecer as vitórias da extrema direita pelo mundo, sobre todos esses eventos políticos existe a certeza da manipulação do eleitorado pelo uso dos recursos oferecidos pela internet. O mundo vive uma época em que a conexão instantânea, ao mesmo tempo em que reduz as distâncias e conecta as pessoas, revela também o que o ser humano tem de pior ao proporcionar o surgimento de um novo tipo de criminalidade. A fraude eleitoral é apenas um desses novos crimes, entre tantos outros que a sinistra imaginação do ser humano não cansa de planejar.

 

Um relatório da diretora executiva da Europol (https://pt.wikipedia.org/wiki/Europol), a belga Catherine De Bolle, associa o surto de coronavírus ao aumento da criminalidade e diz que “a pandemia trouxe o melhor, mas infelizmente também o pior da humanidade. Com um grande número de pessoas a trabalhar a partir de casa e, geralmente, com sistemas de segurança desatualizados, os cibercriminosos aproveitaram-se dessa situação”.  A Sra. De Bolle destaca que “o impacto da pandemia no crime cibernético revelou a face mais visível e impressionante em comparação com outras atividades criminosas, pois os criminosos conseguiram adaptar-se rapidamente e atingir as ansiedades e medos das suas vítimas”.

 

Ansiedades e medos

 

As ansiedades e medos mencionados pela diretora da Europol, referindo-se principalmente aos crimes sexuais e fraudes financeiras, foram também os mais fortes elementos emocionais que a Cambridge Analytica explorou profundamente em suas campanhas de notícias falsas. Era lá onde trabalhava o notório ativista de extrema direita Steve Bannon, íntimo amigo da família Bolsonaro. Foi lá também onde desenvolveu a forte campanha de notícias falsas (“fake news”) destinadas a dirigir o voto nas campanhas eleitorais em que foi o responsável pela estratégia. O planejamento dessas campanhas visava principalmente as diversas camadas de classe média despolitizadas e por isso mesmo mais expostas ao populismo radical de extrema direita e à exploração das suas ansiedades e seus medos. Nos Estados Unidos, o medo do desemprego, dos mexicanos e todos os imigrantes; no Reino Unido, o medo do domínio da União Europeia e, no Brasil, o medo de Lula e do PT. São apenas alguns exemplos das ansiedades e medos a que se referia genericamente o relatório da Europol.

 

A estratégia da Cambridge Analytica e de Steve Bannon, embora sofisticada, é simples e tradicionalmente utilizada no planejamento das ações de marketing comercial: identifica-se o público-alvo pelos parâmetros de classe social, idade, hábitos, crenças, depois realiza-se alguns testes de efetividade do tipo de mensagem que a eles vai ser endereçada. No caso de campanhas de marketing de produtos, quais as mensagens capazes de influenciar o consumidor. Na estratégia eleitoral, as que serão capazes de conquistar corações e mentes e influenciar o voto. Os Big Data (https://inteligencia.rockcontent.com/big-data/) encarregam-se de identificar onde se encontra o público desejado, traçar perfis eleitorais e tendência de voto para então bombardeá-lo com as mensagens que querem ouvir, a maioria falsas e que vão dirigir seu pensamento. Mensagens fraudulentas explorando suas ansiedades e medos. A partir daí, para obter sucesso, confia-se no comportamento de manada, que quase nunca falha.

 

A efetividade das “fake news” passou a ser turbinada com o advento e o desenvolvimento da inteligência artificial, que multiplicou a capacidade e a efetividade da manipulação das audiências digitais.

 

“Dominância informativa” foi o termo criado para definir a técnica que difunde rumores, desinformação e notícias falsas. 

 

Guerras clandestinas

 

A Cambridge Analytica, fundada pelo bilionário de extrema direita Robert Mercer, teve uma curta vida de cinco anos (2013-2018) e faliu quando veio a público o escândalo do fornecimento a seu favor de dados pessoais dos usuários do Facebook. Esses dados foram usados para traçar o perfil psicológico daqueles usuários a fim de serem aplicados nas estratégias de campanhas eleitorais. Depois da falência, a Cambridge Analytica ressuscitou na pele de duas diferentes empresas, uma chamada CA Political, responsável pela atividade e exploração do mercado político e eleitoral, e a CA Commercial, para o atendimento de clientes empresariais. Ambas se encontram hoje em atividade, a primeira delas em operações quase sempre clandestinas mundo afora. Os clientes da CA Political são governos e corporações militares que pretendem mudar o comportamento das populações em benefício dos seus objetivos, todos alinhados com os interesses da extrema direita política. Usa táticas inspiradas nas estratégias de guerra desenvolvidas por teorias e práticas militares.

 

Até 2018 a Cambridge Analytica elaborou estratégias e executou programas de desinformação e propaganda para mais de 200 diferentes campanhas políticas pelo mundo. Todas as candidaturas eram do espectro conservador ou abertamente extremistas de direita, coincidentes com a visão ideológica de Robert Mercer e Steve Bannon.

 

Robert Mercer exerceu atividade profissional como cientista da computação, especialista em inteligência artificial. Trabalhou no laboratório de pesquisas da IBM antes de iniciar-se em aplicações financeiras e tornar-se bilionário administrando fundos de cobertura e fazendo diversos investimentos muito rentáveis de retorno garantido.

 

Candidato

 

Steve Bannon, que pretende candidatar-se a presidente dos Estados Unidos depois de Trump, foi banqueiro de investimentos antes de tornar-se estrategista político. Editou um site especializado em “fake news” e teorias de conspiração chamado Breitbart News, orientou a primeira campanha de Donald Trump e foi estrategista chefe da Casa Branca. Fundou depois “The Movement”, uma organização de caráter ideológico que visa instalar governos de extrema direita nos países do mundo. Transferiu sua sede para Bruxelas, na vizinhança dos escritórios da União Europeia. Além de The Movement, criou também um portal chamado War Room (https://warroom.org/) para dar suporte a sua militância neofascista. A denominação ‘gabinete de guerra’ revela claramente quais são as suas intenções.  

 

A Cambridge Analytica continua a responder como ré a várias investigações criminais tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido. Nem a empresa nem Bannon e muito menos Robert Mercer jamais responderam ao que lhes foi perguntado pelos jornalistas. A atuação desse grupo e suas ramificações têm sido consideradas como uma ameaça global à democracia.

 

Bannon atua hoje como líder midiático e organizador político do movimento MAGA e da direita populista através do seu podcast diário “Bannon’s War Room” e de iniciativas ligadas à mobilização eleitoral nos EUA e em outros países do mundo. Bannon’s War Room é o programa político mais ouvido da direita norte‑americana, com versões em áudio e vídeo em plataformas como Apple Podcasts e Real America’s Voice.

 

Bannon continua a posicionar‑se como estrategista do trumpismo, defendendo abertamente um “terceiro mandato” para Donald Trump e usando o seu programa como instrumento de pressão ideológica sobre o Partido Republicano. Estaria a montar a infraestrutura para sua própria candidatura presidencial em 2028, o que inclui uma forte rede de apoios. Publicamente, insiste que o foco é manter Trump no centro do movimento.

 

Apesar de ter cumprido quatro meses de prisão por desacato ao Congresso em 2024, Bannon saiu em liberdade e retomou imediatamente a atividade mediática e política, reforçando a centralidade do “War Room” como sua principal plataforma. 

No ecossistema da direita radical global, a sua função predominante hoje é a de ideólogo‑comunicador: moldar narrativas, coordenar redes e oferecer enquadramento estratégico para campanhas e causas alinhadas ao trumpismo.

fotografia de Celso Japiassu

 

Celso Japiassu: Poeta, articulista, jornalista e publicitário brasileiro. Trabalhou no Diário de Minas como repórter, na Última Hora como chefe de reportagem e no Correio de Minas como Chefe de Redação antes de se transferir para a publicidade, área em que se dedicou ao planejamento e criação de campanhas publicitárias. Colaborou com artigos em Carta Maior e atualmente em Fórum 21. Mora hoje no Porto, Portugal.

É autor de Poente (Editora Glaciar, Lisboa, 2022), Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, 1992), O Último Número (Alhambra, 1986), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, 1980), A Região dos Mitos (Folhetim, 1975), A Legião dos Suicidas (Artenova, 1972), Processo Penal (Artenova, 1969) e Texto e a Palha (Edições MP, 1965).

Qual é a sua reação?

Gostei
2
Adorei
2
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.

More in:Política