
LÁ EM CASA
Ainda ouço o zumbido da máquina, mesmo quando o silêncio toma conta das manhãs.
Aquela casa — metade palavra, metade tecido — ainda vive em mim.
Carrego o som do pedal batendo no tempo, o cheiro de pano novo, o pó da linha cortada.
Mas hoje sou eu quem costura.
E já não costuro vestidos: costuro instantes.
Cada palavra é um ponto que prendo para não me desfazer.
Minha mãe me ensinou a unir as partes, meu pai a dar sentido ao que se une.
O resto — essa fome de beleza, essa urgência de dizer o indizível — aprendi sozinha.
A menina que aprendeu a costurar o mundo agora costura o próprio coração.
Aprendeu que amor também é tecido: precisa de trama, de paciência e de dedos firmes.
E quando o amor rasga, o que resta é a arte — porque o poema é sempre um remendo que não dói.
O LIVRO VÊ OUTROS
Queria te amar como amo os livros.
Beijar as orelhas e o frontal prefácio,
Ir até o posfácio como se fora o entorno dos teus braços.
Teu desenho corporal é feito de letras muito belas,
Vindas em meu encalço.
Queria te adorar assim como adoro os livros
— e como me devoto às permanentes reticências do labor literário.
Queria te amar como amo, descarada, despudorada e indecentemente,
Todos os livros — até aqueles já manuseados, com folhas arrancadas.
Amaria mesmo aquela quantidade de tomos cuja maior parte é desnecessária.
Ah, gosto dos livros de receitas e até dos breviários.
Acarinho aqueles livros de poesia salvados dos espólios recusados;
Também os romances que, esquecidos nas janelas, amanheceram úmidos pelo orvalho.
Releio, por vezes, páginas grifadas em tinta vermelho- escarlate,
Censuradas por conterem descrição de sexo explícito.
Mas tu, meu amigo, és um ser demasiado abstrato.
E eu não te amo por isso e por aquilo…
Vou preferir a concretude das páginas que se encontram soltas,
E que rearranjo com a delicadeza de meus dedos;
Em extremo cuidado, vou lhes desvelando os segredos.
Guardo com especial zelo os livros antigos,
Suas capas de couro protegendo o papel mais refinado.
Desejaria te amar como tenho amado este romance que agora leio,
Sorvendo-o bem devagar, para retardar o seu desfecho.
Já você, cujo olhar pousa em mim como um leitor indecifrável,
É complexo demais para que eu possa compreender.
JANELAS DE LISBOA
Entre o vento e as janelas antigas de Lisboa, minhas memórias se dissolvem.
No assento desse coche moderno que me conduz com elegância à fábrica dos pastéis, em Belém, percebo, no trajeto, pequenos lampejos da alma lusitana que Eduardo Lourenço descreve no Labirinto da Saudade.
É uma saudade de linhas sinuosas, quase invisíveis, que se entrelaçam na cidade antiga, onde sombras e résteas se alinham como traços de pena de um poeta que as imaginou.
Os ventos — leves ou intensos — não movem nada de seu lugar de origem; as aves permanecem em seu pouso efêmero, e as fachadas, marcadas pelo tempo, ostentam as sujidades acumuladas pelos séculos. Tudo respira uma quietude que parece suspender o instante.
Minhas retinas captam uma paisagem trêmula, solta na atmosfera. Homens e mulheres atravessam as ruas pensativos; de repente, o riso de uma criança rompe o silêncio, vindo de uma janela que talvez nem exista mais no mapa da memória.
E assim sigo, entre o que é visto e o que é lembrado, reconhecendo que Lisboa não está apenas diante de meus olhos — ela mora também em minhas lembranças, em cada vento, em cada sombra, em cada pedra que guarda o peso dos tempos.
A CASA DOS MENINOS SEM NOME
Fiz umas trinta peças para doar à Casa dos Meninos sem Nome,
um abrigo de recém-nascidos
que fica na Rua dos Descuidados.
Todo Natal, nós, da Associação Nacional das Costureiras,
costuramos culotes, pagãos, mantas, babadores, paninhos de boca, macacões, tudo em linhas coloridas.
Não gosto do preto no branco.
É preciso cor pra que eles sonhem.
Quem sonha aprende a pôr-se de pé.
Convoquei Zé Pedinte,
meu velho ajudante, bom de alma e ruim de abstinência,
para que levasse as roupinhas a dona Aurora, presidente da Casa.
À tardinha, Zé voltou com as mãos vazias,
olhou-me com os olhos marejados.
— Que foi, homem?
Desatou no choro.
Rezei um Pai-Nosso.
Fiz-lhe um café forte.
Voltei à costura,
presa na respiração.
NOITE
Ainda teimas em permanecer neste jardim,
exilado até pelos hierofantes celestes,
onde as papoulas languem, submersas em charcos lúgubres,
e o ar se densifica com o peso de segredos arcanos.
Já te adverti: neste limiar,
as potestades aladas não mais transitam,
vetadas pelo édito altíssimo.
Este solo é consagrado ao inaudito,
uma penumbra onde a claridade se exila.
Jamais transponhas aquela curva ao término da via.
Ali desponta a noite acérrima da terra,
um breu insondável, um negrume que subverte o mundo visível.
Ao cruzar esse limiar, penetrarás o reino das sombras vivas.
Essa noite tem dizimado legiões,
não pelo fragor das armas,
mas pelo hálito gélido que turva o ânimo dos mais audazes.
Grandes estrategos, como Napoleão,
não foram derrotados por táticas ou artilharia,
mas pela vastidão desse ébano impiedoso,
onde arqueiros invisíveis disparam
setas de um medo inominável.
Este jardim é um vestíbulo ao abismo,
uma intersecção onde o tangível se dissolve,
e o etéreo governa.
Se decides permanecer,
que o faças em silêncio reverente, sem mim,
pois aqui, até o tempo se perde
e o destino já não reconhece as suas próprias regras.
Julia Lemos é poeta e escritora, natural de Pernambuco, onde vive. Publicou os livros Carmem Antônia Migliacchio Enlouqueceu (Edições Pirata, 1980), A Casa Estrelada (FUNDARPE/CEPE, 1997) e A Exposição dos Sóis (Editora Penalux, 2017).
Sua escrita transita entre poesia e prosa poética, com forte dimensão confessional, reflexiva e imagética, explorando temas como memória, linguagem, corpo e criação. Possui livros inéditos e desenvolve projetos literários que articulam escrita, voz e performance.










