
4ª ABLUÇÃO
noites há que s’abreviam
nos cantos calados, nos élitros subtraídos
ao sol sepulto, ainda incendiário,
nos poços que s’infundem ao rigor dos pólenes
soterrados como ditames e imprecações,
nos dinossauros sempre em vigília, enquanto
esquecimentos tardios se decompõem
ou fossilizam antigos siglários
escavar-se-ão, no entanto, 1002 noites,
1003, quantas mais s’acrescentarem,
e dos versos que então se burilarem
se dirá que maiores são os
menores,
que os maiores se prosternaram à mancha
omnívora do quotidiano, à atomização
— s’o corão se tivesse escrito antes dos lábios,
a distensão do esterno ao revés dos mortos —,
à atomização da memória semi-dispersa
que desfigura tudo o que era, recriando
noites há que s’arabizam,
as luas espelhando p’los versos, direi:
celebra o folclore o que se farejou,
mas os versos meus em que o luar falte
jamais serão menos árabes por isso
pois repetidos destinos s’agigantaram
de sóis rendidos à guarida das nuvens,
no vaivém d’autocarros indefesos
p’la inclunação das serras adiadas,
p’la vertigem dos ermos mais subtis
ao coração dos adeuses exangues,
ao castelo qu’altivo e astral s’impõe
como se co peso taipasse o inferno
às pálpebras desbotadas do arade
sobr’os achados impassíveis, os pés,
inconquistáveis à rasura do silêncio;
as palavras que, corruptas, revigoram
as constelações, os ecos e os nós,
reacendendo al-Mu’tamid p’los caminhos
e ombreando, p’los arrabaldes, a nova safra
qualquer dia a terra ainda treme e n
o
s engole,
devolvendo-nos à noite que se não sabe
7ª NOITE SIBILANTE
endogamicamente, a substância é-me igual:
o vaso tanto acumula o aso quanto o vazio,
flagrantes se fazem os sons consanguíneos,
miscigenação de noções, todas e nenhumas,
pairantes sob as trevas, invertidas à espera
na rotação qu’atrai à cripta o que s’esquece;
aprende: a religião é o lugar em que se nasce
e tudo o mais que se diga é um acto livre.
o que une é somente a mão, pronta a arder
MULHERES
nasciam depois, cos répteis entre os dedos,
as mulheres,
só porque ditas p’la voz dos homens,
esses, qu’habitam a agonia
e antecipam, nos nervos, o sudário
desaparecem no chão como o lusco-fusco,
as mulheres,
antes de vestirem a transparência dos lagos
e a fragrância arbórea das henas
qu’alimentam, nas asas, os leões da terra
ressurgirão, coa sinuosidade mandibular,
as mulheres,
enquanto o ácido as fizer exaustas
e esventrarem, p’la força, os másculos gumes,
segurando, p’las mãos, os impérios mais longos
só depois serão elas próprias,
as mulheres,
a memória repondo de quem sempre foram,
sem qualquer vestígio dessoutra pele que,
no evo, as afastou dos homens
DUAS CONFIDÊNCIAS
1.
Ele que não lê desconhece
que é ele que me escreve.
Às vezes, procura-me e não m’encontra.
Desconhece que estou aqui, no poema.
Só aqui o nosso amor s’eternifica.
2.
Afinal, dei-lho a ler. Foi preciso.
Há poemas que não podem esperar.
Beijou-me cos lábios melífluos,
antevi-lhe nos olhos as abelhas
NERO (2025), Akbar – Lunário Poético Duma Alma ainda Árabe. Lisboa: Manufactura Editora
Nero, pseudónimo de Roberto Simões, nasceu no Algarve, no sul de Portugal, a 22 de Setembro de 1987. Estudou Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e profissionalizou-se em ensino pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É poeta e professor de Português e de Literatura Portuguesa.
O seu espírito criativo revelou-se cedo, escrevendo histórias desde criança. Aos quinze anos, entregou-se a uma só história, na qual ousou o cruzamento da alta fantasia moderna com os moldes clássicos da poesia épica. Por dezoito anos, escreveu-a, reescreveu-a e reescreveu-se, até que se lhe rendeu, publicando-a em 2021: Oceano – O Reino das Águas.
Em 2023, publicou Telúria, um poemário enraizado em memórias e referências autobiográficas que, simulando o seu percurso de vida, viaja do esplendor bucólico ao sepulcro citadino, acabando por regressar ao âmago da natureza como via inevitável para o apaziguamento cósmico e para a transcendência. Propõe a deambulação poética como ritual ascético.
Em 2025, publica Akbar – Lunário Poético duma Alma ainda Árabe. Espécie de almanaque espiritual, viaja às origens e à expansão da fé islâmica, numa toada simbólica e mística, em quarto crescente; celebra, com fervor popular, a expansão árabe pela Ibéria, em plenilúnio; recupera o tom épico, recriando episódios históricos da queda, em quarto minguante; propõe, em quiasmo, o diálogo e o silêncio como instrumentos essenciais ao perdão, ao convívio e à tolerância, de que se farão as luas novas de qualquer idade, ao mesmo tempo que lapida influências do sufismo, nos quatro interstícios que antecedem ou sucedem cada lunação, meditando sobre as razões de deus e dos Homens.










