Poesia & Conto

4 poemas de Akbar | Nero

Foto de Felicity Lynn na Unsplash

 

4ª ABLUÇÃO

 

noites há que s’abreviam

nos cantos calados, nos élitros subtraídos

ao sol sepulto, ainda incendiário,

nos poços que s’infundem ao rigor dos pólenes

soterrados como ditames e imprecações,

nos dinossauros sempre em vigília, enquanto

esquecimentos tardios se decompõem

ou fossilizam antigos siglários

 

escavar-se-ão, no entanto, 1002 noites,

1003, quantas mais s’acrescentarem,

e dos versos que então se burilarem

                    se dirá que maiores são os

                                                   menores,

que os maiores se prosternaram à mancha

omnívora do quotidiano, à atomização

— s’o corão se tivesse escrito antes dos lábios,

a distensão do esterno ao revés dos mortos —,

à atomização da memória semi-dispersa

que desfigura tudo o que era, recriando

 

noites há que s’arabizam,

as luas espelhando p’los versos, direi:

celebra o folclore o que se farejou,

mas os versos meus em que o luar falte

jamais serão menos árabes por isso

 

pois repetidos destinos s’agigantaram

de sóis rendidos à guarida das nuvens,

no vaivém d’autocarros indefesos

p’la inclunação das serras adiadas,

p’la vertigem dos ermos mais subtis

ao coração dos adeuses exangues,

ao castelo qu’altivo e astral s’impõe

como se co peso taipasse o inferno

às pálpebras desbotadas do arade

 

sobr’os achados impassíveis, os pés,

inconquistáveis à rasura do silêncio;

as palavras que, corruptas, revigoram

as constelações, os ecos e os nós,

reacendendo al-Mu’tamid p’los caminhos

e ombreando, p’los arrabaldes, a nova safra

 

qualquer dia a terra ainda treme e n

                                                                    o

                                                                        s engole,

 

devolvendo-nos à noite que se não sabe

 

 

7ª NOITE SIBILANTE

 

endogamicamente, a substância é-me igual:

o vaso tanto acumula o aso quanto o vazio,

flagrantes se fazem os sons consanguíneos,

miscigenação de noções, todas e nenhumas,

pairantes sob as trevas, invertidas à espera

na rotação qu’atrai à cripta o que s’esquece;

aprende: a religião é o lugar em que se nasce

e tudo o mais que se diga é um acto livre.

o que une é somente a mão, pronta a arder

 

 

MULHERES

 

nasciam depois, cos répteis entre os dedos,

as mulheres,

só porque ditas p’la voz dos homens,

esses, qu’habitam a agonia

e antecipam, nos nervos, o sudário

desaparecem no chão como o lusco-fusco,

as mulheres,

antes de vestirem a transparência dos lagos

e a fragrância arbórea das henas

qu’alimentam, nas asas, os leões da terra

ressurgirão, coa sinuosidade mandibular,

as mulheres,

enquanto o ácido as fizer exaustas

e esventrarem, p’la força, os másculos gumes,

segurando, p’las mãos, os impérios mais longos

só depois serão elas próprias,

as mulheres,

a memória repondo de quem sempre foram,

sem qualquer vestígio dessoutra pele que,

no evo, as afastou dos homens

 

DUAS CONFIDÊNCIAS

 

1.

 

                                                                                      Ele que não lê desconhece 

                                                                                                que é ele que me escreve.

                                                                      Às vezes, procura-me e não m’encontra.

                                                                        Desconhece que estou aqui, no poema.

                                                                                        Só aqui o nosso amor s’eternifica.

 

2.

 

                                                                                          Afinal, dei-lho a ler. Foi preciso.

                                                                                    Há poemas que não podem esperar.

                                                                                          Beijou-me cos lábios melífluos,

                                                                                          antevi-lhe nos olhos as abelhas

NERO (2025), Akbar – Lunário Poético Duma Alma ainda Árabe. Lisboa: Manufactura Editora

 

fotografia de Nero

 Nero, pseudónimo de Roberto Simões, nasceu no Algarve, no sul de Portugal, a 22 de Setembro de 1987. Estudou Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e profissionalizou-se em ensino pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É poeta e professor de Português e de Literatura Portuguesa.

O seu espírito criativo revelou-se cedo, escrevendo histórias desde criança. Aos quinze anos, entregou-se a uma só história, na qual ousou o cruzamento da alta fantasia moderna com os moldes clássicos da poesia épica. Por dezoito anos, escreveu-a, reescreveu-a e reescreveu-se, até que se lhe rendeu, publicando-a em 2021: Oceano – O Reino das Águas.

Em 2023, publicou Telúria, um poemário enraizado em memórias e referências autobiográficas que, simulando o seu percurso de vida, viaja do esplendor bucólico ao sepulcro citadino, acabando por regressar ao âmago da natureza como via inevitável para o apaziguamento cósmico e para a transcendência. Propõe a deambulação poética como ritual ascético.

Em 2025, publica Akbar – Lunário Poético duma Alma ainda Árabe. Espécie de almanaque espiritual, viaja às origens e à expansão da fé islâmica, numa toada simbólica e mística, em quarto crescente; celebra, com fervor popular, a expansão árabe pela Ibéria, em plenilúnio; recupera o tom épico, recriando episódios históricos da queda, em quarto minguante; propõe, em quiasmo, o diálogo e o silêncio como instrumentos essenciais ao perdão, ao convívio e à tolerância, de que se farão as luas novas de qualquer idade, ao mesmo tempo que lapida influências do sufismo, nos quatro interstícios que antecedem ou sucedem cada lunação, meditando sobre as razões de deus e dos Homens.

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