
4 POEMAS INÉDITOS
1.
[água pela boca
o dia o pioneiro de glicínias perfumado
sabe-o a mão de s. tomé três minutos sobre a cama
a elucidar a manta arbustal aos quadrados
o lado de fora da janela sem pasmo
entorpece o som do galo de holter ao peito
pra mensurar a chuva
a mão de s. tomé volvida nos minutos seguintes
a uma espécie de calor ao mesmo calor de quando
a ternura percorria de uma ponta à outra a pupila da casa
ímpetos arrítmicos ambos
de quando insuficientes as palavras
frente ao indulto dos sentidos
o dia o pioneiro nos helicópteros da língua suspensa
algures entre o coração da água e o sono de tudo quanto se esgarça
assim o calor assim a ternura senescências coalescentes
na luz a fio líquido serventuário do duche tépido
e da noite assim vazia
a mão de s. tomé punge o coração da água
demora-se umas sílabas
nas clivadas diagonais das virilhas
o que é de dançar dança
a memória em rosário despido de todas as lonjuras
faz crer que nos aquários
um vagar de ossos e estatuárias pilhadas às guelras
faz crer que entre a lâmina pilosa e as gavetas
do lado de fora da janela
seguem ora ramagens apátridas ora terceiras gerações
de facínoras
o dia o pioneiro dá em imitar das virilhas
o congénito deíctico da casa sobre o cabide
sobre a gravata sem uso da memória
a cada insólita luz mais afeita ao palato
como a um ventilador que a porfiasse
à medida dos arcanos nas molduras frívolas
do lado de fora da janela o que parece movimento
mas carvalheiras de março o que parece silhueta
aderida às verdes retinas retintas
da fadiga negreira
o dia o pioneiro em trampolim dos idos
nítida a chuva assim nítida desce à terra
a homóloga superfície da descendência
a luz sólida enfim
defronte ao mando de´ scalas de serviço
extrovertidas
nem a mão de s. tomé menos que um século vê motivo
para lapelas largas no cintado vigor colonial nem
para a luz palustre na desavença dos cotovelos
andaimes servidões turnos frente a frente
com as línguas azuis das ovelhas
pôr perfume no pescoço é cedência de passagem
mas manifestos de reparações escusados
perante o modo como alastram à janela
casas desempregadas palmeiras acácias
odores de matiné transladada da avenida das índias
sabe a mão de s. tomé quão cansada a tinta
vermelha com que fizeram amor
a mão de s. tomé faz caminho pelas ilhas do corpo
prende aos tornozelos impunes brasões
o dia o pioneiro é português resistem as axilas
à monocromia de verde abonada de virilhas
abaixo da janela nas partes debaixo
o sistema tensional do espelho
de esguelha pau de canela do subsídio de refeição
as antenas das mãos tenteiam emulsionam
em óleo de sândalo: o efeito literal podia bem ser
um tiro que lentamente despargisse
o dia o pioneiro fenda de um membro que treme
porventura debaixo do estrado ortopédico
de bruços
passadas as águas de mover moinhos
um membro que a paisagem deixou para trás
encapado em toalha turca falha de cor
ou assim preta
irreparável tudo já o coração da água
pela boca
2.
[por esquecimento
o gato- sul assedia os reposteiros _
desfrisa a fluência doméstica de veludo.
um rastilho mina a casa. impávida.
uma aveleira ainda que nativa não é suficiente
para a cotação da floresta.
o gato-sul divisa detrás da lucidez o que numa mulher
pode ser um rudimento exaustivo de mãos ocupadas.
o que esperamos das antecipações do verde
remendado nos ossos curvos de teares obscuros.
o gato- sul pula a distância de penélope
e o modo invisual como arrasta pelo branco muro
o esquecimento.
a reclusão da mulher enternece o mar
mas o mar de maior distância.
aí injustamente onde a ameaça omitida ondula as patas presas
numa litania de agulhas.
o mar de malhas mananciais. do azul desengano
dos barcos ilesos na conjuntiva.
se as pálpebras unidas recurvos trombos compassivos.
um retalho bivalente não é suficiente
para a ruína do movimento. o gato- sul prenuncia a mulher
aprendiza dos efeitos medicativos do handy craft.
afia-lhe as unhas nos cabelos do vestido.
arranha-lhe o rasto em mar masculino.
malsão fá-lo não por benevolência
mas porque dos nomes sabe somente a promessa
d´ encalço sem retorno.
a mulher olha para a porta e a porta atrancada.
simultaneidade dos reposteiros divididos em partes iguais
por que passa imóvel a noite súbita.
o tempo do gato- sul é um mar assustado
frente à escolta do presente já perdido por demasiado
embaraço metido nos nomes da beleza.
os élitros da mulher.
artemisia annua. medusa.
- macbeth acto 1 cena 5.
arbustivo desejo. ou o que no desejo permanece parasita.
perfil bordeline.
perturbação major.
rotinado no amor não é suficiente o sangue
para a passiva paixão da alma consumada.
o gato- sul um guizo. um raio gerativo
da sombra. da pesporrência nomeada.
3.
nos olhos breves, como cães desamparados,
uivam as intermitências das batalhas
Ares convalesce da síndrome de burnout,
na cauda as bigornas pendem da fuligem
por isso é tempo d´içar, como em bandeira imberbe,
o escapelo da paz,
é tempo de grassar relâmpagos na disfonia das gargantas,
de levar a bom porto os cavalos alados
no zénite dos dedos, nus despertadores da carne,
nas crinas de júbilo de contexto
é tempo de lotar os tinteiros et alli
de munir fabricantes da apocrifia da noite,
tempo d´abrir o fole da ignição com um falso azul nos lábios
afine-se o pulso às frontes
onde arde o trompete do esquecimento.
é ainda tempo para enfiar na agulha antiga
o rio de heracltito
pra que se não banhe o castigo duas vezes
nos olhos breves não paramos de indultar a suspeita,
nem estacamos os repuxos do sangue
sobre as vértebras,
é breve o tempo pra desminar o coração célere
e pentear nos espelhos a paleolítica lembrança
do encontro que não bacilo que não corda
[prometo-te] dar pano aos artefactos, aos sítios
entre as perdas e as escadas afagadas
pla´ inebriação das frésias
é breve o tempo ocular pra distender os nervos
deslembrados da polpa de morrer
[prometo-te] o lugar ondo o mar é um farol
um pacto natural com encartes de náufragos
nos olhos breves, supondo qu ´inda terra e´ inda tempo,
[crê-me] hei-de cronometrar as palavras com alfinetes-de-ama,
dá para o mar a vertente extasiada dum berço, dum braço,
dá para a ousadia a árvore do sensível, a que não farfalha
fronteiras, nos olhos breves ponho carga
sobre a substância dum pomar no cutelo do cansaço
fito a febre da chuva hei-de voltar a escrever no muro
de antero quental a palavra <esperança>: palavra não acessível
à solidão qu ´aparta, nem aos miserentos estampidos,
nem aos bunkers de vultos em translado
se bem que, nos olhos breves, bandas de cera ebuliente
podassem exímias as aprendizagens do medo,
varejassem o bolor de lírios nas espáduas das aduelas,
se bem que, à superfície do tempo, a esgrima fúngica
em decalque genocida, crescessem nos olhos breves
teias em ferida,
em breve as mãos instarão a temeridade da carne levante
dirá [prometo-te] o diafragma: a tempo o tempo
d´ acolher no verão o que não cerco, a tempo o tempo
d´atonar a tez declarativa,
sem mãos a medir, é tempo d´achar outro molde
prá matéria humana,
porventura principiar por um busto de areia,
pelo espólio de versos reflexos [prometo-te]
4.
[cabaret voltaire
em voejar contundente abelhas filiais difundem a derrocada
em clima fechado. em close-writting a pestilência
de sinalizadas presenças tingidas em decibéis de noite
ao fundo da insigne náusea do trabalhoso carisma
o poder
abaixo da velocidade digital da terra
e das centopeias da impassibilidade
uma vez na net para sempre na net
daí o duelo daí a diatribe ostensiva
do póstumo ao próximo a interdição
aos poetas da quota-parte de semideuses da mais-valia
da orfandade são frentes pesadíssimas
na margem de benefício calcificados os dedos
como pilatos arcanos do corpo são em mente sã
paideia de combate ração para enfeitar
o fascínio saturado
de grelhadas-mistas servidas no cabaret simbolista
o hedonismo
nenhum novo somente prodiga a convergência
a margem de lucro dispensada luxo que basta
a transparência tão a mando do susto das cesuras
que não redentoras
quase tudo partilhado no cabaret dos chats sem espelho
à frente frenesi de dar agência ao nem mais
nem menos que somente humano
surtos e dispneias notoriedades convulsivas
corredios laços de pagelas bombas de cobalto
multilaterais e homogéneas dirigidas a poetas na linha
da frente em posições expositivas
dirigidas a singulares despertos cães de fila
profetas do atrito
territoriais franco-atiradores do gaio exílio
contrastados em matilhas impudentes
ao colo d´ abelhas rainhas dezenas por minuto
ovos bífidos poemas chocados supersónicos
em clamor e carne arremetidos
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em ball excluído
o sucesso
Luís Filipe Pereira. ensaísta e poeta. investigador em filosofia e em literatura. licenciado em literatura francesa. mestre em literatura e teoria da literatura contemporânea. pós-graduado em literatura espanhola. & etc. livros de poesia publicados: A tela do mundo (5ª ed.), No lugar da pouca farinha (2ª ed.), Consoante as estevas (2ª ed.), Elogio da espera, Bic Azul. vários ensaios publicados (sobre António Ramos Rosa, M. G. Llansol, Vicente Aleixandre, Fernando Echevarría, Rui Nunes, António Patrício, joalharia, estética & etc.). recensões críticas. muitas dezenas de colaborações em antologias, recensões, revistas portuguesas e estrangeiras. prefácios & posfácios. & etc.










