Poesia & Conto

4 poemas inéditos | Luís Filipe Pereira

Foto de Ales Maze na Unsplash

4 POEMAS INÉDITOS

 

1.

 

[água pela boca

 

o dia o pioneiro                  de glicínias perfumado 

sabe-o a mão de s. tomé três minutos sobre a cama

a elucidar a manta arbustal    aos quadrados

 

o lado de fora da janela             sem pasmo

entorpece o som do galo de holter ao peito 

pra mensurar a chuva

 

a mão de s. tomé volvida nos minutos seguintes  

a uma espécie de calor         ao mesmo calor de quando 

a ternura percorria de uma ponta à outra a pupila da casa    

ímpetos arrítmicos ambos 

de quando insuficientes as palavras

frente ao indulto dos sentidos 

 

o dia o pioneiro       nos helicópteros da língua suspensa 

algures entre o coração da água e o sono de tudo quanto se esgarça 

assim o calor     assim a ternura     senescências coalescentes 

na luz a fio líquido                     serventuário do duche tépido     

e da noite assim vazia

 

a mão de s. tomé punge o coração da água 

demora-se umas sílabas

nas clivadas diagonais das virilhas 

o que é de dançar                 dança

 

a memória em rosário despido de todas as lonjuras 

faz crer que nos aquários 

um vagar de ossos e estatuárias pilhadas às guelras 

faz crer que entre a lâmina pilosa         e as gavetas 

do lado de fora da janela 

seguem ora ramagens apátridas ora terceiras gerações

de facínoras 

 

o dia o pioneiro                 dá em imitar das virilhas

o congénito deíctico da casa sobre o cabide 

sobre a gravata sem uso da memória 

a cada insólita luz mais afeita ao palato

 

como a um ventilador que a porfiasse 

à medida dos arcanos nas molduras frívolas   

do lado de fora da janela      o que parece movimento 

mas carvalheiras de março   o que parece silhueta

aderida às verdes retinas retintas 

da fadiga negreira

 

o dia o pioneiro em trampolim dos idos

nítida a chuva assim nítida desce à terra 

a homóloga superfície da descendência 

      a luz sólida enfim

defronte ao mando de´ scalas de serviço 

extrovertidas 

 

nem a mão de s. tomé     menos que um século vê motivo 

para lapelas largas no cintado vigor colonial nem

para a luz palustre na desavença dos cotovelos 

andaimes servidões   turnos frente a frente 

com as línguas azuis das ovelhas

 

pôr perfume no pescoço é cedência de passagem

mas manifestos de reparações escusados 

perante o modo como alastram à janela

casas desempregadas      palmeiras   acácias

odores de matiné transladada da avenida das índias 

sabe a mão de s. tomé              quão cansada a tinta 

vermelha com que fizeram amor 

 

a mão de s. tomé faz caminho pelas ilhas do corpo

prende aos tornozelos impunes brasões 

o dia o pioneiro é português resistem as axilas 

à monocromia de verde abonada de virilhas 

abaixo da janela             nas partes debaixo

o sistema tensional do espelho            

de esguelha pau de canela do subsídio de refeição

 

as antenas das mãos tenteiam          emulsionam

em óleo de sândalo: o efeito literal podia bem ser

um tiro que lentamente despargisse

 

o dia o pioneiro        fenda de um membro que treme

porventura debaixo do estrado ortopédico  

de bruços           

passadas as águas de mover moinhos 

um membro que a paisagem deixou para trás    

encapado em toalha turca falha de cor 

ou assim   preta

irreparável tudo já o coração da água 

pela boca

 

2.

 

[por esquecimento 

o gato- sul assedia os reposteiros _

desfrisa a fluência doméstica de veludo.

um rastilho mina a casa. impávida. 

uma aveleira ainda que nativa não é suficiente 

para a cotação da floresta.

 

o gato-sul divisa detrás da lucidez o que numa mulher 

pode ser um rudimento exaustivo de mãos ocupadas. 

o que esperamos das antecipações do verde 

remendado nos ossos curvos de teares obscuros.

o gato- sul pula a distância de penélope 

e o modo invisual como arrasta pelo branco muro 

o esquecimento.

 

a reclusão da mulher enternece o mar   

mas o mar de maior distância.

aí injustamente onde a ameaça omitida ondula as patas presas

numa litania de agulhas. 

o mar de malhas mananciais.  do azul desengano 

dos barcos ilesos na conjuntiva. 

se as pálpebras unidas     recurvos trombos compassivos. 

um retalho bivalente não é suficiente 

para a ruína do movimento. o gato- sul prenuncia a mulher 

aprendiza dos efeitos medicativos                 do handy craft.

afia-lhe as unhas nos cabelos do vestido. 

 

arranha-lhe o rasto em mar masculino.

malsão                           fá-lo não por benevolência 

mas porque dos nomes sabe somente a promessa 

d´ encalço sem retorno.

a mulher olha para a porta e a porta atrancada.

simultaneidade dos reposteiros divididos em partes iguais

por que passa imóvel a noite súbita.

 

o tempo do gato- sul é um mar assustado 

frente à escolta do presente já perdido por demasiado

embaraço metido nos nomes da beleza. 

os élitros da mulher.

artemisia annua.                        medusa.

  1. macbeth acto 1 cena 5.

arbustivo desejo. ou o que no desejo permanece parasita. 

perfil bordeline. 

perturbação major. 

rotinado no amor não é suficiente o sangue

para a passiva paixão da alma consumada. 

o gato- sul um guizo.        um raio gerativo 

da sombra. da pesporrência nomeada.

 

3.

nos olhos breves, como cães desamparados, 

uivam as intermitências das batalhas

Ares convalesce da síndrome de burnout,                  

na cauda as bigornas pendem da fuligem

 

por isso é tempo d´içar, como em bandeira imberbe, 

o escapelo da paz,

é tempo de grassar relâmpagos na disfonia das gargantas,

de levar a bom porto os cavalos alados 

no zénite dos dedos, nus despertadores da carne,

nas crinas de júbilo de contexto

 

é tempo de lotar os tinteiros et alli 

de munir fabricantes da apocrifia da noite,

tempo d´abrir o fole da ignição com um falso azul nos lábios

afine-se o pulso às frontes 

onde arde o trompete do esquecimento.

é ainda tempo para enfiar na agulha antiga

o rio de heracltito 

pra que se não banhe o castigo duas vezes

 

nos olhos breves não paramos de indultar a suspeita, 

nem estacamos os repuxos do sangue 

sobre as vértebras,

é breve o tempo pra desminar o coração célere 

e pentear nos espelhos a paleolítica lembrança 

do encontro que não bacilo que não corda

[prometo-te] dar pano aos artefactos, aos sítios

entre as perdas e as escadas afagadas 

pla´ inebriação das frésias

é breve o tempo ocular pra distender os nervos 

deslembrados da polpa de morrer 

[prometo-te] o lugar ondo o mar é um farol 

um pacto natural     com encartes de náufragos

 

nos olhos breves, supondo qu ´inda terra e´ inda tempo,

[crê-me] hei-de cronometrar as palavras com alfinetes-de-ama, 

dá para o mar a vertente extasiada dum berço, dum braço, 

dá para a ousadia a árvore do sensível, a que não farfalha 

fronteiras,                           nos olhos breves ponho carga 

sobre a substância dum pomar no cutelo do cansaço

fito a febre da chuva     hei-de voltar a escrever no muro 

de antero quental a palavra <esperança>: palavra não acessível 

à solidão qu ´aparta,             nem aos miserentos estampidos, 

nem aos bunkers de vultos em translado 

 

se bem que, nos olhos breves, bandas de cera ebuliente 

podassem exímias as aprendizagens do medo, 

varejassem o bolor de lírios nas espáduas das aduelas, 

se bem que, à superfície do tempo, a esgrima fúngica 

em decalque genocida, crescessem nos olhos breves

teias em ferida, 

 

em breve as mãos instarão a temeridade da carne levante 

dirá [prometo-te] o diafragma:               a tempo o tempo 

d´ acolher no verão o que não cerco,      a tempo o tempo 

d´atonar a tez declarativa, 

 

sem mãos a medir, é tempo d´achar outro molde 

prá matéria humana, 

porventura principiar por um busto de areia, 

pelo espólio de versos reflexos        [prometo-te]

 

4.

 

[cabaret voltaire 

                                                                                                      

em voejar contundente abelhas filiais difundem a derrocada 

em clima fechado.                 em close-writting a pestilência 

de sinalizadas presenças tingidas em decibéis de noite 

ao fundo da insigne náusea           do trabalhoso carisma

o poder

abaixo da velocidade digital                      da terra 

e das centopeias da impassibilidade

uma vez na net para sempre na net 

daí o duelo                         daí a diatribe ostensiva 

do póstumo ao próximo         a interdição

aos poetas da quota-parte de semideuses da mais-valia

da orfandade                          são frentes pesadíssimas 

na margem de benefício calcificados os dedos                

como pilatos arcanos do corpo são em mente sã               

paideia de combate                ração para enfeitar 

o fascínio saturado

de grelhadas-mistas servidas no cabaret simbolista

o hedonismo 

nenhum novo           somente prodiga a convergência 

a margem de lucro dispensada            luxo que basta

a transparência tão a mando do susto das cesuras 

que não redentoras

quase tudo partilhado no cabaret dos chats sem espelho

à frente              frenesi de dar agência      ao nem mais 

nem menos que somente humano

surtos e dispneias                   notoriedades convulsivas

corredios laços de pagelas               bombas de cobalto

multilaterais e homogéneas      dirigidas a poetas na linha 

da frente    em posições expositivas              

dirigidas a singulares despertos                      cães de fila                                

profetas do atrito 

territoriais franco-atiradores     do gaio exílio   

contrastados em matilhas impudentes    

ao colo d´ abelhas rainhas        dezenas por minuto                     

ovos bífidos    poemas chocados         supersónicos 

em clamor e carne arremetidos        

site seit 1916   doravante ruído de bala       

 em ball excluído

o sucesso

fotografia de Luís Filipe Pereira

Luís Filipe Pereira. ensaísta e poeta. investigador em filosofia e em literatura. licenciado em literatura francesa. mestre em literatura e teoria da literatura contemporânea. pós-graduado em literatura espanhola. & etc. livros de poesia publicados: A tela do mundo (5ª ed.), No lugar da pouca farinha (2ª ed.), Consoante as estevas (2ª ed.), Elogio da espera, Bic Azul. vários ensaios publicados (sobre António Ramos Rosa, M. G. Llansol, Vicente Aleixandre, Fernando Echevarría, Rui Nunes, António Patrício, joalharia, estética & etc.). recensões críticas. muitas dezenas de colaborações em antologias, recensões, revistas portuguesas e estrangeiras. prefácios & posfácios. & etc.

 

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