Entrevista

Viceversa: Mhario Lincoln / Rossini Corrêa: Parte I | Rossini Corrêa

Foto: Mhario Lincoln (Facebook)

MHARIO LINCOLN (01) – Entre seus principais trabalhos na literatura brasileira, ressoam em dó maior, os seguintes livros: Canto Urbano da Silva (1984), Almanaque dos Ventos (1991), Baladas do Polidor de Estrelas (1991), Dois Poemas Dramáticos para Vozes e Violinos (Thesaurus, 2001). Então, quais as principais diferenças do olhar poético, no que concerne à evolução da linguagem?

 

ROSSINI CORRÊA – Amigo Mhario Lincoln, antes de mais nada, permite que eu comece esta nossa interlocução agradecendo a distinção do convite. Acompanho com grande apreço o trabalho que tu desenvolves em favor das Letras e das Artes. Quanto a mim, no tocante, em particular, à poesia, pude publicar, neste ano de 2021, o livro Poemário do Cristo Vencedor e outros Cânticos dos Cânticos, que foi antecedido por Romeu e Julieta no Brasil e por Sonetário do Quixote Vencedor, perfazendo um conjunto de dez obras poéticas. De mim para mim, o que vislumbro, em retrospectiva, quanto ao olhar poético, não se dissocia, sem nenhuma dúvida, da busca de um domínio artesanal do verbo, no intuito da construção de um canal mais fluido e comunicativo, com o qual possa eu traduzir, de tentativa em tentativa, uma percepção intima maturada pela dor e pela alegria, da vida do mundo envolvente. Neste sentido, tenho consciência cada vez maior de que um poeta nunca está pronto, que ele se edifica a cada dia, no confronto com o fado, para retirar da dor da vida as fagulhas do amor, as centelhas da esperança e as iluminações da beleza.

 

MHARIO LINCOLN (02) – Especificamente, gostaria de saber qual a opinião sobre dois poetas, dentre os maiores, do Maranhão, sendo um, maranhense de coração e poesia: José Chagas e Nauro Machado.

 

ROSSINI CORRÊA: Mhario, não tenho dúvida de que são duas figuras exemplares enquanto atitude diante do fazer literário. Ambos estão com presentes na história nacional de suas respectivas gerações, no tocante aos que construíram obras poéticas, como resultado de uma dedicação existencial à literatura. Para José Chagas e Nauro Machado, a palavra poética passou a ser a definição de si mesmos, posto que lapidaram o verbo, disciplinaram o canto e exprimiram, cada um à sua maneira, os universos de que decorreram. Encontro em José Chagas uma intertextualidade formal com a poética popular, o verbo de João Cabral de Melo Neto e o cancioneiro ibérico, em quaisquer de suas vertentes, a portuguesa e a espanhola, levando-o a embates temáticos com propósitos esgotantes, como se fosse inspirado em uma lavadeira que torce a roupa até quase secar, para colocá-la, em seguida, para quarar. Constato em Nauro Machado, ao contrário do que comumente acontece, a conquista crescente de uma depuração do verbo, cercando-o de leveza, quanto mais avançou no seu tempo biológico, para chegar ao fim do ciclo absolutamente vigoroso, ao realizar, em sua ontopoética, sondagens cada vez mais profundas sobre o ser, a angústia, o tudo e  o nada, o tempo, a vida e a morte. 

 

MHARIO LINCOLN (03) – Você é autor de 23 livros e conquistou 20 prêmios literários, além de possuir cerca de 50 obras inéditas. O Maranhão se orgulha disso. Mas qual é a relação atual entre o impacto de suas obras no Brasil e, em particular, em São Luís? Há quanto tempo você está fora da sua cidade natal?

 

ROSSINI CORRÊA: Estou fora do Maranhão desde 1975, a rigor, desde 1974, portanto, tendo 65 anos, passei mais tempo de minha vida fora, do que dentro do Maranhão. Entretanto, o que me define é o Maranhão. Sou muito grato a Vamireh Chacon, que me coloca como membro da Nova Escola do Recife, contudo, de mim para mim, sei que, no essencial, cheguei com a terra preparada no Recife, o que se deveu a São Luís do Maranhão, à família em que nasci, que valorizava o livro, o saber e a cultura e aos estímulos recebidos dos que cedo me despertaram, entre os quais, Bandeira Tribuzi e Nascimento Morais Filho, este, meu professor na primeira série do ginásio, no Zoé Cerveira. Um dia, encontrando-me na Praça João Lisboa, José Morais disse-me: “Meu filho, vai embora do Maranhão, porque fora daqui, teu trabalho vai ganhar uma amplitude muito maior, o que será uma forma de servir ao Maranhão”. Por onde passei procurei não deslustrar a terra e suas tradições culturais. Talvez possa dizer: “vim, vi e ainda vou vencer”. Penso sempre que o melhor ainda está por vir. 

 

MHARIO LINCOLN (04) – Gosto sempre de perguntar sobre a relação simbiótica entre Amor e Ódio. Em algum momento, ao compor suas obras, parou para debulhar tais conceitos e sentimentos?

 

ROSSINI CORRÊA: Sim, a vida é polaridade. Desde o antigo conhecimento taoísta que o Yin e o Yang exprimem o esquerdo e o direito, a escuridão, a letargia e a indiferença, a claridade, o calor e a proatividade, sob o ensinamento dos tempos axiais, de que se intercalam, dessa dialogia nascendo o equilíbrio complexo, posto que há qualquer coisa de Yang dentro do Yin e qualquer coisa de Yin dentro do Yang. Como a literatura é uma forma superior de sondagem e de tradução do humano, todos nós estamos desafiados a traduzir a condição humana, cuja alma, como dizia Manoel Caetano Bandeira de Mello, “nunca é simples”. Lidamos com o humano, cujo ser está potencializado para todas as grandezas, mas pode tropeçar em todas as misérias. Este é o horizonte da luta por um mundo melhor: realizar semeadura e a construção dos caminhos iluminados para as grandezas. 

 

MHARIO LINCOLN (05) – “Mudar o mundo, meu amigo Sancho, não é loucura, não é utopia, é justiça!” Essa foi uma citação que você fez durante uma palestra no congresso sobre o Quinto Constitucional, há alguns anos. E atualmente, como você poderia interpretar essa frase?

 

ROSSINI CORRÊA: Aspiração por Justiça, não tenho dúvida, é a mais pulsante presença no coração do mundo, constituindo um lugar central no inconsciente coletivo da humanidade, que encontrou em seu caminho, entretanto, mais distopia do que o oásis da libertação no Vale de Josafá. Contudo, a recorrência a Dom Quixote compreende-o como unidade dotada do peso de Sancho e da leveza do Cavaleiro Andante, tornando possível, pela loucura e pela sensatez, pela utopia e pela topia, cada uma temperando a outra, magnificar a vida como utopia possível, que se deve perseguir de maneira diuturna, para ampliar a presença do sentimento de Justiça na vida do mundo. Gosto demasiadamente de um texto de Eduardo Galeano em que o homem se encontra próximo da utopia e vai abraçá-la, enquanto ela, fugidia, se desloca sempre e se coloca passos e metros à frente. Resumo da ópera: a utopia serve para isto – para caminhar. Caminhemos sempre em busca da Justiça. 

 

MHARIO LINCOLN (06) – O “poema Sujo”, de Gullar, é aplaudido por uns e rejeitado por outros em razão de vários termos fortes usados na construção dele. Gostaria de saber sua opinião pessoal diante de duas linhagens interpretativas que li recentemente sobre o poema:

1 – “Ferreira Gullar, com todo esse cabedal de conhecimento, poderia tranquilamente ter mudado os termos (ou adaptado os termos) de seus versos, pois não acredito que termos como – ‘(…) azul/era o gato/azul/ era o galo/ azul/ o cavalo/ azul/ teu cu (…)”. Ou, ainda, ‘(…) no centro de tuas coxas/ no fundo de tua noite ávida/ cheiros de umbigo e de vagina/ graves cheiros indecifráveis/ como símbolos/ do corpo do teu corpo do meu corpo (….)’. Na minha modesta opinião, são termos de uma poesia lamentável”. (Jerônimo Russo/ “Dia Poético”/ Minas).

 

ROSSINI CORRÊA: Discordo absolutamente. Respeito a posição de Jerônimo Russo, mas dela vou dissentir, identificando em seu discurso tanto conservadorismo quanto moralismo vocabular. Ferreira Gullar, que introduziu na poesia a palavra diarreia, trabalhou o desafio de exprimir a impureza do real no plano vocabular, e, sem autocensura, com se saísse da caverna de Platão, trouxe todos os elementos nela contidos, para, com potência verbal, transformar a escuridão em claridade, compreendendo-as como entremeadas na vida do mundo. De onde a aproximação entre teu cu e azul e também odores indecifráveis saídos de corpos, nos embates do prazer. Todas coisas humanas, nas suas impurezas, com capacidade, entretanto, de azul e de prazer. Ninguém constrói uma sondagem do humano desta magnitude, sem profunda razão sensível. 

 

2 – Já em outra leitura, essa datada de 2015 e assinada por Diogo Andrade de Macedo, então estudante do Curso de Letras/Português da Universidade Federal do Piauí (UFPI), se lê: “(…) no Poema Sujo ele (Gullar) se esmera na coragem despudorada de revelar explicitamente a sordidez e a impureza do cotidiano humano em passagens insólitas, não raro pungentes, embora amparadas por uma consciência poética que torna esses rompantes expressivos alheios a um simples e pueril desejo de subverter ou chocar. Em alguns momentos, o poeta declara abertamente, (tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre [as folhas de banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta [como uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) (…)’, acentuando uma fixação pelo corpo que se torna o instrumento essencial na interpretação do mundo. (…)”. Pois bem, caro Rossini. Qual o significado de “Poema Sujo” para você?

 

ROSSINI CORRÊA: O Poema Sujo significa o embate do ser com a vida do mundo. Partindo do concreto, do ser existente, privilegia, a princípio, o corpo, como manifestação real e transitória, do ser e do estar no mundo. O desafio gullariano diante de si mesmo e do mundo foi traduzir-se traduzindo a vida e o mundo, enfrentando uma autêntica luta corporal da qual pudesse recolher, como se fosse um Monge Budista uma luz, só que do chão. Aproximo profundamente Ferreira Gullar de Osho, a defender a suprema síntese de Zorba, o Buda, conjugando alegria, paixão e desejo, para reinventar a leveza, a serenidade e a iluminação búdica.

    

MHARIO LINCOLN (07) – Conta-se que após terminar de esculpir a estátua de Moisés, Michelangelo passou por um momento de alucinação diante da beleza da escultura. Bateu com um martelo na estátua e começou a gritar: Per ché non parli? E você, qual obra, dentre as centenas de produções líricas, lhe fez bater no coração e gritar: Che bella poesia?

 

ROSSINI CORRÊA: Eu estou impregnado de poesia. Fiz voto de leitura, segundo o qual não deitaria jamais para dormir, sem antes ter realizado conexão com a beleza de um poema. Se eu conhecesse menos a poesia, talvez a resposta fosse mais fácil. Tenho medo de trair Goethe, ser ingrato com Lorca, olvidar Rilke, tangenciar Dante, desconsiderar Homero etc etc etc. Esta é a mais difícil das perguntas. Vou ficar com o Cântico dos Cânticos, na Bíblia do cristianismo e com a pura beleza do Bhagavad Gita, do Mahabharata, do hinduísmo. 

  

MHARIO LINCOLN (08) – Outro dia, lendo Friedrich Nietzsche, anotei um argumentando dele quando confessava haver, em seus escritos, a construção de uma filosofia nada convencional, sobremaneira por causa da relação íntima com a arte poética. Destarte, de que maneira a filosofia e a poesia se interligam, diante desse pressuposto de Niet?

 

ROSSINI CORRÊA: A filosofia e a poesia são duas formas de sondagem do humano em águas profundas. Aquele Platão que o jovem Karl Marx, que também sonhou ser poeta, bem como o maior filósofo do Direito de todos os tempos, chamava de o divino Platão, antes de encontrar Sócrates, o que desejava era ser poeta. Quando encontrou o Mestre, logo decidiu, por equívoco, ser apenas filósofo. Nisto residiu o engano platônico: a sua filosofia está grávida de mitos poéticos. Nos tempos modernos, para não ser cansativo, Martin Heidegger não apenas interpretou a poesia de Friedrich Holderlin, como ensaiou poemas autorais, de que há tradução no Brasil, feita por sua discípula Maria do Carmo Tavares de Miranda, publicada pela Universidade Federal de Pernambuco. Em resumo: tem razão Friedrich Nietzsche. Não há grande filosofia sem profunda carga poética. 

 

MHARIO LINCOLN (09) – Como você é, também, professor, gostaria de saber sua opinião sobre o seguinte: há muitos anos, o arcabouço teórico do ensino da educação individual tem se formado na sistemática do Estado, como único conhecedor das necessidades empíricas do aluno, enquanto cidadão. Em muitos dos casos, as condições necessárias à globalização do ensino real, nunca deveria se abster de temas que envolvem o social, o cultural, o político, o econômico e as noções pertinentes ao ecossistema, temas que poderiam trazer para o ensino didático fundamental base ampla para formação humana. Concorda?

 

ROSSINI CORRÊA: Concordo completamente. O Estado-Pedagogo fracassou como Demiurgo da educação do humano, confundindo-a com técnicas instrumentais, adestramentos mecânicos e especializações de superfície. Aquilo que os gregos chamavam de Paideia, se encontra absolutamente fora da agenda do Estado-Pedagogo. A luta democrática e civilizatória passa, necessariamente, pela emancipação distributiva das rendas da Educação e da Cultura, mas segundo uma agenda transmutada, que contenha todos os elementos desta extraordinária pergunta: o social, o cultural, o político, o econômico e as noções pertinentes ao ecossistema. 

 

MHARIO LINCOLN (10) – O que falta, de certo modo mais efetivo, para a poesia maranhense dos novos tempos (de 2010 pra cá) explodir nacionalmente? São raríssimos os novos nomes que despontam no cenário atual. Tem alguma razão para esta explícita fragilidade?

 

ROSSINI CORRÊA: Poeta, desde a tua adolescência, na nossa São Luís do Maranhão, tu és um homem de comunicação. Nestes tempos modernos e pós-modernos de indústria cultural, a emergência espontânea de um artista, a colocação de sua obra em circulação e o despertar do sistema crítico de legitimação sobre si, são coisas cada vez mais difíceis, quando não improváveis. Por exceção, é possível um ou outro vazamento, como resultado de muita navegação contra o vento e a maresia. Como regra, acontecer demanda dispor de agente cultural, acesso à grande mídia e poder encantatório sobre os sistemas críticos de seleção e de legitimação, o que perpassa desde os selos editoriais até os estudos universitários. Não duvido em nada da existência de talentos autênticos na literatura maranhense, de 2010 a 2021, mas constato a absoluta ausência de políticas públicas permanentes, conferindo sustentabilidade à projeção das letras e das artes maranhenses no Brasil e no mundo, coisas que, por exemplo, o Ceará e a Bahia souberam fazer com os seus artistas no mundo da música, colhendo frutos que ficarão para sempre na cultura brasileira.  

(continua na próxima edição) 

Fotografia de Rossini Corrêa

Rossini Corrêa: Advogado, Escritor e Filósofo do Direito, com mais de40 livros publicados, entreos quais se destacam: Saber Direito-Tratado de Filosofia Jurídica; Jusfilosofia de Deus; Crítica da Razão Legal; Bacharel, Bacharéis: Graça Aranha, discípulo de Tobias e companheiro de Nabuco; Teoria da Justiça no Antigo Testamento; José Américo, o Jurista; Política Externa Independente: contribuição crítica à história da diplomacia nacional; O Liberalismo no Brasil: José Américo em perspectiva; Brasil Essencial: para conhecer o país em cinco minutos; O Bloco Bolivariano e a Globalização da Solidariedade: bases para um contrato social universalista; e Romeu e Julieta no Brasil. É membro titular do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal – IHGDF. Pertence à Academia Brasiliense de Letras – ABrL e à Academia Maranhense de Letras – AML. É Patrono da Cátedra Gonçalves Dias, da SVT Faculdade de Ensino Superior e foi Coordenador da Cátedra Daisaku Ikeda, do Centro Universitário de Goiás-Uni-Anhanguera.

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