Cultura

Três poemas | Ngonguita Diogo

Foto de Andre Blanco na Unsplash

ENTRE O VENTO E A MULEMBA

 

A primavera chegou

sem aviso,

como chegam certas coisas

que não pedem permissão.

Entre o vento e a mulemba

havia uma nota solta,

sem pauta,

sem dono.

Por isso mesmo

inteira.

Alguém a escutou

antes de existir som

e deu-lhe forma de flor.

A flor não perguntou

de onde vinha.

Abriu-se.

E bastou.

Há um saber assim,

anterior às palavras,

anterior ao gesto

de guardar o mundo em páginas.

Fica à beira disso.

O que em ti transborda

ainda não tem nome,

ainda não foi ouvido.

 

***

PRIMAVERA EM MELODIA 

Hoje reparei nas flores do quintal, não todas, só aquelas junto à mulemba 

encostadas umas às outras,

como quem partilha um segredo baixo.

Havia um som ali, quase imperceptível,

não vinha de instrumento nenhum;

era mais como o vento a passar devagar,

entre as folhas ainda húmidas da manhã.

Fiquei a escutar.

E, sem saber bem como,

senti qualquer coisa em mim a abrir,

como terra depois da primeira chuva.

Não pensei em palavras bonitas,

nem em explicações.

Só deixei que aquilo existisse;

cru, simples, sem esforço;

como se a música soubesse mais do que eu.

 

Talvez seja isso a primavera:

um ensaio silencioso da vida,

onde nada precisa estar certo

para fazer sentido.

E naquele instante curto,

quase perdido,

tive a impressão;  leve, mas teimosa;

de que até Deus escutava em silêncio.

 

***

 

EM MEMÓRIA DAQUELA MEMÓRIA 

 

Mais um dia se dissolve

No ventre indiferente do universo e nada nele testemunha a minha passagem.

Penso, e no entanto, pensar é afundar.

Meus pensamentos não me elevam:

São raízes cegas,

Escavando o escuro de mim.

Que é a memória,

Senão um eco que se recusa ao silêncio?

Uma permanência artificial

Daquilo que o tempo já condenou?

Choro ou julgo chorar,

Mas até as lágrimas duvidam de si.

Talvez o sentir seja apenas

Um hábito da carne,

Uma ilusão repetida até parecer verdade.

Caminho no crepúsculo,

Essa fronteira onde o ser hesita.

Nem dia, nem noite,

Assim é a consciência:

Um intervalo indeciso entre existir e desaparecer.

O tempo não passa.

O tempo consome.

Não avança

Recolhe-nos, lentamente,

Como quem desfaz uma obra mal acabada.

E dentro de mim,

Há uma outra,

Uma estranha que pensa antes de mim,

Que sente antes de mim,

Que me habita como um erro inevitável.

Quem é o inimigo?

A dor que sinto,

Ou o eu que insiste em senti-la?

Vejo ainda o mel,

Símbolo antigo do consolo,

Mas toda doçura carrega em si

O germe da decomposição.

Nada que acalente escapa à ruína.

Ergui altares no pensamento,

Acreditei na permanência,

Na solidez das ideias,

Na fidelidade da memória.

Mas tudo cede.

Tudo trai.

A memória não guarda,

Recria.

E ao recriar, distorce.

E ao distorcer, fere.

Assim, sofro não pelo que foi, mas pelo que a memória insiste em refazer

À sua imagem imperfeita.

E chamam isso de sensibilidade.

Mas não será apenas lucidez em excesso?

Há em mim uma queda contínua,

Não no espaço,

Mas no sentido.

E tu,

Figura talvez nunca inteira,

Talvez nunca real,

És ausência ou invenção?

Se és lembrança, és falha.

Se és falha, és minha.

Vai, memória,

Não como fuga,

Mas como necessidade.

Pois libertar-me de ti

Talvez não seja esquecer,

Mas compreender

Que nunca houve permanência,

Apenas a ilusão de ter havido.

E no fim,

Resta apenas isto:

Um ser que pensa,

Um pensamento que dói,

E a dúvida eterna,

Se algum deles realmente existe.

 

Ngonguita Diogo

Fotografia de Ngonguita Diogo

Etelvina da Conceição Alfredo Diogo, conhecida no meio literário por Ngonguita Diogo é escritora angolana e circula entre a poesia e a prosa.

É membro da União dos Escritores Angolanos e da Academia de Letras do Brasil.

É Comentadora da Ordem dos  Benfeitores Culturais da Humanidade  pela Federação Brasileira dos Académicos das Ciências, Letras e Artes,  É Embaixadora de África pela Academia Internacional dos Artistas e Poetas – AIAP, Membro correspondente da Academia de Letras e Artes da Praia Grande e Membro da Liga Africana e do Movimento Lev’arte Angola.

É Directora da Academia de Letras do Brasil para Questões Humanitárias  no Continente Africano.

 

Tem sete livros publicados, participa em várias antologias nacionais e internacionais e tem um CD com poemas musicalizados.

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