Política

Reflectir os 50 anos de independência: talvez, aos 50 anos de idade, ainda seja cedo para viver em casa dos pais | Marlon Langa

Schalk van Zuydam

Como é bonita a palavra independência. Uma palavra que, em alguns países africanos, incluindo Moçambique, ganha destaque de ano para ano. Num sentido lato, a independência pressupõe estar livre, não estar à mercê de algo, ou ainda fazer o que se quer, quando e como se quer. Em suma, independência é liberdade — liberdade daquilo que mina as nossas acções.

 

Os africanos, em geral, possuem apenas a liberdade enquanto emancipação do agente que condicionava as liberdades políticas e territoriais. Fora isso, é uma quimera.

 

Há dias, o país completava 50 anos de independência! Cinquenta anos depois, a questão que se impõe é: o que fizemos com o nosso país depois da descolonização?

 

Quais são os avanços — as “novas independências” — nos campos da economia, da educação e da agricultura? Outra questão legítima: cinquenta anos seriam suficientes para que um país estivesse, pelo menos, mais estável? Aliás, talvez não se deva contar 50 anos, mas sim 50 menos 16, ou seja, 34, considerando que onde há guerras o desenvolvimento fica condicionado. Precisaremos, quem sabe, de 500 anos, à semelhança dos colonizadores, para alcançarmos um mínimo de desenvolvimento?

 

Decerto, o país é pequeno, mas já deveríamos ter avançado em questões básicas. As estatísticas demográficas indicam que, após a independência, a população era de cerca de 17 milhões. Desde então, o único avanço visível tem sido o populacional… é nisso que nos tornámos “especialistas”.

 

Os actores políticos que viram o país nascer deviam ter saído da política e continuado a jogar exclusivamente no campo dos negócios, no mercado. Mas não: quiseram monopolizar empresas, taxá-las exageradamente, ser accionistas, controlar tudo e oligarquizar a economia, mesmo sem produzirem e sem disporem das ferramentas tecnológicas necessárias.

 

Que o digam os madgermanes, que regressaram ao país com o peito erguido e as mangas dobradas, prontos para desenvolver Moçambique — e acabaram decepcionados. Este é, talvez, o pecado original: hoje vemos jovens patriotas que preferem permanecer na diáspora, por medo de ter o mesmo destino dos madgermanes.

 

Moçambique é um país com vários intelectuais. Alguns, infelizmente, são lambe-botas, outros nem tanto. Um exemplo honroso é Severino Ngoenha, que, no seu livro Das Independências às liberdades, apresenta a ideia de uma independência tríplice: económica, política e educacional. Um livro escrito há muito tempo, mas pouco ou nada assimilado pelos políticos.

 

A educação é tão crítica que leva a questionar se a educação colonial — ou mesmo a pós-colonial — não teria sido melhor, pois, pelo menos, definia um rumo claro para o indivíduo. Quanto à política, é lamentável: uma política de negociatas, onde, em vez de criar projectos que beneficiem os jovens, preferem assinar contratos mais duradouros do que a própria idade do país.

 

Liberdades económicas? No tabuleiro da economia mundial, não passamos de peões, dados para serem usados pela chamada Mão Invisível. A nossa jogada na jangada é fornecer a terra. Só servimos para prestar cortesia aos reis e rainhas do capital global. Custa-nos gerir a nossa economia de ndumba-nengue, periférica.

 

Como evoluir sem um plano soberano? Se cada presidente aparece com o seu plano pessoal, guardado na algibeira há anos? Moçambique assemelha-se mais a uma empresa, onde cada funcionário faz o que quer — uma grande Clean Afrika, com as máquinas sempre prontas para lavar a roupa suja dos que passam por ali. Recentemente, até o fundo soberano sofreu desvios de milhões. Um projecto que, mal nasceu, já foi defraudado.

 

Moçambique — antiga província ultramarina portuguesa, país gerido à distância por séculos — poderia ser tema de uma dissertação: “De colónia longínqua a nação sem rumo?”

 

Concordo com Booker T. Washington quando afirma que a liberdade económica é um dos fundamentos mais importantes. Precisamos buscar essa liberdade. Não basta ter independência territorial e ter-se livrado do colono. É preciso ter poder económico, ter dinheiro, para se impor frente àqueles que um dia nos oprimiram.

 

E quanto às liberdades no campo da educação? Ficámos pelo caminho ou ainda estamos a caminho? Que o diga W.E.B. Du Bois, que discordava de Washington ao afirmar que o essencial seria formar o indivíduo — investir no factor humano através da educação. Esta seria a esperança do homem do futuro. Mas… como chegar lá sem os meios, sem as “notas”? Não sei.

 

Escapámos como o Haiti? Um país que conquistou a independência da França, mas que teve de pagar por ela. Literalmente. Além da França, foi traído por vários outros países. Lutou pela liberdade muito antes de outras nações africanas sequer sonharem com a sua.

 

Talvez precisemos de uma nova fórmula para erguer um país — não a mesma dos anciãos madgermanes, mas quem sabe dos constitucionalistas, dos pan-africanistas, dos juízes, dos filósofos que saibam ser chauvinistas no bom sentido: ao fundar uma nação com amor-próprio e visão.

 

Enfim, talvez digam que é erróneo comparar Moçambique com países do Ocidente, como a Alemanha, a Espanha, a França ou Portugal — que só se tornaram Estados estáveis após séculos de experiência. Mas, no nosso contexto, é mais sensato compararmo-nos com países com trajectórias semelhantes:

 

Namíbia, independente em 1990 — considerada uma das melhores democracias de África, com liberdade de imprensa e boa governação, apostando no turismo; Botsuana, independente em 1966 — exemplo de democracia e boa gestão dos recursos naturais, com economia sólida baseada nos diamantes e no turismo.

 

Marlon Langa

fotografia de Marlon Langa.

Marlon Langa é um pensador inquieto, criador de ideias e construtor de projectos que cruzam fronteiras entre o conhecimento, a cultura e a prática profissional. Natural de Moçambique, formou-se em Filosofia pela Universidade Eduardo Mondlane, cultivando desde cedo o gosto pela reflexão crítica, pela busca de sentido e pelo diálogo profundo sobre questões humanas, sociais e políticas. Encontra nas palavras um refúgio e um espelho: escrever é para ele tanto uma fuga ao peso da existência quanto uma forma de mergulhar na sua maravilha.

A sua sensibilidade foi moldada pela convivência íntima com poetas como Fernando Pessoa, Rui de Noronha e Camões; pela narrativa de mestres como Saramago, Fernando Sabino, Jorge Amado, José Luís Peixoto e Vergílio Ferreira; e pelo pensamento profundo de Nietzsche, Schopenhauer, Sartre, Luís Pondé, Severino Ngoenha e Edgar Morin. Sob a máscara de pseudónimos como Íngrid Phra, Jordão António Lopes e Gistofen Mayer, explorou múltiplas vozes e olhares, libertando textos que desafiam fronteiras de género e estilo.

Inquieto, Langa transita entre o estudo e a criação, entre a reflexão filosófica e a observação atenta do mundo, mantendo sempre a convicção de que a palavra — lida, escrita ou dita — pode ser um ato de resistência, revelação e transformação.

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