Sociedade

Histórias do Brasil de 1550: Bispo Sardinha assado na brasa | José Manuel Simões

HISTÓRIAS DO BRASIL DE 1550: BISPO SARDINHA ASSADO NA BRASA

 

Recostado na sua poltrona de madeira maciça, forrada a veludo grená, Mem de Sá decidiu autorizar um combate de vingança contra os índios que tinham esquartejado e comido assado o bispo Sardinha. O objetivo seria apanhá-los para os forçarem a trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar, mas os soldados, na ânsia do desforço, dispararam sem descrição. Dos 12 mil catecúmenos das terras do extremo Norte da Paraíba sobraram pouco mais de mil.

 

O fidalgo, nascido em 1500, tinha sido nomeado Governador-Geral do Brasil para pacificar a colónia, meter água na fervura e acabar com os conflitos com os indígenas – que dificilmente se iriam deixar domesticar – mas a tarefa revelar-se-ia inglória.

 

Mem de Sá chegou ao Brasil em 1552 com uma lista de boas intenções, mas ao assarem e comerem o amigo, na praia, em frente aos navios de bandeira que ao largo avistaram a cena, os nativos tinham deitado por terra qualquer tentativa de relação amistosa.

 

De um lado e do outro sentia-se o apelo à revolta. Uns, porque eram invasores; outros, canibais. O gentio não estava aberto a relações e na segunda tentativa de contato mataram – dessa vez com flechas –, lançaram para a fogueira e comeram mais dois elementos de peso, o sobrinho e o filho, Fernão de Sá, do próprio Mem de Sá.

 

O Governador-Geral cofiava a longa barba branca, alternada e nervosamente alisava a boina castanha de onde pendia um peluche macio, fletia vincadamente o olhar esguio, rangia os dentes, franzia a tez, revelava-se indignado com os sucessivos fracassos das suas expedições e ainda mais por lhe terem comido o filho, fruto de seu amor incondicional.

 

Tentadas várias incursões pelas terras dos índios, a maioria resultando em derrota para as suas tropas, disso deu conta ao reino, em carta onde rogava que fossem tomadas medidas capazes de por cobro a tal horrenda forma de matança.

 

D. João III, O Piedoso, que tinha herdado um império colossal de D. Manuel I e se preparava para legar um país em ruínas ao seu neto, Sebastião – detentor do trono aos 3 anos – foi informado dos atos de canibalismo dos indígenas e perdeu a cabeça. Mandou preparar a maior armada que alguma vez tinha saído de Lisboa para mostrar ao infiel que com os portugueses não se brinca. Fervoroso homem de fé – o que lhe viria a configurar um outro cognome, O Pio – e amigo do prelado Fernandes Sardinha, decidiu tomar medidas sérias e urgentes pois fora informado que, para além de ter que enfrentar os índios, havia uma crescente pirataria a que igualmente seria obrigado a fazer frente.

 

Qual golpe de génio, decidiu terminar com a defesa das fortalezas em Marrocos e iniciar com efeitos imediatos a colonização do Brasil. Ordenou que se dividissem as terras em capitanias familiares e hereditárias e, mesmo que inquisidor, fez vista grossa à fuga dos judeus e suas riquezas para além-mar.

 

Enquanto contornava em desalinho o rosto bolachudo, decidiu mandar aparelhar oito caravelas, dando início à operação “Armada do Brasil”. Velames desfraldados, ares amiguentos e ventos a favor faziam prever bons desfechos. Simbolicamente, na embarcação principal, a que guiou a rota durante 56 dias, ia uma obra de arte, pomba branca com três folhas de oliva no bico e uma frase em latim gravada em campo verdejante: Sic illa ad arcam reversa est, “Assim ela (a pomba) retornou à arca”, numa clara alusão a Noé que soltou uma pomba para encontrar terra firme e ela voltou com um ramo de oliveira no bico, prova de que aquela terra era fértil.

 

Os índios, nada dados a tremores ou pânicos, observaram com um misto de fascínio e desconfiança a armada portuguesa a aproximar-se do seu território e desceram à praia. Um dos marinheiros saiu da embarcação com o objetivo de contatar com os nativos, uma mulher dele se acercou e, com uma borduna – espécie de espeto de madeira com ponta afiada usada para caçar animais selvagens – atacou-o pelas costas e carregou-o para o morro.

 

A tripulação procurou agir, mas à tentativa de saírem da caravela, os índios atiraram certeiras flechas. Percebendo a reação dos gentios, os marítimos, surpreendidos, não tendo como ripostar, voltaram para o porão. Na praia, os tribais juntaram uma pirâmide de lenha e atearam com palha de coqueiro a mais alta fogueira que alguma vez ali tinha sido vista. No cimo do morro, antes de comerem o pele branca capturado, encetaram, em circulo, um ritual antropofágico. Esquartejado e assado, ao provarem da carne desdenharam, fizeram cara feia e, pela primeira vez, o sabor fê-los desistir. Por genes e tradição comiam carne humana do inimigo ou tribos rivais para se fortalecerem. Pelo sabor esquisito, acre, apontaram que “a carne do pele branca era nojenta”.

 

Desceram à praia em fila organizada, compasso rítmico tribal, e lançaram o que sobrava do português na enorme fogueira, dançando e entoando rituais em tupi guarani para se conectarem com os deuses e procurarem assim desmotivar os intrusos de entrarem no seu território.

 

Em Lisboa, D. João III rezava compulsivamente, pesaroso que andava pelos acontecimentos no Brasil e pela morte do seu décimo e derradeiro filho. Sabia que tinha que reagir mas dava voltas à cabeça sem saber o que fazer, assolado pela dor e por não conseguir perceber o porquê de, sendo tão efusivamente religioso, Deus lhe ter levado o último membro da família que o poderia suceder no trono.

 

Foi então que tomou mais uma posição que se revelaria ineficaz. No litoral Nordeste do Brasil dividiu as propriedades em parcelas e doou-as – acreditando que essa seria a forma ideal de as cultivar e defender – mas os franceses viram nos 12 fidalgos destacados presa fácil para continuarem a derrubar a valiosa madeira pau-de-tinta.

 

Os pitiguares, os tabajaras, os caetés, os carijós e os tupiniquins não estavam receptivos à chegada dos pele-branca e muito menos a serem caçados para mão-de-obra. A bula papal Veritas ipsa foi emitida, os índios passaram a ser reconhecidos como “verdadeiros homens”, o lema “servidão forçada só em caso de guerra justa” foi lançado; por vezes eram capturados mas nem por isso submissos.

 

Fotografia de José Manuel Simões

 

José Manuel Simões é Professor Associado e Coordenador do Departamento de ‘Communication and Media’ da Universidade de São José, Macau-China. Tem um pós-doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, doutoramento em ‘Global Studies’ na Universidade de São José e Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Universidade de Coimbra. É especialista em assuntos do Brasil, país sobre o qual já publicou três livros, dezenas de artigos académicos e centenas de artigos jornalísticos. 



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