Cultura

Grandes cérebros ou cérebros grandes | Coca Trevisan

Estava subindo uma escada rolante num shopping quando vejo uma jovem mãe com dois filhos, um de 6 anos e outro com 10 anos de idade.

 

O menor quase chorando porque sua mãe disse que ele tinha um grande cérebro. Ele não gostou de imaginar um grande cérebro, talvez supondo que sua cabeça fosse gigantesca. 

 

O elogio virou drama.

 

Enquanto sua mãe ria o menino se assustava com sua “enorme” cabeça. 

 

O drama virou choro. 

 

Lembrei de uma passagem do livro de Samuel Beckett “Malone Morre”: “mas o que tinha de mais impressionante era a grande cabeça redonda de cabelos louros, duros e eriçados como os pêlos de uma escova”.

 

Era Malone aos 14 anos?

 

O mesmo que está moribundo, velhinho numa cama de hospital?

 

Esperando a morte chegar?

 

Hummm, agora sim seria interessante esperar Godot e não a morte.

Com um grande cérebro ou um cérebro grande, não importa mais, o ideal seria um cérebro saudável.

 

Não é o caso de Malone pois quando era criança com seu cabeção confundia os pássaros entre si, não reconhecia as árvores e não diferenciava nem cereais. 

 

Cérebros Grandes não garantem ser grandes cérebros, ou cérebros com alta sabedoria. Como os cérebros de gênios da música, da literatura, do futebol, das artes, da ciência, enfim, grandes cérebros com semiótica definida.

 

Quem sabe o menino venha a se orgulhar de seu cérebro grande num futuro promissor…

 

Engraçado ou coincidência tenho um neto com 6 anos e ensinei um refrão de uma música dos anos 60, acho que dos “Os Incríveis”…você viu o cabeção por aí, eu não, eu não, eu não vi não…mas o que é que a gente faz com ele? Dá um beijo nele”.

 

Meu neto adora e canta dando risadas.

 

E tem mais, pois certas ofensas podem ser elogios como Eça de Queiroz escreveu diante de uma disputa política entre dois amigos, ou inimigos, quando um tentou caluniar o adversário “com seus bigodes torcidos e cabelos anelados” ao seduzir uma jovem senhorita da sociedade conservadora do século XIX.

 

O ofendido adorou e se sentiu mais desejado.

 

Talvez imaginando ter ainda um grande cérebro.

 

Mas estamos no shopping.

 

O impasse está trancando a escada rolante e já somos mais quatro adultos consolando o menino.

 

Agora, são sete cabeças.

 

O menino não quer os elogios e somos seis cabeças tentando diminuir a “espessura” da suposta cabeça.

 

A escada quer subir e as cabeças seguem rolando teses reais e imaginárias…típicas de cérebros grandes ou…grandes cérebros…

 

Fotografia de Coca Trevisan

O jornalista Coca Trevisan nasceu em Santa Maria, RS. Atuou como repórter e redator nos jornais NH, de Novo Hamburgo; VS, de São Leopoldo e Jornal Alto da XV, de Curitiba. Como profissional freelancer assinou matérias em diversos periódicos. Participou de workshops e atuou em debates sobre a Indústria Cultural dos anos 1980/90. Mais recentemente, concluiu pela PUC-RJ o Curso de Extensão Origens do Existencialismo. Mantém e abastece o blog Violências Culturais. Atualmente mora em Florianópolis, SC.

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