
Um POEMA-LAHAR em desvairo com equívocos, lapsos, hibridações, cômpitos e línguas alheias a expurgarem-se pelas obscurezas epidérmicas: dizem: pele pustulosa: ouriço-cacho com milhares de picos eriçados pelos músculos a enrolarem-se, encouraçando-se: olhos despontam cheios de proptoses: um poema é enredado por uma pele acinzentada de cetáceo narval a projectar seus caninos e suas presas helicoidais contra uma visão-leitora: um poema é percorrido pelo couro grosso do rinoceronte com dobras e pregas lamacentas: um poema é beirado por uma pele de rato acomys a escorchar-se e descamar-se para fugir desabaladamente aos olhos invasores, envesgando-se: há no poema uma pele de polvo com visões carregadas de cromatóforos e opsinas a rebrilharem pelos trajectos escondidos, disfarçados, ocultos, encobertos e furtivos: um poema acontece emaranhado por uma pele hidrofóbica, áspera, abrolhosa, espinhenta, amarela e castanha-escura do lagarto-moloque com uma cabeça falsa e plectros microscópicos na boca, suas mandíbulas e línguas se tornam radiestesistas: microcanais a jorrar alucinadamente: há no poema peles de girafa com manchas fulvas, amarelas tostadas, róseas, camufladas e plenas de vasos sanguíneos engenhosos: há no poema pele de zebra com distorções visuais e movimentos enganadores a embaraçar parasitas: há no poema pele de sapos de Bornéu a respirar sem pulmões e sem guelras e com protuberâncias aguçadas acima dos olhos, apavorando: há ainda no poema uma pele de camaleão com forças pigmentares e cristais iridóforos que mudam de cor para se dissimular perante possíveis ataques: há por vezes, no poema uma pele de lesma-do-mar com rinóforos, tentáculos, acúleos e cheia de muco a arremessar tinta roxa e púrpura, confundindo predadores: aqui-agora: um poema se torna lâmina de células-vegetais embebida e estranhamente a clorofilar: outras vezes, um poema incorpora a pele dos roedores em piloereção, deixando manchas gordurosas e odores a amoníaco: há quem veja peles de equídna, de terenques, de lagartas e taturanas a atravessar um poema com cerdas pontiagudas e urticantes: eventualmente, peles de lagarto-tatu e peixe-ouriço esculpem um poema ao levantar espinhos contra uma mão-vitiligada, exigindo pinças e divulsionando o sangue das pálpebras de quem tenta descodificá-lo: escutar as microglias no maxilar de um shalaika.
In Obra Poética de Luís Serguilha
Luís Serguilha, poeta, ensaísta
Luís Serguilha nasceu em Portugal e nos últimos anos percorreu algumas geografias da América do Sul. É poeta, ensaísta e curador de arte ibero afro americana. Publicou 17 livros de poesia e ensaio: Kalahari, Plantar rosas na barbárie, Falar é morder uma epidemia, os esgrimistas de Á-peiron, Hamartía e ACTRIZ ACTRIZ – o Palco do Esquecimento e do Vazio são os títulos de alguns dos seus livros. Em 2022 publicou o 1 volume da sua obra poética no Brasil. Em 2024 e 2025, publicou os volumes 1 e 2 da obra poética em Portugal pelas Edições Húmus. Radicado no Recife, criou a estética batizada como Laharsismo, estudada em Universidades. Recebeu os prêmios Hermilo Borba Filho e Júlio Brandão ambos da área de Literatura. Tem sido convidado por institudos e várias universidades ibero-americanas para conversar e ministrar conferências sobre os seus ensaios-criativos, envolvidos por atractores estranhos, que atravessam corpo-arte-pensamento-poesia.










