Política

Editorial: A impudência que aí vem | Alfredo Soares-Ferreira

Foto de Maxim Hopman na Unsplash

[Editorial de Fevereiro 2025 – Revista InComunidade]

 

Da ausência de compostura que o novo ano nos traz, a força e o impacto da tecnologia como arma política será porventura um dos sinais mais preocupantes. Possivelmente a reversão do objectivo maior do avanço da ciência e da técnica, que é, sem sombra de dúvida, servir e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Se juntarmos o domínio da tecnologia ao poder das grandes fortunas, para dominar e subjugar o mundo, temos o melhor retrato do país que dá pelo nome de Estados Unidos da América. Será, neste raiar de um novo ano, um sinal arrepiante do império, com alguns mentecaptos intervencionados, comandados por indivíduo talhado como providencial e que representa o que de mais baixo e torpe existe do outro lado do Atlântico. E que sucede ao grande “democrata” apoiante do genocídio de Gaza e ao incentivo à guerra por procuração na Ucrânia. Na verdade, é difícil imaginar um cenário como este, mas que existe na realidade e que a decrépita “união” que se diz “europeia” segue de forma acrítica e canina.

 

O filósofo e ambientalista australiano Glenn Albrecht introduziu o termo “solastalgia” para abarcar o que se poderá designar como um sentimento de perda irreparável pela degradação ambiental e pela transformação negativa dos ambientes. A palavra de origem latina e grega, respectivamente “solari”, ou conforto e “algia” ou dor, pode ser interpretada livremente como um estado de alma doloroso e deprimente. Se pudéssemos envolver neste conceito, o sentimento de perda que os cidadãos de todo o mundo sentem em relação à degradação progressiva das suas condições de trabalho e de vida, teríamos um outro retrato a juntar ao primeiro. Atentemos no relatório de 20 de Janeiro deste ano da organização não-governamental britânica OXFAM. Nele se dá conta do aumento do ritmo de enriquecimento dos super-ricos em três vezes relativamente a 2023, bem como do “aparecimento” de novos 204 multimilionários a nível global. Uma casta de pouco mais de 2.900 pessoas terão enriquecido, em média, cerca de 2 milhões de dólares, por dia. Assim como os dez mais ricos que enriqueceram em média 100 milhões de dólares por dia. A OXFAM havia previsto, em 2024, um trilionário numa década. Todavia, a verificar-se a tendência actual, esse número passaria para cinco trilionários. O contraponto destes números é assegurado pelo Banco Mundial, apontando para uma estagnação do número de pessoas que vivem na pobreza desde 1990, bem como referindo que os 44% mais pobres do mundo vivem com menos de 6,85 dólares por dia. 

 

O início deste ano é marcado, como habitualmente, por mais um fórum da burguesia capitalista, nas luxuosas instalações de um qualquer hotel de Davos, na Suíça. Os mandadores do mundo estão hoje “preocupados” como o que designam, entre outros temas, a “incerteza geoeconómica”, a “inteligência artificial”, a “reinvenção do crescimento” e a “protecção do planeta”. Não deixa de ser irónico o olhar que os exploradores têm sobre as coisas, eivado de suspeição e hipocrisia. Por exemplo, proteger o planeta para eles significa proteger as grandes fortunas, os bancos e as corporações, funcionando tão bem essa protecção como os números exibidos atrás comprovam. O termo “inovação” tem, para eles, um significado espúrio, já que incorpora em si uma sobre-exploração da força de trabalho, através da utilização da mão-de-obra migrante e do aumento da idade da reforma, ao mesmo tempo que aumenta a quantidade de capital (fábricas, maquinaria e outros) em proporção a esta força de trabalho expandida.

 

Neste início de ano, ficamos a conhecer as piores versões dos burocratas, submissos e telecomandados, que dominam e poluem o espaço mediático e que desgraçadamente detêm um poder que lhes foi outorgado por alguém que não nós. A aparente dessintonia entre os “responsáveis” da NATO, dos EUA e da Dinamarca, a propósito da Gronelândia mostra apenas a indelével força do ridículo a que chegou a “diplomacia internacional“. Bem mais assertivas são as declarações de Larry Johnson, um funcionário aposentado da CIA e do Departamento de Estado dos EUA, ao canal Dialogue Works do YouTube, “Já se passaram 80 anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial e os EUA ainda mantêm uma presença militar na Alemanha. […] Em algum momento, a Alemanha dirá: “Obrigado pela sua ajuda… Estados Unidos, mas agora saiam. Este país é nosso, não seu. Vocês estão aqui como convidados“.

 

Assim vai um mundo cheio de despudor. Entretanto, parece que nos contentamos em chamar os piores nomes a alguns dos “intérpretes” da geopolítica nacional e internacional. Não é decerto por aí que passa a resistência e a luta pela transformação radical da sociedade. Impõe-se uma linguagem forte e serena, como a do Poeta. Dele, que partiu a um dezoito de Janeiro, José Carlos Ary dos Santos, um manifesto de inconformismo e rebeldia, “Levanta-te meu Povo. Não é tarde/Agora é que o mar canta é que o sol arde/pois quando o povo acorda é sempre cedo.”

 

                                                               20 Janeiro 2025

                                                                       Alfredo Soares-Ferreira

 

Fotografia de Alfredo Soares-Ferreira

Alfredo Soares-Ferreira é Autor de várias intervenções, comunicações e publicações relacionadas com Cooperação e Educação para o Desenvolvimento, em Portugal, Angola, Cabo-Verde, Espanha, Guiné-Bissau, Itália, Moçambique e Timor-Leste. É Consultor de Projectos Educativos e de Inclusão Social de algumas instituições, nacionais e internacionais. É membro dos Colectivos  “Porto Com Norte, Fórum de Cidadania”, “Fórum Manifesto”, “Liberdade e Pensamento Crítico” e “Tanto Mar”. É co-Autor de “Portugal, Revolução, Unidade Socialista” (1977), “Bracarenses na crise académica de 1969” (2019) e “Paranhos em Poesia, Antologia Poética” (2021). É Autor de “Reflexos do Rio Torto” (2014) e “Rio Torto- A Nascente” (2021). É Licenciado em Engenharia de Telecomunicações, pós-graduado em Gestão e Estratégia Empresarial e em Administração Educacional. Actualmente aposentado de funções públicas, foi Engenheiro e Professor em diversos graus de ensino, secundário, profissional e superior.

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