Cultura

Até os confins da terra | Sandra Godinho

Foto de Tim Foster na Unsplash

Nunca foi uma questão de como se chegava à terra, mas de como se partia dela.

 

Éramos nós que fazíamos o trabalho do qual muitos nutriam asco. Não era sujo, como alegavam, mas imprescindível. Aguardávamos a total imobilidade dos movimentos, os últimos estertores, a cessação do sangue e de todo o complexo de imunidade que carregavam em vida para os micróbios poderem atuar, os primeiros a surgir com prerrogativas autônomas.

 

As bactérias das vísceras entravam logo em ação, formando gases, fazendo as entranhas incharem para decompor o que até então tinha sido vida, um passo por vez. A cada etapa, o odor nauseabundo, exageradamente adocicado, liberado pelo morto, encurtava os limites entre os seres, entre o que é e o que já não é mais, atraindo as moscas varejeiras, as próximas a chegar para o banquete indigesto, fazendo brotar delicadezas que poucos viam, devolvendo o finado ao corpo sólido que sempre o sustentou, a terra.

 

Assim a sombra da saudade descia, fazendo perder os traços de rispidez de alguém que, em vida, era só rezingues, destratos e descasos. Desse modo, carne e pó se misturavam e o tempo entrava em outro tempo, quando o solo podia conversar em intimidades com aquele que lhe pisou por anos. Perdia-se, do corpo, as palavras frias, a expressão de severidade, as rusgas e as reminiscências ressentidas. Podia mesmo afirmar que era, com nosso auxílio, que um morto ganhava ares de santidade, procedendo à passagem despudorada de um mundo ao outro.

 

As bactérias sempre foram agentes atuantes, nunca recusavam trabalho ou esforço. Dos intestinos, passavam aos tecidos circundantes, fígado e baço, não tanto pelas enzimas abundantes nestes órgãos, mas porque era preciso devorar de dentro para fora, do âmago para a superfície, das vísceras até a pele para um trabalho bem feito. A pele sempre foi casca, um invólucro banal, já os órgãos eram o cerne, sintetizadores da miséria humana, o amargor de uma existência.

 

Coração e cérebro forneciam maior quantidade de água para os ovos recém-postos das moscas varejeiras que, em breve, eclodiam em larvas para, em seguida, digerirem pele e veias em ritmo cadenciado, liquefazendo os tecidos que acabavam escapando pelos orifícios do corpo. O finado ia ganhando um tom multicor, a palidez extrema passando ao esverdeado e, em seguida, ao acinzentado, um arco-íris de cores pré-determinadas. Um corpo morto era pleno de vida, inchando, inchando sempre, ganhando volume, com as larvas virando novas moscas, as novas moscas originando novas larvas que atraíam besouros, ácaros, formigas, vespas, aranhas, pássaros e urubus; um trabalho coletivo onde cada espécie visitava e despia o corpo um pouco mais, em verdadeiro processo de purga e despedida até chegar a vez dos animais mais complexos. Não havia hierarquia a ser respeitada. Era o caos. Mas é sempre o caos em terra devassada, não é verdade? Todos querem o melhor naco de carne, o maior pedaço, e ninguém se entende.

 

***

 

−  Não vai botar fogo no corpo?

 

− Pra quê? 

 

− É um Yanomami, você sabe que eles costumam incinerar o corpo para passar para o mundo dos mortos.

 

− Tá me achando com cara de despachante, arigó?

 

− Tô não, senhor. É que …

 

− Além do mais, fazer fumaça nessa clareira é entregar nossa localização. Tu quer ser preso, por acaso?

 

− Não, senhor.

 

− Então pega a pá e me ajuda a cavar que a fedentina tá insuportável. O que importa é que esse aqui não vai mais dar trabalho pra gente. Vamos sair desse buraco com os bolsos cheios de ouro e sem yanomami pra atrapalhar.

 

− O infeliz deve ter morrido de desnutrição, tão magrinho que faz pena.

 

− Ou contaminado de mercúrio, ou de malária. Que importância tem isso agora, arigó? Faz logo o que tem de fazer e cala a boca, senão te encho de porrada e você acaba como ele.

 

***

Era verdade: nunca foi uma questão de como se chegava à terra, mas de como se partia dela.

fotografia de Sandra Godinho.

Sandra Godinho nascida a 27/07/1960 em São Paulo, mora há 23 anos em Manaus; é graduada e Mestre em Letras e tem 16 livros publicados. Orelha Lavada, Infância Roubada (contos – 2018) recebeu Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas em 2019; O Verso do Reverso (contos) ganhou o Prêmio Cidade de Manaus  em 2019; Tocaia do Norte (romance) recebeu Prêmio Cidade de Manaus em 2020 e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021; A Morte é a promessa de algum fim (romance) recebeu o Prêmio Cidade de Manaus em 2021; Memórias de uma mulher Morta (romance) foi finalista do Prêmio Leya 2021; A Secura dos Ossos (romance) foi finalista do Prêmio Leya 2022. Nós, cegos (contos) foi vencedor do 1º Prêmio Carolina de Jesus em 2023 e foi contemplado com o PNAB 2024. O Negro secou (contos) recebeu Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Manaus em 2024. Paralelo 11(romance) foi finalista no Prêmio Leya 2024. Inventário de um silêncio venceu o I prêmio Escreviventes em 2025 e A bússola dos Gigantes venceu o II Prêmio Frauta de Barro em 2026. Tocaia do Norte ganhou ainda o Prêmio da BN em 2023 e está sendo traduzido para o Inglês e A Secura dos Ossos ganhou o Prêmio da BN em 2024 e está sendo traduzido para o Português moçambicano.

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