
Em menos de três anos se alterou, drasticamente, o cenário político na América Latina. Houve uma guinada não somente à direita, mas em seu segmento mais radical. Hoje, apenas Brasil e Uruguai são governados por partidos de centro-esquerda.
Verdade que nos últimos pleitos a margem foi estreita. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella venceu por 250.000 votos e Keiko Fujimori por 43.000 de diferença. No Chile, em 2025, o candidato da ultradireita, José Antonio Kast, venceu com margem um pouco maior, com 58% dos votos no segundo turno. Cenário arrasador para a democracia na América Latina, com candidatos que se elegem através do voto, mesmo com ideário autoritário, em contradição que expõe os limites e a fragilidade da democracia.
Trump festeja a retomada do “quintal” norte americano, mas é difícil estabelecer esta conexão. Há uma escalada de violência no continente, com a intrusão do crime organizado nas estruturas do Estado ou por via dominação de extensos territórios pelo crime.
Se Trump não é citado nas campanhas eleitorais todos querem ser Nayb Bukele, o presidente de El Salvador que, depois do convívio promíscuo com as gangues que dominavam o tráfico de drogas, instituiu mega prisões e aboliu, na prática, o sistema de defesa dos acusados, praticando amplos crimes contra a humanidade. Na maior prisão, em Cecot, inaugurada em 2023, “nunca se apaga a luz”, alusão ao confinamento dos presos em celas metálicas suspensas e sem direito ao banho de sol. El Salvador é o país que mais trancafia no mundo, cerca de 1.659 presos por 100 mil habitantes (Fonte: World Prison Brief).
Experimenta-se estagnação econômica na América Latina, com crescimento em torno de 2% a 5% ao ano, um ritmo menor que a própria média histórica da região, em parte pela estabilidade das commodities agrícolas, que embalaram o crescimento da centro-esquerda por anos.
Parece que esta combinação de baixo crescimento e aumento da violência ancoram a guinada à extrema direita, num cenário onde as eleições do Brasil ganham especial relevo.
Em contraste com a América Latina, o Brasil tem experimentado diminuição das mortes violentas nos últimos anos, mas há uma percepção de aumento da insegurança, em especial nos grandes centros urbanos, onde o crime organizado ou as milícias controlam vastos territórios. Talvez nestes centros, especial o Sudeste, se decida a eleição, cujas pesquisas apontam para um certo equilíbrio, mas com vantagem consistente de Lula a nível nacional.
E no Brasil, a desbragada intervenção de Trump e seus falcões da extrema-direita, pode ser decisiva nas eleições. O Brasil, hoje, é um dos países mais taxados pela política nacionalista de Trump, seja pela tentativa – de duvidosa eficácia – de ajudar o clã Bolsonaro ou de proteger seus setores financistas, em especial diante do sucesso mundial do PIX, que, aliás, surgiu na gestão do Banco Central da era Bolsonaro. Mas Trump pode gerar o caos econômico e institucional no Brasil, afetando uma margem de votos ainda pequena a favor de Lula.
Todavia, um espectro ronda as eleições, que contam com uma curtíssima campanha eleitoral de apenas três meses, logo após o mundial da Fifa: o escândalo do Banco Master. Seus tentáculos atingem todo o espectro político nacional e, praticamente, todas as instituições. Pelo menos três Ministros do STF estão envolvidos, direta ou indiretamente, com recebimento de vultosas “contribuições” e tanto o bolsonarismo quanto o petismo também ganharam “ajuda” para defender os interesses do Banco em lesar milhões de poupadores e aposentados, através dos Fundos de Previdência e operações sem lastro real. Quem menos for atingido pelo escândalo – que deverá ganhar novas revelações em breve – deverá pontear o pleito eleitoral.
A vitória de Flávio Bolsonaro representará não só alinhamento com Trump, mas verdadeiro retrocesso institucional, com a anistia aos réus da tentativa de golpe, a limitação das liberdades democráticas e o esvaziamento das instituições democráticas. Um meio caminho entre o próprio Trump e Bukele. Desafortunadamente.
Flávio Sant’Anna Xavier
Flávio Sant’Anna Xavier é Procurador Federal desde 1997. Autor de obras e artigos jurídicos na área do Direito Agrário e Administrativo. Autor do livro de contos “Guris” (2016).










