
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo
Parece bater palmas.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Meio-dia
IN POESIA
Alexandria 2004
Da varanda derramada sobre Faros
a vista acha o lugar
onde a forma erguida falta
o silêncio não habita as horas mortas
e só o mar e os cavalos se conhecem
aliados na interseção dos tempos
sinto um búzio de eras
e escuto
a marcha lenta dos cascos que perfuram o tráfego
o mar
ondula com o respirar impercetível de outra gente
disponho apenas de um átimo para invocar
as pedras magnas
e rever o perfil pequeníssimo dos navios
que ao longe são de agora e sempre
levarei dissimulado na bagagem o retrato de vidro
oblongo verde apologético
da novel biblioteca
que trafica o saber que foi perdido
por ele devorei as palavras à nascença
antes que desvendassem
a química das maldições
pois Hypatia é morta ainda
o corpo exangue
e nu
esvaído em tinta
corro a cidade
só a tempo de rasgar a mão
numa concha de memórias entreabertas
(as rosas do Cairo ainda cheiram entre as páginas do livro)
e o mar é o mesmo
proporcional e antigo
mensageira dos sonhos,
roça-me a fronte a asa de Ísis
murmurando
É esta a ordenação possível
depois do derrubar das pedras.
***
There are no ghosts nor souls,
And the immense, solitary, and ancient sea
Seems to clap its hands.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Meio-dia
IN POESIA
Alexandria 2004
From the pouring over Pharos balcony
the sight finds the place
where the towering form is missed
silence does not dwell in the dead hours
and only the sea and the horses are acquainted
allies at the intersection of times
I feel a conch of eras
and listen
to the slow march of hooves cleaving the traffic
the sea
is rippled by other people’s imperceptible breathing
I have but a breath to summon
the magna stones
and behold anew the minuscule profile of the ships
which in the distance are present and timeless
I shall conceal in my luggage
the oblong, apologetic, green-glass portrait
of the novel library
where the lost knowledge is trafficked,
for which I devoured the words at birth
before they unveiled
the chemistry of curses
for Hypatia remains dead
her naked drained body
fading into ink
I roam the city
just in time to have my hand cut
on a shell of half-open memories
(the roses of Cairo still scent the pages of the book)
and the sea is the same
constant and ancient
messenger of dreams,
the wing of Isis skims my forehead
whispering
This is the possible arrangement
after the downfall of the stones.
***
E então Deus sentiu que também se encontrava na pedra, e ficou angustiado e oprimido.
Rainer Maria Rilke, Uma Cena Passada no Gueto de Veneza
IN Histórias do Bom Deus
Encruzilhada
Pedras e árvores são as testemunhas
mais longevas da humanidade
os Romanos construíam para milénios
a magnitude das sobras muralhadas
sobrepuja
e ao contemplá-las
desde a encruzilhada dos ciclos efémeros
a quase eternidade de matéria inerte
petrifica-me.
***
Crossroads
Stones and trees are the longest-living witnesses
of humanity
the Romans built for millennia
the magnitude of the walled remnants
overwhelms
and upon contemplating them
from the crossroads of ephemeral cycles
the near eternity of inert matter
petrifies me.
***
La AntiguaDD
A espessura da ruína
entranhou-se-me simbólica
corais laceram a lisura crua da alvenaria
porém
são as árvores que intimidam
as árvores conquistaram a casa de Cortés
troncos inexoráveis forçam as paredes
raízes estrangulam portas e janelas
dos tetos rotos irrompem copas plumas
matéria vegetal que serpenteia
são instrumentos de Quetzalcoatl
sua concha peitoral do vento
fende as pedras que abrigaram
o sopro do conquistador
a história a céu aberto na casa sem teto.
***
La Antigua
The thickness of the ruin
embedded within me symbolically
the raw smoothness of the masonry is lacerated by corals
yet, the trees alone intimidate
the trees have conquered the house of Cortés
walls being forced by inexorable trunks
doors and windows strangled by roots
plumaged canopies burst forth from broken ceilings
vegetal matter that snakes through
they are instruments of Quetzalcoatl
his pectoral shell of wind
cleaves the stones that once sheltered
the conqueror’s breath
inside the roofless house history unfolds in the open air.
Originais e traduções de Célia Aldegalega
Célia Aldegalega é uma escritora, poeta, performer de leituras públicas, e produtora cultural portuguesa. Paralelamente, trabalha também como revisora literária e tradutora. É licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas (Português e Inglês) pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pós-graduada em Produção pela Escola Superior de Teatro e Cinema, completou o curso de Formação de Atores do Centro Cultural de Évora, atual CENDREV, e formações em Interculturalidade, Religiões, e Empreendedorismo Social. A sua vida tem sido pautada por um percurso cultural multidisciplinar. Após uma carreira de 27 anos na indústria musical, como agente de artistas portugueses de renome internacional — que conciliou com o trabalho em teatro, rádio, jornalismo e ensino —, publicou o primeiro livro de poesia, Multiverso, uma coletânea de poemas escritos durante o confinamento, em 2021. Desde então, a sua poesia tem sido integrada em várias antologias e revistas literárias. É autora do ensaio World Music: o planeta da (di)visibilidade (2024). É coorganizadora com Elisa Scarpa, que idealizou, de AQUI VAI LIVRE! uma ação literária e de intervenção urbana anual em Lisboa, desde 2025, e de LIVRES NO ESCURO, leituras performativas para escutar no escuro. Em 2026 publicará o segundo livro de poesia.










