Poesia & Conto

Três poemas | Célia Aldegalega

Foto de Алексей Паршуков na Unsplash

Não há fantasmas nem almas,

E o mar imenso solitário e antigo 

Parece bater palmas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Meio-dia 

IN POESIA

Alexandria 2004

 

Da varanda derramada sobre Faros

a vista acha o lugar 

onde a forma erguida falta

o silêncio não habita as horas mortas

e só o mar e os cavalos se conhecem

aliados na interseção dos tempos

 

sinto um búzio de eras

e escuto 

a marcha lenta dos cascos que perfuram o tráfego

o mar 

ondula com o respirar impercetível de outra gente

 

disponho apenas de um átimo para invocar 

as pedras magnas

e rever o perfil pequeníssimo dos navios

que ao longe são de agora e sempre

 

levarei dissimulado na bagagem o retrato de vidro 

oblongo verde apologético 

da novel biblioteca

que trafica o saber que foi perdido

por ele devorei as palavras à nascença

antes que desvendassem

a química das maldições

pois Hypatia é morta ainda

o corpo exangue 

e nu

esvaído em tinta

 

corro a cidade

só a tempo de rasgar a mão

numa concha de memórias entreabertas

 

(as rosas do Cairo ainda cheiram entre as páginas do livro)

e o mar é o mesmo

proporcional e antigo

 

mensageira dos sonhos,

roça-me a fronte a asa de Ísis

murmurando

 

                              É esta a ordenação possível

                              depois do derrubar das pedras.

 

                              ***

 

                              There are no ghosts nor souls,
                              And the immense, solitary, and ancient sea
                              Seems to clap its hands.

 

                              Sophia de Mello Breyner Andresen, Meio-dia 

                              IN POESIA

 

Alexandria 2004

 

From the pouring over Pharos balcony 

the sight finds the place
where the towering form is missed
silence does not dwell in the dead hours
and only the sea and the horses are acquainted

allies at the intersection of times

 

I feel a conch of eras
and listen
to the slow march of hooves cleaving the traffic
the sea

is rippled by other people’s imperceptible breathing

 

I have but a breath to summon
the magna stones
and behold anew the minuscule profile of the ships
which in the distance are present and timeless 

 

I shall conceal in my luggage 

the oblong, apologetic, green-glass portrait
of the novel library
where the lost knowledge is trafficked,
for which I devoured the words at birth
before they unveiled

the chemistry of curses

 

for Hypatia remains dead
her naked drained body
fading into ink

 

I roam the city
just in time to have my hand cut
on a shell of half-open memories

 

(the roses of Cairo still scent the pages of the book)

and the sea is the same
constant and ancient

 

                    messenger of dreams,
                    the wing of Isis skims my forehead
                    whispering

 

                              This is the possible arrangement
                              after the downfall of the stones.

                              ***

 

                              E então Deus sentiu que também se encontrava na pedra, e                                               ficou angustiado e oprimido. 

                              Rainer Maria Rilke, Uma Cena Passada no Gueto de Veneza 

                              IN Histórias do Bom Deus

Encruzilhada

 

Pedras e árvores são as testemunhas 

mais longevas da humanidade

os Romanos construíam para milénios

a magnitude das sobras muralhadas 

sobrepuja 

e ao contemplá-las

desde a encruzilhada dos ciclos efémeros 

a quase eternidade de matéria inerte 

                                                                                                                       petrifica-me.

                                                                                                                       ***

 

Crossroads

Stones and trees are the longest-living witnesses
of humanity
the Romans built for millennia
the magnitude of the walled remnants
overwhelms
and upon contemplating them
from the crossroads of ephemeral cycles
the near eternity of inert matter

          petrifies me.

***

La AntiguaDD

 

A espessura da ruína 

entranhou-se-me simbólica

corais laceram a lisura crua da alvenaria

porém

são as árvores que intimidam

as árvores conquistaram a casa de Cortés

troncos inexoráveis forçam as paredes

raízes estrangulam portas e janelas

dos tetos rotos irrompem copas plumas

matéria vegetal que serpenteia

são instrumentos de Quetzalcoatl 

sua concha peitoral do vento 

fende as pedras que abrigaram

o sopro do conquistador 

 

                                                                      a história a céu aberto na casa sem teto.

                                                                      ***

 

La Antigua

 

The thickness of the ruin
embedded within me symbolically
the raw smoothness of the masonry is lacerated by corals
yet, the trees alone intimidate
the trees have conquered the house of Cortés
walls being forced by inexorable trunks
doors and windows strangled by roots
plumaged canopies burst forth from broken ceilings
vegetal matter that snakes through
they are instruments of Quetzalcoatl
his pectoral shell of wind
cleaves the stones that once sheltered
the conqueror’s breath

 

inside the roofless house history unfolds in the open air.

 

Originais e traduções de Célia Aldegalega

fotografia de Célia Aldegalega. Autora da foto: Elisa Scarpa.

Célia Aldegalega é uma escritora, poeta, performer de leituras públicas, e produtora cultural portuguesa. Paralelamente, trabalha também como revisora literária e tradutora. É licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas (Português e Inglês) pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pós-graduada em Produção pela Escola Superior de Teatro e Cinema, completou o curso de Formação de Atores do Centro Cultural de Évora, atual CENDREV, e formações em Interculturalidade, Religiões, e Empreendedorismo Social. A sua vida tem sido pautada por um percurso cultural multidisciplinar. Após uma carreira de 27 anos na indústria musical, como agente de artistas portugueses de renome internacional — que conciliou com o trabalho em teatro, rádio, jornalismo e ensino —, publicou o primeiro livro de poesia, Multiverso, uma coletânea de poemas escritos durante o confinamento, em 2021. Desde então, a sua poesia tem sido integrada em várias antologias e revistas literárias. É autora do ensaio World Music: o planeta da (di)visibilidade (2024). É coorganizadora com Elisa Scarpa, que idealizou, de AQUI VAI LIVRE! uma ação literária e de intervenção urbana anual em Lisboa, desde 2025, e de LIVRES NO ESCURO, leituras performativas para escutar no escuro. Em 2026 publicará o segundo livro de poesia.  

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