
[Editorial de Março 2026 – Revista InComunidade]
Acontecimentos sucessivos que envolvem o governo do País repetem um padrão: não reconhecimento do erro, incompetência e desleixo, por manifesta incapacidade. Há movimento, ruído, reuniões e grupos de trabalho, milhões a circular – mas é tudo inercial, circular, como um disco riscado. O ponteiro mexe-se, a música não toca. Ou, no caso, a rádio não comunica.
Um ritmo muito especial parece ter tomado conta do País, à semelhança do pesado, burocrático e ineficiente sistema de comunicações, a que foi dada, quando foi criado em 2006, a pomposa designação Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP). Chamemos-lhe “ritmo sirespe”, a aproximação possível à situação que acontece quando não estranhamos que os problemas se arrastem, aceitando que o sistema falhe porque é assim mesmo. Este ritmo do País é potencialmente mais grave que as “falhas técnicas” de um sistema preguiçoso e ineficaz, mas milionário. Representa uma normalização do fracasso, é a vitória definitiva da burocracia sobre a cidadania. Quando deixamos de exigir que as coisas funcionem, aceitando serviços medíocres e quando nos habituamos a ouvir “não há verba“, “está em estudo“, “vai ser resolvido“, perdemos a barca para o cais, perdemos definitivamente o ritmo necessário.
Tal como a “coisa” com maiúsculas parece apenas servir para produzir burocracia, o ritmo imposto ao País tem a função declarada de manter uma pulsão de vida compatível com a exigência nula de governantes ineptos, incompetentes e desastrados. Este é, por exemplo, o ritmo de um governo que, perante a constatação de que o sistema está “em fim de vida“, continua a pagar vinte e seis milhões de euros anuais para o manter em suporte básico de vida. É também o andamento de uma ministra da Administração Interna que, confrontada com perguntas concretas sobre falhas que puseram vidas em risco, responde dizendo que não percebia bem o que se havia passado. É seguramente a face patética de um primeiro-ministro que perdeu a administração interna e se apressou a inventar uma outra com a sua cara. E, para cúmulo da ironia criativa, vai “desenterrar” na Polícia Judiciária o nome, para preencher o vazio: o director nacional daquela polícia.
O “ritmo sirespe” é lento quando devia ser rápido (a substituição do sistema arrasta-se há cinco anos) e frenético quando devia ser ponderado (a criação de grupos de trabalho que são suspensos dias depois por conflitos de interesses). É um ritmo sem qualquer nexo que não seja o do seu próprio desastre.
Para que precisamos destes burocratas? Pergunta retórica, afinal sabemos bem qual a função da gestão da crise dos governos burgueses, a quem se auto-atribuíram as tarefas de desregular a imigração, declarar a insegurança e fabricar um monstro no sector do trabalho, porque ainda restam resquícios “socialistas” na Constituição. Ocupados com tais desígnios, como poderiam estes personagens pífios dedicar-se a “tarefas menores”, como por exemplo, acudir a uma tempestade?
Para esta gente tudo deverá ser feito, a um “ritmo sirespe” que, em vez de salvar vidas, as coloca permanentemente em risco. Tal como o “sistema integrado de segurança” transformou a emergência em regra, um sistema que se encontra sistematicamente em “falha” e permanentemente em “fim de vida“, em que a excepção (o colapso) é a norma, assim o estado de excepção tende cada vez mais a apresentar-se como o paradigma de governo dominante na política contemporânea. A teorização do filósofo italiano Giorgio Agamben tem aqui todo o cabimento, perante a constatação sucessiva de governantes que governam sem prestar contas, enquanto se assiste à escalada perigosa da extrema-direita fascista acumulando sucessos que, ainda que efémeros e espaçados, ganham a confiança que a artificialidade das eleições burguesas lhe assegura. O “ritmo sirespe, convive bem com o risco das pessoas que ficaram sem nada e, pela voz de um governo desumanizado manda esperar pelo ordenado do mês seguinte, como solução de recurso. Em face de apoios que tardam demais a chegar, ou que jamais irão chegar, o governo em “ritmo sirespe” brinda os trabalhadores das empresas afectadas pela depressão Kristin em regime de lay-off com dois terços do salário bruto, em vez dos 100% que tinha anunciado inicialmente. Mesmo quando Marcelo afirma que a explicação governamental às populações sobre o impacto da tempestade “não correu bem“, a insistência no “ritmo sirespe, transporta-nos para o reino da mais impoluta avilteza, assim como uma vilania que permanece intocada, sem ser confrontada ou punida, mantendo-se pura na sua persistência. Assim se entende, por exemplo, o lançamento de um putativo “Programa de Transformação, Recuperação e Resiliência” (PTRR), como a resposta à catástrofe climática que assolou várias regiões de Portugal Continental entre 28 Janeiro e 15 de Fevereiro, para “…prepara Portugal para um futuro mais seguro, resiliente e competitivo”, a velha cassete de sempre com a narrativa costumeira que nada diz e nada acrescenta à assustadora mediocridade governativa.
O País vive em ritmo sirespe. Pessoa dizia “Querer não é poder”, para concluir que, “quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer“. É a ilustração da cedência ao que se vai normalizando pela via burocrática que, no caso presente, pariu um monstro que é poder, mas não é capaz de se mexer, impedido que está pela sua própria inércia. Este “monstro” não é um acidente de percurso e pode configurar a arquitectura intencional de um sistema que se arrasta, gerando outros pequenos monstros que justificam a sua existência por apenas existirem.
Está o País capturado por uma espécie de círculo vicioso da incompetência, mergulhado em custos elevadíssimos, conflitos permanentes e inacção completa. Entretanto, o País move-se, mas na verdade, não consegue sair do estado de torpor em que mergulhou. Só mesmo esperar, até ver.
23 Fevereiro 2026
Alfredo Soares-Ferreira
Alfredo Soares-Ferreira é Autor de várias intervenções, comunicações e publicações sobre Cooperação e Educação para o Desenvolvimento, Cidadania e Geopolítica, em Portugal, Angola, Cabo-Verde, Espanha, Guiné-Bissau, Itália, Moçambique e Timor-Leste. É membro dos Colectivos “Porto Com Norte, Fórum de Cidadania”, “Fórum Manifesto”, “Liberdade e Pensamento Crítico” e “Tanto Mar”. É Redactor do Jornal on-line Diário 560. É co-Autor de “Portugal, Revolução, Unidade Socialista” (1977), “Bracarenses na Crise Académica de 1969” (2019) e “Paranhos em Poesia, Antologia Poética” (2021). É Autor de “Reflexos do Rio Torto” (2014), “Rio Torto- A Nascente” (2021), “Rio Torto- A Margem Esquerda” (2023) e “Escrita da Leitura” (2024). É Engenheiro de Telecomunicações, pós-graduado em Gestão e Estratégia Empresarial e em Administração Educacional. Actualmente aposentado de funções públicas, foi Consultor e Avaliador de Projectos Internacionais e Professor em diversos graus de ensino, secundário, profissional e superior.










