
“Mais do que pedir desculpa, deixem de continuar a fazer o mesmo!”, declaração de zapatista sobre o colonialismo citada de cor.
Fascismo nunca mais! 25 de Abril sempre! é o grito revolucionário que comemora a inauguração da terceira vaga de democratizações com a Revolução dos Cravos, em 1974. O estado fascista não foi desmantelado, passou a servir a democracia, e os movimentos antifascistas enfraqueceram: desarmados e remetidos para o combate de retaguarda ao nazifascismo residual. Todos os revolucionários que fizeram essa onda democrática se deixaram convencer de que a culpa do Holocausto fosse as convicções ideológicas mais cruas, mais extremistas, no limite a psicopatia de Hitler. Isso deu-nos um prémio de lata para os nossos desejos e esforços de democratização imediatamente negados pelo neoliberalismo inaugurado em 1973, com o Chile de Pinochet e a operação Condor liderada pelos EUA. Operação filiada na Guerra Fria desde logo envolvida em genocídios, como os dos comunistas no Vietnam e na Indonésia (Bevins, 2022) ou dos esquerdistas argentinos (Robben, 2008). A partir de 2010, o ressurgimento do nazifascismo no ocidente tem sido acompanhado com o reforço dos estados de negação por parte dos democratas. Estados de negação que são tão típicos da nossa civilização como o negacionismo do Holocausto combatido pelos democratas.
O negacionismo daquilo que se conhece é um produto intelectual da nossa civilização, seja na sua versão neo-nazifascista, seja na sua versão democrática. Hannah Arendt (1991) avisou que o fundo do fascismo era a banalização do mal, a desresponsabilização produzida em massa pelas autoridades burocráticas. A burocracia, segundo Max Weber, é o modo de organização característico da nossa civilização. Michel Foucault (1999), secundando Jeremy Bentham (2000), avisou também que era nas organizações e nos micro poderes nelas desenhados que a civilização, a que chamou o Grande Encarceramento, estava mais firme e discretamente instalada. São as hierarquias protegidas pelas burocracias que impõem os critérios de verdade socialmente incorporados.
Os genocídios modernos são difíceis de realizar e mais difíceis de aceitar e compreender. Porém, sem os compreender não é possível aboli-los. Por isso eles se reproduzem, como em Gaza, com conhecimento de todos, todos presos nas burocracias, nas ideologias, nas ciências sociais, rede de modos de desresponsabilização geral.
Resta-nos testemunhar individualmente estarmos a viver tempos em que deixou de ser possível iludirmo-nos sobre aquilo que a civilização ocidental faz, aliviarmo-nos pensando e dizendo que as outras civilizações fazem o mesmo, atribuindo à natureza humana aquilo que é estrita responsabilidade do estado a que chegámos.
Seguramente, muitos vamos continuar a utilizar o optimismo ensinado por Rousseau e Kant alterando e em conjugação com o pessimismo de Hobbes e Maquiavel para evitar o julgamento sobre a nossa impotência. Porém, sem o poder de destruição em que a nossa civilização se empenhou, e continua a empenhar, sacrificando as baixas e estropiados de guerra para desenvolver tecnologias que favorecem a economia, não seria possível perpetrar genocídios. Sem o apoio social às preparações para a guerra, como as anunciadas pela União Europeia e pela Alemanha, apoiados pela Grã-Bretanha, Polónia, França, e NATO, o genocídio em Gaza seria menos silenciado e os futuros genocídios seriam mais limitados. Mas, infelizmente, a modernização continua a obrigar-nos a participar e a assistir a extremas violências alegando que servem para a abolir, fazendo-nos cúmplices na negação das nossas responsabilidades pessoais, na nossa alegada impotência.
O problema do tempo em que vivemos não é só a negação do genocídio em Gaza por quem persegue os negacionistas do Holocausto. O problema do nosso tempo é também a preparação de novos genocídios daqui a algumas décadas anunciada para galvanizar os povos ocidentais. E não é que galvanizam apoios populares para divergir investimentos que poderiam ser dirigidos ao bem-estar com promessas de mais emprego em indústrias de guerra e forças armadas, ignorando estupidamente os problemas ambientais?
A impunidade dos genocidas não é excepcional. O estado de direito caracteriza-se pela sua impunidade selectiva (Jakobs & Meliá, 2003). No caso de Gaza, o Tribunal Internacional de Justiça reconheceu existirem fortes indícios de genocídio a que os palestinianos chamam segunda Nakba – catástrofe em árabe. O Tribunal Penal Internacional decretou mandado de captura contra dois ministros do estado de Israel. As autoridades ocidentais que inventaram o estado de direito estão a fazer do decreto letra morta e a proibir toda a (fraca) contestação ao genocídio.
Eis a prova de que a desonestidade intelectual é endémica na nossa civilização. Resta a alguns de nós declarar a nossa pífia e inconsequente superioridade moral pessoal através da emissão de um reconhecimento público de estamos a assistir àquilo que estamos a assistir. Pretendemos, como aqui faço, redimirmo-nos da nossa afiliação civilizacional.
Continua a ser possível estigmatizar e animalizar pessoas, imaginar que são massacradas para fins maiores, como os que são os nossos. Nestas circunstâncias, não nos ocorre afirmar com a crueza que é indispensável a nossa própria responsabilidade no caso. Os palestinianos não são os únicos a ser estigmatizados e animalizados. Os ucranianos foram-no pelos russos e o ocidente pretendeu vingar isso fazendo o mesmo com os russos. Qualquer guerra faz o mesmo em qualquer parte do planeta.
Para eventualmente abolir os recorrentes genocídios e impunidades de que somos cúmplices é indispensável ter liberdade para discutir as possibilidades de abolição das guerras. Sem isso, de pouco vale para as vítimas – que também somos nós, a parte sã de cada um de nós – as demarcações intelectuais e até políticas, como aqui estou a fazer e o fazem alguns chefes de estado cúmplices do estado de Israel, para negar as suas mais altas responsabilidades.
Referências:
Arendt, H. (1991). Eichmann em Jerusalem. Gallimard.
Bentham, J., Miller, J.-A., Perrot, M., & Werrett, S. (2000). O Panóptico. Autêntica.
Bevins, V. (2022). O Método Jacarta. Círculo de Leitores.
Foucault, M. (1999). Microfísica do Poder. Graal.
Jakobs, G., & Meliá, M. C. (2003). Derecho Penal del Enemigo. Cuadernos Civitas.
Robben, A. C. G. M. (2008). Pegar donde más duele – violencia política y trauma social en Argentina. Anthropos.
António Pedro Dores, sociólogo, professor universitário aposentado, autor dos blogs https://sociologia.hypotheses.org/ e https://libertacao.hypotheses.org/










