
Caio Junqueira Maciel
Conferindo a bela 14ª edição do romance de Oswaldo França Júnior, pela editora Nova Fronteira (perdi a minha primeira edição, autografada pelo saudoso autor), mesmo sabendo quase de cor o que acontece ao longo da narrativa, não pude deixar de me surpreender, e é o que quero compartilhar.
Devemos observar, antes de tudo, que o autor fazia parte da Aeronáutica, e foi cassado com o golpe militar de 1964. A partir daí, entre várias ocupações, optou pela Literatura. Jorge, um brasileiro, de 1967, é seu segundo livro, de uma longa carreira.
O aposto do título justifica-se não apenas pelo fato de Jorge ser um brasileiro comum, sujeito às intermitências da raiva, ao sentimentalismo (daí as canções de Altemar Dutra e Ângela Maria ouvidas no rádio), cumpridor de seu trabalho, embora, por vezes, pise na bola, como ocorre no caso do atropelamento de um andante, em Brasília. O ser brasileiro está nos tipos secundários, nas rivalidades esportivas entre Atlético x Cruzeiro, nas expressões populares espalhadas em quase todas as páginas, o comportamento dos motoristas nas estradas, na família, na zona de prostituição etc.
Porém, o que mais mexeu comigo foi a questão do sentido trágico presente na obra que, embora possa ser vista como uma epopeia menor (o herói que se desloca para cumprir uma missão), conduz o leitor por vários caminhos e a aventura chega ao termo sem que o compromisso assumido tenha sido consumado. À maneira de um coro, várias vozes chegam aos ouvidos de Jorge dando conta de que ele não chegaria com as oito carretas carregadas de toneladas de milho para uma refinaria estatal no dia aprazado em Belo Horizonte. Fiquei intrigado com o número oito e o simbolismo do milho. Daí, uma rápida consulta no Google, no site “Recanto das letras”, e eis o que encontro: “Os Maias possuíam um deus do milho. O único em seu panteão que possuía feições humanas, juvenis e amáveis. Ele se apresentava com os traços de um jovem. Sua cabeça servia também de símbolo do algarismo 8, de cabelos longos sugerindo os cabelos da espiga de milho. Seu nome era Yuin Kax, “o senhor dos bosques”. Deus da prosperidade e da abundância, também era associado com símbolos da morte.”
Não há propriamente morte, mas a chuva persistente desde o início da narrativa será uma espécie de dragão com quem Jorge lutará; e a chuva, traz a ideia bíblica de julgamento, punição, purificação e renovação. É o que acontecerá com Jorge, que depois do que viveu, começa a pensar, e será um outro homem, sem ser aquele empregado subserviente ao sr. Mário, protótipo do capitalista egocêntrico.
Porém, é bom destacar que, logo no início da narrativa, na p.26 desta edição, mas que corresponde à segunda página do romance (pois há dois prefácios), Jorge faz o seguinte registro: “E mesmo as coisas que já tinham sido consertadas, já estavam outra vez estragando, como ali na frente do DOPS, onde eu via, quando passava com o caminhão concreteiro, o asfalto junto ao canal já afundando, e era um asfalto novo que não fazia nem uma semana que os homens tinham acabado de consertar.” Ainda que o livro aborde concretamente uma realidade social, creio que não seria exagero ver aí uma alusão alegórica ao Golpe de 64 e uma de suas instituições à beira de uma democracia que ia se afundando? E há uma curiosidade: quando Jorge e os companheiros chegam à Timóteo, há uma festividade no local em homenagem ao certo Virico Fonseca, que era Intendente – ou seja, um representante de um poder autoritário.
Outro porém: mais triste ainda se pensarmos que Jorge, em suas reflexões sobre o episódio do atropelamento, anota isto: “O certo é que você pode ser bom no volante, e mesmo assim se distrair e deixar acontecer alguma coisa que você não quer que aconteça. […] O pior, meu amigo, pode vir a qualquer momento.” (p.135). E o pior veio para Oswaldo, naquele sábado, 10 de junho de 1989, na estrada nas proximidades de Monlevade – caminho que seu personagem perfez em sua jornada épica e trágica.
“JORGE, UM BRASILEIRO“
- Oswaldo França Júnior
- Nova Fronteira (169 págs.)
- (e-book)
Oswaldo França Júnior, escritor brasileiro, mineiro do Serro, nasceu em 1936, faleceu em João Monlevade, em 1989..Ingressou na Aeronáutica aos dezessete anos e teve sua carreira interrompida pelo golpe militar de 1964. Dedicou-se à literatura, como meio de sobrevivência. Ganhou o Prêmio Walmap, em 1967, o mais importante da literatura brasileira da época. Publicou romances e contos. Sua obra foi traduzida para a Alemanha, Estados Unidos, União Soviética, França e Checoslováquia.
Obras:
O Viúvo (1965)
Jorge, um brasileiro (1967)
Um Dia no Rio (1969)
O Homem de Macacão (1971)
A Volta para Marilda (1974)
Os Dois Irmãos (1976)
As Lembranças de Eliana (1978)
Aqui e em Outros Lugares (1980)
À Procura dos Motivos (1982)
O Passo-Bandeira (1984)
As Laranjas Iguais (1985)
Recordações de Amar em Cuba (1986)
No fundo das águas (1987)
De ouro e de Amazônia (1989)
Caio Junqueira Maciel, escritor brasileiro, mineiro de Cruzília. Mestre em Literatura Brasileira, pela UFMG, Professor, editor, autor de livros didáticos. Livros: Um estranho no Minho, O sangue que rejuvenesce o Conde Drácula, A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota, entre outros.













