Poesia & Conto

Transformar pedras em flores e diamantes em bruto em polidos seres | José Manuel Simões

Foto de Job Savelsberg na Unsplash

Kadafi foi a Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, onde conheceu Vera na Praça da Liberdade durante uma gincana e apaixonou-se de imediato. Foi comprar pedras semi-preciosas a Governador Valadares e no regresso voltou a parar na Avenida Olegário Maciel em BH para se encontrarem, acabando por ficar por ali durante a maior parte da quinzena de folga. 

Achou curioso o fato de em BH haver ruas com nomes de tribos indígenas e em paralelo outras com a toponímia das capitais de Estado do Brasil, constatando que os mineiros eram muito parecidos com os portugueses, sobretudo com os transmontanos. A Vera, loura e de olhos verdes, psicóloga de profissão, extremamente sociável e divertida, mexeu-lhe de imediato com o âmago. Ao beijar-lhe a boca, macia e carnuda, estremeceu. Pareceu-lhe que ela tinha uma espada na mão apontada ao seu coração, como que a obrigá-lo a ser o que ela gostaria que ele fosse. No início, ela mostrou-se realmente entusiasmada com aquela figura charmosa vinda do outro lado do mundo, mas alguns dias mais tarde disse-lhe que tinha medo de se entregar, “ainda mais a um estrangeiro que de um momento para o outro iria embora”. 

Entrou num notório estado de perturbação. Sentia-se confuso e apreensivo, percebeu que estava a ser assolado por uma crise que começava e acabava no sexo. Ao conhecer Vera, teve a sensação que tinha encontrado o amor; mas tudo acabou em magoada frustração. 

Aos seus olhos os sonhos pareciam-lhe fórmulas de uma realidade absoluta e quando sentia que a realidade estava longe, o eu sonhado acabava por se desmoronar. 

DuArte confessou a Vera que tinha gostado muito dela. Falou-lhe coisas de amor mas talvez fossem os seus desejos a falar alto por si. Ele sabia que se a quisesse conquistar teria que mudar o seu comportamento e acreditou que, operando algumas mudanças, poderiam vir a ser felizes juntos. Mas tudo não passaria de uma ilusão. 

Vivia reminiscências vagas de uma luz perdida no fundo de algum túnel, escuro, memórias esquecidas no tempo, razões aniquiladas pelo seu sentimento obsessivo. Sentia-se incoerente. Alguma loucura rodando as portas de seu solitário ser. 

No toca fitas, Pink Floyd, “remember when you were young, you shone like the sun”. Pela sua mente circulavam lembran- ças da casa onde tinha nascido, quase todas tristes, como as daquele dia em que, no quintal, os amigos conseguiram com esforço masturbá-lo. Depois doeu. Doeu muito. E lembrava-se de novo que as duas mulheres que mais tinha amado nunca tinham transado com ele. “Está alguma coisa errada comigo”, pensava. 

Ainda em Belo Horizonte conheceu Lúcia, também psicóloga, e pareceu-lhe que ela lhe seria necessária, que o compreendia, que talvez pudesse dar-lhe todo o carinho e ternura que tinha para dar. Precisava de lhe fazer compreender que o seu maior problema era de cariz sexual. Precisava de lhe explicar que seu pai também era viciado em sexo e que sua mãe era assexuada. Um dia teria que sair de casa pois achava tudo demasiado doentio. Sentia-se superior e inconscientemente culpava os seus pais por não ter nascido no seio de uma família de alta sociedade. 

Os pensamentos continuavam a vaguear na sua cabeça desalinhada. Talvez se tivesse enganado em alguma encruzilhada passada ou tomado o caminho errado. “Na minha idade ninguém tem olheiras como eu”, cogitava ao olhar-se ao espelho pela manhã. “Parece que tenho 30 anos mas só fiz 23 o mês passado. A Vera lixou-me ou será que eu já estava lixado sem ter consciência disso?”, questionava-se, a perturbação a crescer. “Sinto pena de mim e mesmo que esta noite tenha sonhado que os meus amigos caíam todos num poço mas que ninguém se magoava porque a minha força mental não deixava que nenhum mal lhes acontecesse nada, alivia a dor que profundamente me assola. Nos sonhos, quem me quer fazer mal sempre morre a meus pés. Curioso. Parece que há sempre uma mão que me protege”. 

Dois dias antes de embarcar para a plataforma de petróleo voltou a Macaé onde tinha uma carta de outro amigo, o João Semedo, mais velho, primo pela parte do pai, músico e etnomusicólogo: “Primão-amigo! Disse-me o teu pai que foste de férias ao Brasil e tinhas decidido ficar. Então que bicho te mordeu? Ele também falou que eras ator de telenovelas, que já te tinham visto várias vezes a fazer de fotógrafo de modelos na televisão. Isso é que é uma sorte! Por aqui as coisas também estão bem. Estou na Tailândia para dar aulas de World Music durante o Verão numa universidade do nordeste, 30 mil alunos no meio de quase nada. 

Ensino a mestrandos e doutorandos, todos mais velhos que eu, postura de rara simplicidade absorvendo com afincada sede os conhecimentos que tento passar-lhes, enquanto lá fora se ouve música em permanência, uma aura de tranquilidade a reinar pacificamente em ambiente de descontraída harmonia, “staff” e alunos fazendo o caminho a andar devagarinho como que para não cansar. As coisas, boas, sucedem-se sem pressão nem ansiedade, fui ao Laos com um professor de História, o Artha N, que está a fazer uma série de brilhantes documentários sobre os descendentes de vietnamitas que fugiram da terra-mãe durante a ocupação francesa, em visita que me deixou com uma estranha sensação de déjà vu – cada vez mais sinto, e confirmei-o numa regressão que fiz com um amigo médico, que na outra vida nasci no Vietname – assisti a um casamento em comunidade de minoria étnica onde um outro professor, o Tinnakorn, conceituado músico folk que já tocou no Porto e correu mundo com os seus estranhos instrumentos, foi atuar e fez questão de me levar, exibindo-me como quem ostenta um troféu raro acabado de conquistar. Sim, porque por aqui estrangeiros são muito raramente vistos. Foi então que a encontrei. Não lhe sei escrever o nome, diálogo praticamente só por gestos e parcas palavras supostamente perceptíveis, linda de olhar misterioso e penetrante, séria na sua humilde postura de quem não acredita que o senhor professor português esteja a ser sincero quando lhe revela o suposto interesse, qual paixão que parece ao de leve acontecer. Pensei que tivesse 17 anos mas garantiu-me com o indicador na palma da mão que tem 30. Ainda bem, pois claro está. Daqui a pouco eu e o professor Tinnakorn Attapaiboon, 150 quilogramas e risada inconfundível, partiremos de retorno à Masarakham University para lecionar, a ver se a mensagem passa. Um dia destes, a carrinha do Tinnakorn incendiou- se e ele, distraído como é, entrou numas bombas de gasolina para pedir um extintor. Os alunos, esses, entendem a custo o leccionamento, o inglês muito parco, a gente com paciência, motivação e amor à arte repete a ideia, redundante para que apreendida seja, transformando pedras em flores, diamantes em bruto em polidos seres do amanhã. A avaliar pelo fascínio, revelado em feedbacks orgulhosos por terem um professor estrangeiro, alguma coisa ficará de mim por aqui. Quiçá sob a forma de palavra ou mulher. Portanto, amigo, a experiência vale a pena, a alma, já o sabes, é grande, e a vontade de ir mais além continua viva. Recebe aquele abraço com toda a energia zen e que Deus te abençoe”. 

 

Fotografia de José Manuel Simões

José Manuel Simões é Professor Associado e Coordenador do Departamento de ‘Communication and Media’ da Universidade de São José, Macau-China. Tem um pós-doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, doutoramento em ‘Global Studies’ na Universidade de São José e Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Universidade de Coimbra. É especialista em assuntos do Brasil, país sobre o qual já publicou três livros, dezenas de artigos académicos e centenas de artigos jornalísticos.

Qual é a sua reação?

Gostei
0
Adorei
3
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.