Cultura

Prosa poética | Taise Dourado

Foto de Anastasia Zhenina na Unsplash

Eu olho pra trás na tentativa de rever os passos dados, eu tento pegar na minha própria mão e dizer “não corte tão fundo, você não tem mais 16 anos, talvez a dor lhe vença dessa vez”. Isso também é difícil, olhar pra mim mesma. Estão todas ali no canto da sala, a de 3, a de 5, a de 11, a de 15 anos… Todas me esperam como se eu pudesse ajudar. Aqui estamos. São quase 30 anos agora e a carne ainda arde, o peito ainda pesa. Não, eu não sei se eu sucedi. Sinceramente, não sei se tive promessas. Agora com essa idade, até olhar pra trás dá medo. Mas eu continuo olhando. Eu não me abandono jamais.

O dia está amanhecendo. Todos foram embora. Estou sozinha. Não sorri, não dancei, não bebi, não apaguei. Estou aqui com uma lucidez que me desmantela. Tanta coisa pode ser feita que eu não tenho nem vontade de começar. O tempo fez alguma coisa por dentro e não vi. O vento passou, levou o manual. O dia está amanhecendo e eu fiquei aqui imóvel. Não saí, não me atrasei, não dei opinião. Eu abro os olhos e o dia passa. Fecho os olhos e o dia está amanhecendo. Todos foram realmente embora. Um espelho pequeno na parede. Não me vejo inteira, mas me assusto. Eu ainda estou aqui.

O pior de tudo é o silêncio. O rádio não sintoniza, o galo não canta. Nem eu. Ainda estou tentando encontrar um pouco de sentido nos dias. Alguma linguagem sólida que se aproxime da realidade, algo que eu possa ler. As panelas estão sujas, as plantas estão secas, o gás não tem mais. O mês passou, mas não acabou ainda. Eu sei bem essa sensação. Eu fecho os olhos pra dormir e eles vagam no escuro procurando qualquer luz. Até meus pensamentos estão fora do ar. O chão cheio de vidro. Meu coração, xícara quebrada. Cheia de caquinhos por dentro. Eu acordo e durmo sem saber quem sou eu na fila do pão. Ninguém me diz. Ninguém me esbarra. Ninguém me estranha. Ninguém me vê. Os carros passam na rua num silêncio enlouquecedor. O liquidificador trabalha suavemente com lâminas de pena. Eu mesma nem piso o chão. Todas as equações estão vazias. Acabaram-se os x e os y. Acabou-se tudo. Fiquei aqui, perolazinha, na boca da concha no fundo do mar. 

Estou calma. Minhas mãos é que estão tremendo. Andei entre vultos do ontem. Entrei numa curva que não conheço. Podem dizer, eu me perdi. Ninguém me disse a direção. Eu fui sozinha. Fui dando passos incertos, deixando rastros pra volta. A vida veio e atropelou. Fiquei sem régua, sem regresso, sem alegria, sem perspectiva. Digam mais, digam que caí. Que levantei sozinha. Que pus gelo em minha dor. Toda dor dilata a pele e a gente cresce mesmo sem querer. Não tem nada de científico. Estou dizendo porque agora sou eu por minha conta. Às vezes sinto uma vibração esquisita assim na altura do timo. Mas logo digo em voz alta pra esse silêncio perturbador: sou eu, estou aqui, não fui embora. Nem vou.

Invento qualquer coisa pra sair à porta. Pôr os braços pra fora atravessando a grade, ferro e ferrugem do meu coração. Eu estendo a mão, não há correspondência. Eu tinha pouca idade quando me deram o mundo nas mãos. Eu rasguei, amassei formando pequenas bolinhas. Coloquei tudo em meu nariz. Esse foi meu grande feito. Reconheço todos os cheiros. Onde farejo a fumaça, encontro fogo. Apesar do silêncio, escuto a sorte. E agora falo com fantasmas. Minha voz interceptada não reverbera em lugar nenhum. Penso em bombas e em fins. São quase a mesma coisa. Um abala, o outro destrói.

É tudo muito grande e cheio de cavidade. O escuro penetra até à superfície. Você, olhando bem, vê muita gente, mas os salões estão vazios. Escadas rolam. Sempre piso à direita, sempre deixo a esquerda livre. E gosto quando as luzes piscam; é quase um começar de novo. Não é delírio. Estou tomando meus remédios nos horários certos. As escadas não têm fim, não levam a lugar algum. Me sento em um dos degraus. Subo de costas. Ignorando o futuro, mas cheia de cartas na manga. Eu não tenho compromisso às 22h, não tenho mensagens pra responder, não preciso surpreender ninguém quando eu chegar em casa. O meu fracasso é livre de julgamentos. E a minha solidão reina invicta sem preocupações. Meu coração senta à esquerda do degrau. Não sabemos onde queremos chegar, mas estamos a postos.

 

Qualquer um pôde ver esses aproximados 17 meses de chumbo que tenho tocado. Não fiz questão de guardar. Fui cachorro de rua, abrindo e lambendo feridas em praça pública. Muita coisa cicatrizou, por assim dizer. Muitos outros abismos se abriram. Tenho observado que crescer é ir perdendo o chão sob os pés. É treinamento de leveza. No fim você tem que sair voando. Se dá melhor quem se dá conta das próprias asas mais rápido. Das asas e do jogo de solidão. Às vezes eu sinto o gosto de sangue entre os dentes. Você também sente? Essa tragédia anunciada em nossos olhos? Esse circo pegando fogo em nossos corações? Cada vez mais calada, é o que tenho ficado. Vou falando só o trivial, o riso nosso de cada dia. Gastar latim com as descobertas já não enche mais meu bucho. Depois ainda me coloca em saia justa. Que eu não falo nada com nada, todos nós estamos cansados de saber. E nada com nada é tudo, se você me ouvisse bem. Eu estou sendo esse beija-flor com água no bico a vida inteira. Essa linguagem ainda pouco usual, mesmo nos dias de hoje, ou talvez muito menos nos dias de hoje. Antes as manhãs de sábado eram como nuvens espessas prontas para transbordar. Tudo era provisão, tudo era fértil. Hoje a aridez da vida me infiltrou pelas narinas, por baixo das unhas. Já não respiro nem escrevo sonho. Tudo que faço é suportar os dias da maneira mais profissional que consigo. Não levo absolutamente nada a sério e por isso pago altos preços no mercado. Se eu mentisse de verdade eu seria mais feliz do que assim fazendo esse número batido de clown. Em algum momento as pessoas deixarão de sentir pena e começarão a temer. A invasão das águas. Levando tudo como um grande show de fim de mundo. Arrastando festas, ostentações, ilusões. Todo o tempo terá acabado.

Passo a maior parte do tempo abrindo minhas feridas. Outra boa parcela tratando-as. O que me sobra livre, gasto a contemplar o que está cicatrizado; limpar o sangue das unhas. Tenho extenso convívio com a dor. Desafio quase que diariamente meu poder de cicatrização. E, talvez por isso, ainda esteja aqui, suportando a experiência terrestre.

Entender as guerras das quais não saímos vencedores ou perdedores. Meus procedimentos têm sido os mesmos. Observar, indiferentemente, as idas e vindas da vida. Abrir e reabrir a ferida. O intervalo inteiro é a cura. Subir e descer, não como uma balança, mas como uma gangorra ou uma montanha russa. Movimento contínuo, harmônico, simples. Achei que estava tentando entender a mim mesma, buscando o sentido da vida. Estava alimentando as pedras, esperando o trabalho do vento. E agora que o vento passou? Recomeço.

 

Fotografia de Taise Dourado. Autora da fotografia: Ana Eugênia Brito.

Taise Dourado é uma multiartista do interior da Bahia, tendo feito inúmeras participações em saraus e festas literárias, além de ter publicado os livros Des pedaço (2017) e Caixa de inchu (2018). Atua principalmente na área de lírica e estética literária.

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