Cultura

NO LUGAR DO OUTRO | Maria Estela Guedes

Foto de Danielle-Claude Bélanger na Unsplash
Apresentação do livro A casa da Memória, de Maria Azenha.
Posfácio de Roger Samuel. Editora Urutau, Portugal/Brasil, 2024.
Auditório da InComunidade, Porto, 26 de Outubro de 2024.
Em geral, quando escrevemos, aquilo de que a escrita se
ocupa é descrito, analisado ou referido do ponto de vista de quem
se apresenta como “Eu”. Simplifiquemos: o que escrevemos
aparece segundo o nosso ponto de vista, e é esse ponto de vista
aquilo que recebemos e percebemos. Aceitamos o que nos dão,
sem procurar outro interlocutor, pois a escrita, pondo de lado a
teoria literária que especifica sujeitos, enunciadores, narradores,
etc., na sua imediata perceção, é uma interação entre escritor e
leitor.
Esta observação decorre do facto de neste livro a interação
entre pessoas criar um estado de choque. Podia ser conflito, mas
não, trata-se de choque, reação emocional da parte do ouvinte, o
poeta, ao discurso do interlocutor, ou mesmo ao seu silêncio, que é
outra forma de fala. Daqui se verifica a predominância da oralidade,
de resto frequente na poesia de Maria Azenha. Os poemas resultam
de conversas, presenciais ou ao telefone, que geram um terceiro
discurso, o único aliás que conhecemos na íntegra e fornece o
ponto de vista sobre a causa do choque. Não só os poemas
resultam do choque como o solucionam. A solução, em simbologia
alquímica, atua como dissolvente, dissipando o choque, ou a dor.
Dissolvente mais comum é a água, como todos sabem, mas
juntando-lhe um grão de sal o poeta opera a transmutação
necessária para superar o sofrimento. É o que acontece no poema
“Assim foi”, em que o sujeito vai para a cozinha fazer um bolo,
exatamente como procederia o alquimista, para obter, em resultado,
último verso, o almejado ouro: “As lágrimas eram muitas e de
ouro”.
Como somos amigas, e desde há muitos anos a Maria
Azenha é um dos autores cujas obras mais tenho comentado,
acresce à amizade alguma informação privilegiada a que o comum
dos leitores não tem acesso. Então vou partilhar, em regime de
biografia, e naturalmente com autorização dela, alguma informação
que diz respeito a este livro, A Casa da Memória. Repetem-se nele
alguns casos já pontualmente tratados pela autora em livros mais
antigos, o que aliás dá força à minha observação sobre o choque
manifesto em conversas com ela. De facto, eles dizem respeito ao
seu trabalho na primeira fase das actividades de uma linha
telefónica de ajuda vocacionada para o apoio emocional e a
prevenção do suicídio. É comum os iniciados em ordens religiosas
ou místicas votarem-se a obras sociais, e Maria Azenha, enquanto
Rosa-Cruz, vem de há muito ajudando pessoas em situações
difíceis. Além desta nota importante, acresce que as ordens
religiosas têm como matéria preferencial de estudo os livros de
espiritualidade, daí a Alquimia, patente em vários passos deste livro
e em muitos de outras obras da autora.
Os temas resultantes destas experiências de encontro para
ajuda não são os únicos n’ A Casa da Memória. Poemas dedicados
a situações do quotidiano social e individual são comuns na obra.
Neste livro, o poema “A torre do silêncio” contrasta com a maior
parte dos outros, inspirados por conversas, pois o que nele mais
avulta, a despeito do ruído das armas de fogo, é o silêncio. Como
se existissem dois mundos, um exterior, regido pelas armas, e outro
de tormento interior, o do silêncio:
Não ouve os tiros da noite
nem aqueles que mais amou.
Ficou na Torre do Silêncio
no quarto sagrado da Morte,
onde mais ninguém entrou.
Um dos poemas com os quais mais entro em empatia, e
acerca do qual nenhuma informação me foi transmitida pela autora,
é “Atravessando a noite”. A memória que o norteia é tão dolorosa
que Maria Azenha recorre de novo a algo tão acutilante como o
disparo de uma arma de fogo para a exprimir. Todo o poema, aliás,
é uma grandiosa metáfora de dor, sustentada pelos elementos
tradicionais e básicos da Alquimia, a saber: água, ar, fogo e terra, a
terra em que assenta o leito, peça de mobília que desenha o
cenário noturno, o da falta de luz, por isso da indiferenciação e do
caos. Neste texto reencontramos a oralidade, se bem que o som
ouvido provenha de um grito de chamamento e não de uma
conversa, decerto impossível, se a criança evocada for ainda um
bebé. Trata-se de um pesadelo, vejamos.
Abro os olhos, fito o leito,
E o mar onde me deito
Redobra em cinza e flamas.
Não há ninguém.
Ninguém no quarto.
Só uma bala atravessa a escuridão da noite
E se aloja no meu peito.
As situações de choque perante o interlocutor vão desde as
familiares, suas ou não, até ao encontro e eventual conversa com
gente da rua: sem abrigo, mendigos, incapacitados físicos, etc…
Então percebe-se que a maior exigência de atividades como a de
escutar alguém em situações de grande fragilidade ao telefone é a
capacidade de se pôr no lugar do outro. Nem todos são dotados, e
no extremo, na total incapacidade de empatia, encontramos o
psicopata. Porém, a empatia não é sem consequências: pôr-se no
lugar do outro equivale a deixar-se possuir pela alma alheia.
Existe a poesia com função catártica, o teatro grego de há
séculos no-lo ensina. O drama que passa daquele que pede socorro
para quem o ouve precisa de ser dissipado. Quem ouviu precisa de
recuperar a sua integridade psicológica, com anulação do
sofrimento. A poesia exerce assim uma função catártica idêntica ao
estado de nirvana. Como se a repetição do drama fosse analgésica.
Não parece que seja saudável manter na memória pessoal uma tão
grande potência de dor, então a memória poética aparece como
uma pen-drive, um banco externo de memória em que os dados se
conservam sem afetar a saúde mental do poeta.
Do outro lado, o lado do outro, sabemos só o essencial: ele
procura ajuda. A cura mediante a fala é conhecida desde sempre;
tem imagem antiga no confessionário, e imagem moderna no divã
da psicanálise. No primeiro caso, a catarse tem o nome de
confissão, e no segundo o de transfert ou transferência.
Por conseguinte, não é isenta de perigos a tarefa de dar o
apoio de um ouvido ao náufrago, pois não somos imunes à
infelicidade alheia. Cada poema decorre de um choque na
comunicação com o interlocutor, esteja o interlocutor presente, ao
telefone, ou na memória. Assim, não se trata de frivolidades da fala,
de oralidade ligeira, sim de profunda interação humana, em que o
telefone assume a função mediadora quer do confessionário quer
do divã do psicanalista.
Vejamos o que se passa com o José, naturalmente um nome
suposto. A iminência do suicídio aparece ligada pela partícula
“quase” ao género “natureza morta” bem conhecido da pintura, e
Maria Azenha também é pintora, forma provável de purificação do
drama operada pela poesia.
NATUREZA QUASE MORTA
O José está ao telefone.
Aos quarenta e dois anos
chora como um adolescente.
Pequenas palavras à mesa de cabeceira
rodopiam no espaço
dividindo lágrimas e uma floreira.
Tomou só três,
“não há que ter receio”,
Chora bem alto ao ritmo do vento.
Na sequência, o José deixa perceber quão náufrago se sente,
imerso numa onda de depressão que o põe à beira de um suicídio
que nega, na sua própria fala: “não há que ter receio”. Não há
perigo, tomou só três, e o interlocutor, nós, no caso, imaginamos o
resto: só tomou três comprimidos.
No poema, a memória defende-se do contágio do drama
transfigurando a cena em notas de poesia. É o desenlace que
permite, a quem sugere a história, o alívio dela e o distanciamento,
dissolução necessária, representada por algo como o ditado de que
palavras, as ouvidas, leva-as o vento. No que diz respeito ao
suicida, as palavras são pranto pesado. Era preciso ter coragem
para tomar muito mais do que três comprimidos, mas creio que é
preciso ter mais coragem ainda para confessar o que o atormenta, e
nós, leitores, ignoramos.
A transferência de transtornos através da fala toca-nos,
perturba-nos, pode causar danos psicológicos. O poeta precisa de
igual força anímica para conduzir a conversa sem se deixar abater
nela. Transferir essas experiências de fala para a poesia
corresponde a uma catarse, processo de resolver a situação
dramática sem entrar em crise psicológica. É o que acontece na
Casa da memória, um livro de transferência e de purificação, em
que a poesia recebe a descarga emocional, procedendo à anulação
da dor, tal o nirvana.
Além de funcionar como eco, ou feedback das suas
experiências com aqueles que pediam ajuda, o livro repercute
emocionalmente situações familiares, e não só, donde é um livro
discreto, que entreabre apenas uma fresta de porta para a grande
intimidade.
Resumindo, a obra põe em cena as relações humanas como
um embate com o sofrimento alheio. Não é ocioso o embate, ele faz
vibrar o poeta de maneira muito profunda. Quanto àqueles em cujo
lugar o poeta se põe, e com os quais entra em choque, o seu ponto
de vista atrai e fascina, tanto mais que o outro é desconhecido, e
além de desconhecido pode o poeta entrar nos domínios da
loucura.
Encerro a minha alocução com o poema “Alquimia”, síntese
do que escrevi. Já a referi por diversas vezes. A Alquimia é objeto
de estudo em muitas ordens iniciáticas, e a Rosa-Cruz não será
excepção. Existe nela um vetor maior, o da transmutação. No
poema, veste a roupa da cozinha, outra maneira de referir o
laboratório do alquimista. O que cozinhamos também sofre um
processo de transformação e de resto a passagem do cru para o
cozido, como explicou Claude Lévi-Strauss na sua conhecida obra
Le cru et le cuit, assinala um salto enorme na caminhada
civilizatória do Homo sapiens.
A transmutação é o facto de vida essencial numa iniciação,
consiste em abandonar um estado grosseiro de ser para entrar num
regime superior, em que reina a espiritualidade, em passar das
trevas da ignorância para a luz da sabedoria. A catarse a que venho
aludindo é uma forma também de transmutação alquímica, ela
eleva a dor a um patamar acima da condição terrena. No caso,
eleva o sofrimento ao patamar da Poesia. Recordando o estatuto de
Rosa-Cruz de Maria Azenha, menciono para findar que a Rosa é
um símbolo do Espírito.
ALQUIMIA
Na cozinha dormem as minúsculas laranjas.
São quase duas horas da manhã.
O luar entrou pelos lírios da casa e
já estive perdida antes e mais só.
A noite, uma página onde os ourives do Sol
trabalham na mais completa escuridão.
Escondidos do tempo nas metáforas do forno
adiantam-se para as montanhas.
As suas vozes tornam-se cada vez mais amáveis
e estranhas,
clamam da distância.

 

Fotografia de Maria Estela Guedes

Maria Estela Guedes (1947/-) tem umas centenas de títulos publicados, em Portugal e no estrangeiro, entre livros, ensaios e crónicas, sobre literatura e outras artes. Figura em diversas obras coletivas, entre as quais salienta Todos os Saramagos (2022) e Contos que Fernando Pessoa não escreveu (2019). Foram levados à cena dois trabalhos seus, O lagarto do âmbar, na Fund. Calouste Gulbenkian, dirigido por Alberto Lopes, e A Boba, no Teatro Experimental de Cascais, dirigido por Carlos Avilez. Também tem participado em eventos de artes plásticas, o último dos quais em 2021, no Museu de Arte Contemporânea de Lisboa, no âmbito das comemorações do Centenário de Ernesto de Sousa. Dirige o site e a Revista Triplov, em triplov.com. Considera suas obras de referência: Herberto Helder, Poeta obscuro, Lisboa, 1979 e A obra ao rubro de Herberto Helder, São Paulo, 2010. Livros publicados mais recentemente: Esta noite dormimos em Tânger e Conversas com Federico García Lorca, ambos de poesia e ambos publicados pela Editora Urutau, Pontevedra/São Paulo, em 2021 e 2022. Edita em 2024, pela editora Tesseractum, o ebook Glugluglu, que reúne a totalidade da sua obra.

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