Cultura

O cadáver de Machado de Assis e alguns aspectos inexplorados sobre sua ode sobre o vilipêndio ao cadáver do Marquês de Pombal – Parte I | Thiago Aguiar de Pádua

O cadáver de Machado de Assis e alguns aspectos inexplorados sobre sua ode sobre o vilipêndio ao cadáver do Marquês de Pombal(1) – Parte I

Introdução

 

Já ao final da vida, o casal Machado de Assis e Carolina passou seus últimos dias privando de uma invejável intimidade amorosa em sua cadeira de balanço dupla, cadeira essa que permitia ficarem de frente, se encarando, compartilhando um mesmo impulso(2) e, após viverem uma vida plena de companheirismo leal e de terna cumplicidade, teriam partido desse mundo dormindo e em silêncio, enterrados no mesmo jazigo perpétuo no qual eternizaram a paz e a tranquilidade com que sempre almejaram, desde o tempo em que ele a chamava de “querida C.” ou de “Carola”, e também se autoproclamava “Machadinho”(3). Mas essa não é a história real, ao menos em sua parte final, naquilo que se relaciona ao suposto descanso após o evento morte, não obstante pudéssemos falar de uma espécie de ucronia(4) psicológica e intelectual.

 

A realidade pintou-se diferente, pois Machado de Assis não pode ter o descanso que lhe seria devido. Querendo falecer antes da esposa, foi obrigado pelo destino a conviver alguns anos com a presença da ausência amorosa(5).

 

Seu silêncio final ainda seria perturbado, momentos antes da morte, por uma casa repleta de pessoas, numa cena final em que o escritor se via obrigado a pedir reiteradas desculpas aos presentes por ainda não haver falecido(6), e, após o advento da morte, também teve descumpridas as manifestações de última vontade que foram expressamente designadas no último testamento que escreveu, o segundo, de próprio punho, primeiro com a elaboração de uma máscara mortuária que não foi prevista; depois, com um discurso fúnebre que não determinou e, por fim, a mudança de seus restos mortais, retirados do jazigo que ele mesmo havia escolhido e comprado, com zelo e determinação, ainda mais quando o jovem Machado já houvera escrito um texto poético contra o vilipêndio ao cadáver do Marquês de Pombal, indicando sua visão sobre o respeito ao sossego dos mortos, aspecto que o presente ensaio tentará interpretar.

 

Momentos antes de Machado de Assis ser inumado, embora alguns prefiram a expressão enterrado (e tantos outros usem a palavra encovado), ficaram famosos os adjetivos proferidos por Rui Barbosa, chamado que foi para discursar no velório, e que impressionaram pela eloquência, pronunciado o discurso fúnebre na antiga sede da Academia Brasileira de Letras, minutos antes do féretro partir em direção ao cemitério São João Batista, mas não sem antes deixar registrada uma significativa manifestação de desculpa, ao estilo de Rui, pelo palavrório enunciado em momento tão repleto de complexidades: “Nunca ergui a voz sobre um túmulo, parecendo-me sempre que o silêncio era a linguagem de nos entendermos com o mistério dos mortos”(7).

 

Pouco antes do velório, outro ato fúnebre inusitado, menos pelo fato do que pelo destino que se seguiu, revelado pelas memórias de Rodrigo Otávio, em livro publicado em 1935, sobre uma circunstância ocorrida no ano anterior. É que, como secretário da Academia, em convívio diário por 15 anos com Machado, foi designado para providenciar aspectos do funeral, tendo pedido ao artista plástico Rodolpho Bernardelli que fizesse a máscara mortuária do falecido escritor; em suas palavras: “pouco depois da morte, que ocorreu às 3 e meia da tarde”, acrescenta: “uma tarde luminosa”, prossegue: “veio à casa do Mestre e moldou-lhe o rosto, em gesso” (8).

 

Tão reservado, dificilmente Machado de Assis teria aprovado a máscara mortuária, principalmente em razão dela ter sido utilizada como capa do famoso livro de Hermínio de Brito Conde para falar sobre uma doença do próprio escritor(9), logo ele que chegava a romper relações com amigos que presenciassem sua fragilidade humana nas constantes crises epiléticas.

 

Antes dos fatos anteriores, preparação do velório com alguma aura que talvez tenha levado ao desaparecimento da máscara mortuária e do enterro que fez quebrar um silêncio que seria excepcional, minutos antes de falecer, Machado de Assis se desculpava aos amigos próximos por ainda não ter falecido, como igualmente descrito pelas memórias de Rodrigo Octávio, e recebe a famosa visita de um jovem que permaneceu anônimo, também por longos anos, na descrição dos momentos finais de vida pela narrativa de Euclides da Cunha(10), complementada por memórias de outras testemunhas.

 

Pensando na própria morte em momentos distintos, ele que já havia falado bastante sobre ela na perspectiva de várias de suas personagens, Machado de Assis elaborou dois testamentos. Um quando a esposa estava viva, e outro quando Carolina já havia sido enterrada, e é possível que até mesmo tenha imaginado os detalhes dos fatos que sucederiam seu falecimento, mas talvez não tivesse previsto a quantidade de temas ocorridos, fatos que seguramente lhe renderiam um derradeiro romance.

 

Neste sentido, o presente ensaio se ocupa de dois aspectos que parecem primordiais ao cânone machadiano, primeiro resgatando a trajetória sobre a disputa pelo cadáver do Bruxo do Cosme Velho, jogando luzes em alguns aspectos históricos, evento dinâmico que envolveu testamento com desígnios fúnebres, enterro e posterior violação da sepultura para trasladação de seus restos mortais para o mausoléu da Academia Brasileira de Letras, polêmica que permaneceu acesa por muitos anos, ressignificando tais elementos a partir da visão que o próprio escritor projetou sobre a violação aos despojos do marquês de Pombal.

 

  1. – Defunto & De Cujus(11)

 

No dia 22 de abril de 1999 a então famosa edição impressa do Jornal do Brasil, no caderno Cidade, estampava a notícia de um evento fúnebre, com túmulo e subtúmulo, digo, título e subtítulo: “Unidos na vida e na morte: Mausoléu da Academia recebe restos de Machado de Assis e da amada Carolina”. A imagem da notícia(12), como talvez pudesse deixar de ser, mostra 9 distintos senhores, dois deles sorridentes, atrás do túmulo do casal, ornamentado com rosas brancas e, ainda, uma vela acesa ardendo na superfície:

 

 

Quem sabe estivessem, vai saber, pedindo licença para acender um charuto na chama que lambe a si mesma sobre o túmulo do cadáver, e bem sabemos que a prudência exige que não deixemos de recordar a velha cena do bêbado personagem machadiano que, passando pela rua, avista uma casa em chamas, percebendo sua dona a chorar, quando indaga se a casa seria propriedade da mulher (“um triste molambo de mulher”, diz Machado) ouvindo, como resposta: “— É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo”, quando o ébrio então pede licença para acender seu charuto nas chamas que consomem a casa, permitindo que Machado nos diga, pela boca da personagem, que “não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias”(13).

 

A perturbadora cena da animada passagem de Quincas Borba é motivo suficiente para que o esquecido estudo de Mário Matos viesse a etiquetar Machado de Assis como adepto da pilhéria e do “humorismo”(14), acrescentando: “nesse episódio, todos os elementos humanos de piedade e comunhão no sofrimento desapareceram”, sem que se possa dizer que o “Machado adepto do humorismo” seja impassível ou insensível, não obstante a desnecessidade de “pedir licença para acender o charuto nas desgraças alheias”(15).

 

Não nos é dado esquecer, igualmente, a rara descrição sobre o próprio Machado de Assis em uma cerimônia fúnebre, como feito por Lúcia Miguel Pereira, biógrafa de mão talentosa e olhar sensível que nos forneceu uma comovente imagem: “Coelho Neto (contou que) uma tarde, ao entrar na livraria Garnier, encontrou Machado de Assis saindo muito antes da hora habitual. Estranhou o fato, pediu-lhe que se demorasse, pois queria falar-lhe. – Não posso, vou a um enterro, foi a resposta, mas venha comigo, conversaremos no carro”, e ao chegar ao local, pôs-se a velar o cadáver, como descrito: “a princípio impassível, depois visivelmente comovido”. Era sua mãe de criação(16), que seguramente ocupava espaço especial em sua paleta de afetos, como a mãe biológica, embora esta última tenha falecido com Machado ainda criança(17).

 

Para alguns, como Dom Hugo Bressane de Araújo(18), Machado não era suficientemente religioso em suas obras, embora para outros, como Octavio Brandão(19), não fosse suficientemente marxista(20). Os críticos, embora em número reduzido, tornam- se também objeto de alguma censura, como aconteceu ao acadêmico e escritor José Sarney, ao apresentar recente livro, após dizer sobre a quase unânime adoração ao vulto machadiano: “a rara, talvez única exceção nesse apreço unânime notabilizou-se por isso, não lhe mencionemos o nome”(21). Estava falando de Sílvio Romero(22), Octavio Brandão, Bressane Araújo ou do igualmente mordaz Agrippino Grieco?(23), apenas para citar alguns dos críticos mais conhecidos.

 

Não obstante, a imagem do jornal e a notícia sob o traslado dos despojos de Machado de Assis e Carolina permanecem enigmáticas, com alguns rostos que quase pedem licença para acender um charuto sob a frieza requentada de um defunto, algo que seguramente renderia ao próprio morto, além de um novo romance, talvez um conto? E que seguramente lhe traria à memória o poema que escreveu sobre o marquês de Pombal, como iremos refletir, logo adiante, não sem antes ensaiarmos algumas curvas, muitas pausas e certas dubiedades propositais, como uma espécie de desculpa para também homenagearmos o próprio escritor(24). Ele mesmo, alguém que se definiu no enigmático capítulo LXXI (O senão do livro) de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (25).

 

Pois bem, quanto ao noticioso texto de jornal, anteriormente citado, ele começa inventando, mas termina escondendo, se é possível recorrer a uma construção frasal tão ousada quanto a notícia (e sua imagem): informa que Machado de Assis “ganhou (…) uma homenagem que veio coroar a bela história de amor que teve em vida”, citando a presença, no ato, de outros membros da Academia Brasileira de Letras(26).

Menciona, ainda, que os restos mortais do casal Machado e Carolina teriam sido transferidos para “homenagear o amor”, informando que o testamento machadiano havia deixado expresso “o desejo de jamais ser separado de Carolina”, e que a cerimônia também representava “o fim de uma proibição que constava do regimento interno da ABL: a de que as mulheres dos imortais acompanhassem os maridos no mausoléu”, e que por conta disso “Machado de Assis permaneceu todo esse tempo na tumba de sua família”, quase arrancando lágrimas dos que balançam os olhos sobre o texto.

 

Contudo, sabemos que o segundo testamento de Machado de Assis – escrito de próprio punho – anota a inutilização de um testamento anterior, datado de 30 de junho de 1898, feito quando Carolina ainda estava viva, refeito em 1905, por ocasião da morte de sua companheira em 1904 e, neste segundo documento jurídico deixou anotado: “para que se cumpra e guarde como expresso da minha derradeira vontade”, prosseguindo, ainda: “desejo ser enterrado na mesma sepultura de minha mulher (n. 1359, jazigo perpétuo)”, detalhando ainda mais, afirmando necessidade das licenças burocráticas pertinentes: “Na lage que a cobre, abaixo do seu epitáfio, se houver de ser aberto o meu, com a inscrição do nome por esta forma: ‘J. M. Machado de Assis’, a data do meu nascimento e da minha morte”(27).

 

Ou seja, a notícia de jornal seria a cobertura da versão de um acinte, uma afronta à última vontade de Machado de Assis, que não apenas deixou explícita a vontade de permanecer junto à esposa, mas principalmente mencionou até o número da lápide em jazigo perpétuo, e as palavras claríssimas de último desejo: “para que se cumpra e guarde como expresso da minha derradeira vontade”.

 

É preciso observar que o traslado dos restos mortais de Machado de Assis e Carolina havia sido tentado muitos anos antes de sua execução, ocorrida em 1999. É o que foi noticiado, embora de forma incompleta, pelo jornal Folha de São Paulo, afirmando que muitos anos antes, ainda na década de 1980, houve uma tentativa anterior: “de acordo com Ruth Leitão de Carvalho Lima, a ABL fez a primeira tentativa de remover os restos mortais de seu fundador para o mausoléu”, mas os herdeiros negaram a proposta, segundo justificativa da época, pois a Academia queria separar o casal, levando apenas o Bruxo do Cosme Velho(28). Aliás, o tema permanece controvertido, pois são inúmeras as narrativas sobre a tentativa de traslado dos despojos.

 

O jornalista Fernando Jorge, crítico do academicismo, recorda uma crônica de Carlos Drummond de Andrade para o jornal do Brasil, intitulada “Deixem Machado de Assis em Paz”, manifestando-se contra anteriores investidas de transferir os restos mortais, algo que também foi comparado à rocambolesca transferência dos bens da herdeira de Machado de Assis, adquiridos com dinheiro público e transferidos para uma entidade privada, que foi recordada com humor, sugerindo barganha acadêmica que teria trapaceado o escritor Mario Quintana em favor do ministro de estado Eduardo Portella, que fariam Machado de Assis escrever, segundo sugeriu, uma novela intitulada “As aventuras e desventuras dos móveis de um defunto, comprados por um ministro que com eles quis entrar para a ABL”(29).

 

De fato, Carlos Drummond de Andrade possui inúmeras relevantes manifestações na imprensa contra o traslado dos despojos de Machado. Em 1958, no texto “Sonho” (30), desenha deliciosa crônica com algum toque de ácido, escarnecendo sobre a aventada construção do mausoléu da Academia de Letras, dizendo não lhe agradar a ideia de “bulirem no singelo e já histórico jazigo de Machado de Assis e sua companheira”.

 

Em outro texto, “Um túmulo”(31), retorna ao tema numa crônica que transcreve a íntegra da missiva recebida de um senhor de nome Raul Barcelos, descrevendo inúmeros motivos que recomendariam a não realização do traslado dos restos mortais de Machado de Assis, passando pelo estranhamento sobre o fato de a ideia ter nascido em uma instituição como a Academia de Letras, chamada de “absurdo”, eis que representaria violação às premissas orientadoras do próprio silogeu, como a preservação da tradição e dos elementos históricos ligados a seu mais célebre fundador(32).

 

Por sua vez, no texto “Machado, não” (33) o itabirano noticia grande movimento de escritores de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul no sentido de endereçarem manifesto à prefeitura do antigo Distrito Federal, para que fosse barrada a consumação do traslado dos despojos, sem êxito, contudo, pois o que ocorreu, como mencionado, foi a destinação inicial de 6 milhões de cruzeiros para a construção do mausoléu acadêmico, ensejando novamente crônica ácida sobre a situação financeira do poder público e o desvario que seria o Estado custear interesses privados, especialmente diante de tanta carência de recursos(34).

 

Já no breve texto intitulado “O jazigo de Machado de Assis”(35), Drummond recorda um casual encontro com o acadêmico Austregésilo de Athayde, então presidente da Academia Brasileira de Letras, que teria proposto realizar o traslado dos despojos de Machado de Assis para dali a 30 anos após o diálogo (1959), para que a cerimônia pudesse ocorrer somente em 1989, data do sesquicentenário de nascimento do escritor, quando o presidente da ABL teria dito, ainda: “quem estiver vivo comparecerá. Certo?”. Ao que Drummond pontua: “contando sem dúvida com a esperança fundada de eu não estar vivo até lá para impugnar, embora sem êxito, a absurda transferência” (36).

 

Por fim, na crônica “Cemitério” (37), o autor de “A Rosa do Povo” faz uma derradeira crítica aos motivos invocados pela ABL para erigir o controverso mausoléu, já que o silogeu havia finalmente justificado a obra por motivos econômicos e não de glorificação, já que o metro quadrado do cemitério seria mais caro que o de Copacabana, sobrando para o antigo Distrito Federal o custeio da obra que já aparecia orçada em 30 milhões de cruzeiros, para os contribuintes do estado do Paraná, pela doação do mármore parnasiano, e para a Santa Casa de Misericórdia, que doou 1.200 metros de “terreno- ouro”, nas debochadas palavras de Drummond, observando, ainda, que no caso de Machado de Assis seria mais grave, pois este escritor já havia custeado seu próprio túmulo, afastando a argumentação econômica(38).

 

Fato é que as oposições de Drummond contra a alegada veleidade da transferência dos restos mortais de Machado de Assis mostram um combativo intelectual que não se omitiu de exercer papel crítico através da imprensa, tendo logrado êxito em constranger os responsáveis enquanto esteve vivo, não obstante o traslado tenha ocorrido alguns anos após sua morte, sem que tenhamos notícia de outros críticos tão combativos quanto o autor dos versos de “A Máquina do Mundo”.

 

Disputado como um prêmio após a morte, nem mesmo em vida Machado houvera sido comparado jocosamente a um defunto, como na crônica escrita por Arthur Azevedo, e recordada por Drummond, sobre a singela maneira de se portar à mesa durante o banquete de 1888 oferecido ao ator Coquelin, “o Velho” (39), dizendo a crônica que todos os convivas se portavam à mesa “com uma valentia digna do defunto Monselet (…) à exceção de Machado de Assis e Cyro de Azevedo, comedores de terceira ordem” (40).

 

A (não) comparação é engenhosa, pois o citado Charles Monselet foi figura de destaque no discurso de posse de Humberto de Campos na cadeira 20, da Academia Brasileira de Letras(41), sucedendo a Emílio de Meneses, quando recordou, de forma anedótica, a Guerra Franco-Prussiana e seu ponto culminante, que foi o cerco de Paris (1870-1871) e a conhecida passagem de Monselet, a quem Machado deixou de ser comparado:

 

“No cerco de Paris, em 1870, a fome atormentava a população. Os cavalos foram comidos, um a um. Os gatos desapareceram dos telhados, os cães desertaram as ruas, e os ratos, mesmo, foram caçados nos esgotos. Por esse tempo, Charles Monselet, que então escrevia no Figaro, correu às trincheiras, incorporando-se, com o seu “loulou”, o Azor, em um batalhão de voluntários. Durante vinte dias suportou Monselet heroicamente o regímen do batalhão, comendo ratos e gatos, cujos ossos o cão, depois, triturava nos dentes.

 

Um dia, faltaram os felinos e os roedores, e o jornalista resolveu um sacrifício pérfido: comer o cachorro. À noite, em uma casa vizinha às trincheiras, foi o cão abatido, esfolado, posto a ferver com especiarias estimulantes, e transformado, por milagre de caçarola, no mais saboroso dos guisados militares. Terminado o jantar, Monselet reuniu em um prato os ossos da vítima e gemeu, enxugando os olhos: – Pobre Azor! Que jantar perdeste hoje!…”

 

O então novo ocupante da cadeira n. 20, Humberto de Campos, presumiu que, se vivo estivesse, Emílio de Meneses teria apreciado a narrativa anedótica, e é certo que Machado de Assis, que faleceu antes dos dois, não morria lá de amores por Emílio, sendo pouco conhecida sua oposição contra a entrada de Emílio na Academia de Letras, o que permite, para os fins deste ensaio, uma releitura da verve machadiana sobre comportamento, moralidade e ritual no ambiente acadêmico, que também nos permitiria inquirir o que o Bruxo do Cosme Velho pensaria sobre a disputa por seu cadáver e o desrespeito sobre suas disposições de última vontade.

 

Vejamos a imagem recordada de Machado de Assis sobre a recusa em aceitar Emílio de Meneses na ABL, pelos fios da memória de um amigo(42):

 

“Machado entendia, e não cessava de o dizer, que a Academia devia ser, também, uma casa de boa companhia; e o critério das boas maneiras, da absoluta respeitabilidade pessoal, não podia, para ele, ser abstraído dos requisitos essenciais para que ali se pudesse entrar. Por esse tempo, alguns de nossos colegas andavam procurando criar no ânimo de Machado uma ambiência favorável à aceitação da candidatura de certo poeta, de notório talento, mas de temperamento desabusado e assinalado sucesso em rodas de boêmios. Nesse dia o nome do poeta veio à tona; a controvérsia fora acalorada. Machado não interveio nela; conservou-se calado; mas, quando o levávamos para o bonde, na Avenida, ao chegar ao canto da Rua da Assembleia, ele nos convidou a que seguíssemos por essa rua, e, a dois passos, nos fez entrar em uma cervejaria, quase deserta nesse momento. Não sabendo de todo o que aquilo significava, nós o acompanhamos sem dizer palavra, e vimo-lo deter-se no meio da sala, entre mesinhas e cadeiras de ferro, e, também sem dizer palavra, estender o braço, mostrando ao alto de uma parede, um quadro, a cores vivas, em que, meio retrato, meio caricatura, era representado em busto, quase do tamanho natural, grandes bigodes retorcidos, cabelo revolto na testa, carão vermelho e bochechudo, o poeta, cuja entrada no seio da imortalidade se pleiteava, sugestivamente empunhando, qual novo Gambrinus, um formidável vaso de cerveja… A cena causou em todos profunda impressão e, tal era o respeito havido por Machado, que, em vida dele, não se falou mais na candidatura de Emílio de Meneses”.

 

Consta que estas memórias de Rodrigo Octávio tenham sido publicadas em 1935, quando Machado e Emílio já haviam falecido, o primeiro em 1908, o segundo dez anos depois, mas na data da posse deste último na ABL, em 24 de abril de 1918, alguns meses antes de falecer, o tema aparece em todo seu discurso de posse, poupando Machado de Assis, a quem se referiu uma única vez, como “figura máxima” da Academia, “o vulto indecifravelmente grande”, mas defendendo-se contra a campanha que contra si foi urdida, apontando armas contra aqueles a quem denominou de “pivetes, da literatura” que o apontavam “Boêmio e desregrado”, mas que “nunca foi visto em espeluncas”, e, disparando ainda contra seu falecido antecessor, Salvador de Mendonça (1841-1913), “só me conhecendo através da opinião de mim formada por “pivetes” e costureiros, foi dos maiores repulsores do meu nome”, disse Emílio, para logo depois hastear bandeira branca, recusando avançar um ataque: “para evitar a increpação de exercer vingança póstuma”.

 

Não soube Emílio, ou talvez se tenha recusado em acreditar, que o maior repulsor de sua candidatura, para utilizar suas próprias palavras, teria sido Machado de Assis, mas a figura literária manejada por Emílio como forma de finalizar seu raciocínio é perturbadoramente deliciosa, e adequada aos propósitos deste ensaio:

 

“Feliz seria ainda se os seus amigos, ao lado dos meus inimigos, me não atirassem a apóstrofe de Baudelaire a um crítico testamenteiro literário de Edgar Poe, apóstrofe em que vai um grande espanto por não existir nos Estados Unidos uma ei proibindo a entrada dos cães no cemitério.” (43)

 

Imaginemos, ao menos por alguns instantes, a figura fantasmagórica de Emílio rondando o mausoléu da Academia de Letras no cemitério São João Batista, qual um fantasma de Banquo, repetindo o gesto de Machado de Assis contra sua candidatura naquele bar em que brevemente repousaram as memórias de Rodrigo Octávio, apontando silenciosamente a lápide machadiana para explicar o que acontece a um grande escritor após sua morte e, claro, suposto descanso planejado em outro local, com sorriso zombeteiro por detrás dos bigodes bagunçados e melados de espuma da melhor cerveja.

 

Já não diria, emulando o defunto Monselet, que Machado teria apreciado o banquete da última sepultura, mas é possível que fizesse algum trocadilho, tão bem ao seu estilo, não apenas sobre a entrada dos cães no cemitério, mas também sobre o traslado de seus despojos e a disputa por seus ossos, que cairiam bem, por milagre de caçarola, no mais saboroso dos guisados literários.

  • – O cadáver na obra machadiana

Como parece ter sido possível perceber, este texto não é dedicado ao verme que primeiro roer as frias carnes dos cadáveres dos leitores, apenas para lembrar, com alguma malícia disfarçada, das “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, e sobre as diversas vezes em que a palavra cadáver lá apareceu mencionada, menos como memória do que advertência explícita em tinta, cruz e caveira.

 

Antes, o presente ensaio é dedicado aos túmulos violados ou quase violados, neste último caso como ocorreu ao próprio Machado de Assis e à sua amada Carolina, no episódio da mudança de sepultura no cemitério São João Batista, como denunciado tantas e tantas vezes por Carlos Drummond de Andrade.

 

Contudo, não desistam do texto, estimados leitores (presumindo, por óbvio, a pluralidade de intérpretes), ao menos não sem antes chegarmos de mãos dadas ao exato momento em que seja possível sentir o peso cortante da antessala mortuária, e também seu odor acre misturado ao cheiro de velas e mofo que invade o ambiente no apropriado momento imaginário, adiante aduzido a partir das lentes de Machado de Assis, agora o escritor defunto, ou defunto escritor, nas exatas palavras contidas no primeiro capítulo das “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: um autor defunto; um defunto autor.

 

Por questões que seria prescindível recordar, como a limitação inerente a um breve ensaio, iremos abordar o tema morte, preferindo o (re)corte cadavérico, não sobre todo o cânone machadiano, mas alguns poucos pontos em que seja possível refletir sobre o tema com maior liberdade e alguma amplitude.

 

Embora a expressão morte seja a mais frequente na obra machadiana, com diversas conotações, por razões óbvias e, sob as lentes deste ensaio, iremos refletir sobre a expressão “cadáver” (ou a também bastante utilizada palavra “defunto”) na obra machadiana, em especial os romances, começando por Dom Casmurro (1899), que no capítulo LXXXV e seu sugestivo título (O defunto), guiam nossos olhos no momento da descrição do cadáver de Manduca, cuja aparência Machado colocou na boca de Bentinho.

 

Feio, leproso, e que era ruim de olhar, mas a atração mórbida guiou Bentinho: “Quando eu vi, estendido na cama, o triste corpo daquele meu vizinho, fiquei apavorado e desviei os olhos. Não sei que mão oculta me compeliu a olhar outra vez, ainda que de fugida; cedi, olhei, tornei a olhar”. O pai havia dito antes, sobre a morte do filho: “foi bom que morresse”. Um conflito toma o peito de Bentinho, pois vinha passando pela rua, alegre, após avistar Capitu, agora contrastado com o momento fúnebre: “se o Manduca esperasse algumas horas para morrer; nenhuma nota aborrecida viria interromper as melodias da minha alma. Por que morrer exatamente há meia hora? Toda hora é apropriada ao óbito; morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde”.

 

Outro momento fúnebre relevante foi descrito no capítulo IX de Quincas Borba (1891), quando Rubião reflete sobre Quincas Borba: teve “Rubião um pensamento horrível. Podiam crer que ele próprio incitara o amigo à viagem, para o fim de o matar mais depressa, e entrar na posse do legado, se é que realmente estava incluso no testamento. Sentiu remorsos. Por que não empregou todas as forças para contê-lo? Viu o cadáver de Quincas Borba, pálido, hediondo, fitando nele um olhar vingativo; resolveu, se acaso o fatal desfecho se desse em viagem, abrir mão do legado”.

 

Na mesma obra, outro momento fúnebre de relevo, representado pelo sonho descrito no capítulo CLXI, quando Sofia adormece e tem uma visão que começa doce e se converte num pesadelo, quando o sonhado romance com Carlos Maria se converte na morte deste último: “apunhalaram Carlos Maria e deitaram o cadáver ao chão. Depois, um deles, que parecia ser o chefe de todos, tomou o lugar do defunto, tirou a máscara e disse a Sofia que se não assustasse, que ele a amava cem mil vezes mais que o outro. Logo em seguida, pegou-lhe nos pulsos e deu-lhe um beijo, mas um beijo úmido de sangue, cheirando a sangue”.

 

Já em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, o tema aparece de maneira mais expressiva e abundante, como quando disse, no capítulo XXIV (Curto, mas alegre), que “a franqueza é a primeira virtude de um defunto”, pois em vida as convenções sociais trazem a amarra da hipocrisia, mas a morte seria libertadora: “já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte”, e também no capítulo XXIII (Triste, mas curto), quando observa: “Era a primeira vez que eu via morrer alguém. Conhecia a morte de oitiva; quando muito, tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadáver”, citando ainda alguns “tipos” de morte: “morte aleivosa de César, a austera de Sócrates, a orgulhosa de Catão”.

 

E claro, a brincadeira que não consegue esconder as linhas destacadas sobre uma peculiar visão da morte, que renderia um inventário “triste” e “vulgar”, no capítulo XLV da mesma obra, ao descrever um velório:

 

“Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’água benta, o fechar do caixão, a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as correias, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um… Isto que parece um simples inventário, eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo.”

 

Evidentemente, o cânone machadiano possui inúmeras outras alusões a eventos fúnebres, defuntos, cadáveres, mortes e tantas outras questões que poderiam se relacionar aos referidos temas, de maneira direta ou indireta, mas as que aqui se encontram citadas servem para apontar algumas poucas características sobre o que Machado de Assis poderia pensar sobre a experiência do falecimento e os rituais fúnebres, algo triste e comum, que não atrai a nota do extraordinário e também não admite celebrações, uma espécie de travessia realizada com signo de liberdade, neste último caso rompendo as amarras das convenções sociais que teriam o condão de afastar a hipocrisia, nas entrelinhas que abrigam visão que iguala a todos os que cruzam a soleira desta protetora de mistérios: a morte.

 

Chama-se mais do que saudade, e menos que ternura, a aura descrita pelo próprio Machado de Assis ao se recordar de José de Alencar, de quem disse: “A morte veio tomá-lo depressa. Jamais me esqueceu a impressão que recebi quando dei com o cadáver de Alencar no alto da eça, prestes a ser transferido para o cemitério (…) não me podia acostumar à ideia de que a trivialidade da morte houvesse desfeito esse artista fadado para distribuir a vida.”(44)

 

Pujol descreve, ainda, alguns aspectos da morte de Machado de Assis, acometido por frequentes epilepsias, convulsões “que às vezes o salteavam na rua”, quando sobreveio outro mal: “uma úlcera cancerosa na boca, flagelo cruel e voraz que havia de desfazer em sânie aquele pobre corpo”, prosseguindo: “estava irremediavelmente condenado à morte”, e assim “recebeu a sentença resignado e sereno”, para prosseguir com uma confissão feita a Lindolfo Xavier, seu companheiro de trabalho por longos anos no Ministério, a quem disse: não saber “por que razão a sociedade não adota ainda a eliminação dos velhos enfermos”.(45)

 

E no momento final, naquele átimo que o separava da travessia, num imaginado umbral entre a vida e a morte, perguntou-lhe Guiomar “se queria que viesse um padre… – Não quero, murmurou ele. Não creio… Seria uma hipocrisia, e na sua face de mármore deslizaram as duas últimas lágrimas. Daí a nada estava morto” (46). Vida e obra de Machado parecem ter uma estranha ligação com a morte, inclusive a sua própria. Mas há uma pouco recordada menção poética ao descanso pós-morte do homem forte de Portugal no século XVIII, quando Machado de Assis deixou registrado para a eternidade muito de sua visão, embora de jovem poeta, sobre o respeito aos mortos.

 

(Continua na próxima edição)

 

Notas

  1. Ensaio elaborado no 1º semestre de 2024 durante a disciplina Seminário Avançado de Estudos Literários Comparados (oferecida pelo estimado professor Wiliam Alves Biserra, a quem agradeço o gentil convite para acompanhar a disciplina, na linha de pesquisa estudos literários comparados), no projeto de pesquisa Literatura e Direito, do Mestrado e Doutorado em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, do Instituto de Letras da Universidade de Brasília – UnB. Também é uma singela homenagem ao acadêmico Vamireh Chacon de Albuquerque Nascimento (1934-2023), que ocupou a cadeira nº XV da Academia Brasiliense de Letras (ABrL), cujo patrono é Machado de Assis, título do prêmio que recebeu em 2014, pelo conjunto de sua obra, por parte da Academia Brasileira de Letras (ABL), homenagem estendida ao sucessor, professor Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy, eleito no dia 06/02/2024 para continuar as inúmeras e pesadas tradições machadianas. Por fim, uma igualmente breve homenagem ao escritor e acadêmico José Rossini do Couto Corrêa, poeta e amigo de Chacon e de Arnaldo: “Docto pectore clausa latet”. Por fim, um agradecimento especial à professora Dirce Salomé, pelo convite de publicação.
  2. A descrição de um amigo comum de Machado e Carolina: “Na sala de jantar havia uma cadeira de balanço dupla, em que duas pessoas se sentavam, uma para cada lado, e se podiam balançar ao mesmo impulso, olhando-se de frente. Era aí que geralmente se assentavam os dois, nas horas do tocante idílio, que durou até à morte da esposa”. Cfr. OCTAVIO, Rodrigo. Machado de Assis, em: Minhas Memórias dos Outros (Nova Série). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p. 71.
  3. Referência feita às duas cartas publicadas em edição comemorativa pela Academia Brasileira de Letras, sob o selo “Guardados da Memória”, escritas por Machado de Assis e endereçadas a Carolina Augusta Xavier de Novaes Machado de Assis, sem menção ao ano exato, mas seguramente pertencentes à época do noivado, e nas quais é possível ler belas passagens como essa: “Obrigado pela flor que me mandaste; dei-lhe dois beijos como se fosse em ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma”.
  4. Aqui a menção se refere ao uso feito pelo escritor Virgílio Moretzsohn Moreira, ao dizer: “Vivemos uma espécie de ucronia psicológica e intelectual, atrasados e avançados ao mesmo tempo, ganglionar Brasil que vem de Portugal, que vem do amálgama de dois fragmentos – o leonês e o sarraceno”. Cfr. MOREIRA, Virgílio Moretzsohn. Pompéia nas Orlas da Eternidade. Em: POMPÉIA, Raul. Crônicas do Rio. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1996, p. 10.
  5. Aqui se recorre às palavras de Brito Broca no prefácio ao fascinante Memorial de Aires, na edição de 1961, ao citar a troca de cartas entre Machado e Nabuco com uma íntima confissão sobre a morte de Carolina: “Foi-se a melhor parte de minha vida e aqui estou só no mundo (…) Note que a solidão me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi- la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. Éramos velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor, primeiro porque não acharia ninguém que melhor me ajudasse a morrer; segundo porque ela deixaria alguns parentes que a consolariam das saudades e eu não tenho nenhum”. Cfr.: BROCA, Brito. Machado de Assis e a Política mais outros estudos. São Paulo: Polis, 1983, p. 221.
  6. Veja-se a conhecida descrição de Rodrigo Octavio, dizendo que Machado deitou-se para morrer: “Não foi no seu quarto de dormir, no sobrado de sua casa, mas em pequeno quarto que dava para a sala de jantar (…) a casa esteve sempre cheia (…) Morreu perfeitamente lúcido. Fui testemunha desse trágico momento. Machado se afligia do incômodo que sua demorada agonia estava dando a seus amigos. Olhava-nos compungido; dominava a expressão das dores que sofria para não nos afligir mais; e, quando podia articular umas palavras, era para pedir desculpas da demora que estava tendo naquele fim”. Cfr. OCTAVIO, Rodrigo. Machado de Assis, em: Minhas Memórias dos Outros (Nova Série). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p. 72.
  7. BARBOSA, Rui. Discurso de Rui Barbosa pronunciado na Academia Brasileira, junto do ataúde de Machado de Assis, aos 29 de setembro de 1908, minutos antes de partir o féretro para o cemitério de S. João Batista. In: Obras Completas de Rui Barbosa, Discursos Parlamentares. Volume XXXV, Tomo 1, (1908): Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1967, p. 135.
  8. A máscara mortuária permaneceu desaparecida por longos 26 anos até que, em 1934, após a depredação do estúdio do escultor, o artefato foi localizado e enviado ao museu do Instituto Histórico. Cfr. OCTAVIO, Rodrigo. Machado de Assis, em: Minhas Memórias dos Outros (Nova Série). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p. 73.
  9. A doença aqui mencionada é ocular, no livro referido, datado de 1939, publicado 5 anos após o aparecimento da máscara mortuária, que a utiliza na capa aplicando ênfase, por evidente, aos olhos, e além de expressamente utilizar o caso de Machado de Assis para falar sobre a nobre causa da saúde dos olhos, mencionando o escritor nas três conclusões que ocupam a última página do livro. Cfr. CONDE, Herminio de Brito. A tragédia ocular de Machado de Assis. Rio de Janeiro: A noite, 1939, p. 121.
  10. CUNHA, Euclydes Rodrigues Pimenta da. A última visita, Jornal do Commercio, de 30 de setembro de 1908.
  11. É provável que Machado de Assis, se pudesse escrever sobre o itinerário de seu próprio cadáver, inseriria a narrativa na boca de algum bacharel em direito que começaria algumas frases em latim castiço, distinguindo defuntos & “de cujus”, com ar professoral: “de cujus sucessione agitur”, de cuja sucessão se trata, teria escrito.
  12. O crédito da imagem é atribuído a Adriana Caldas. Cfr.: Jornal do Brasil, caderno “Cidade”, de 22/04/1999, p. 18.
  13. A partir dos diálogos do interessante capítulo CXVII, em Quincas Borba. Cfr. MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Quincas Borba, em: Obra Completa, Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994.
  14. Não obstante, o anterior estudo de Alcides Maya, pioneiro, lida com questões ligadas a Machado de Assis e o tema do humor, que cita, antes dele, o livro de Carlos Magalhães de Azeredo sobre a crítica ao humor de Machado Cfr.: MAYA, Alcides. Machado de Assis (Algumas notas sobre humour). Rio de Janeiro: Editora Jacinto Silva, 1912; AZEREDO, Carlos Magalhães de. Homens e Livros. Rio de Janeiro: Garnier, 1902.
  15. MATOS, Mário. Machado de Assis: o homem e a obra, os personagens explicam o autor. São Paulo: Editora Nacional, 1939, p. 439.
  16. MIGUEL-PEREIRA, Lúcia. Machado de Assis (Estudo Crítico e Biográfico). São Paulo: Editora Nacional, 1936, p. 135-136.
  17. Mencione-se a descoberta contemporânea de um comovente texto apócrifo, atribuído a Machado de Assis, chamado “Lembranças de Minha mãe” (escrito conforme original da época: “mãi”), publicado na segunda edição da “Revista Luso-Brasileira” em 1860. Nele se misturam lembranças felizes e muita dor e lamento, como na seguinte frase: “quando mais me era precisa a sua existência, a cruel sorte m’a roubou; oh! Quanto sofro hoje que isolado do mundo, cansado da vida, não encontro o seu seio para esconder as minhas lágrimas, e nem os seus hinos para adoçar-me as dores”. Há alguma proximidade com a conhecida poesia “Minha mãe”, publicada por Machado de Assis quatro anos antes. Na mesma época, os poemas “Saudades” e “Lágrimas” são representativos do apego ao tema, demonstrando o sofrimento do jovem Machado. Cfr. MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Minha mãe. Marmota Fluminense, n.º 767, 2 set. 1856; MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Saudades. Marmota Fluminense, 01 mai. 1855; MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Lágrimas. Marmota Fluminense, 1856.
  18. ARAÚJO, Hugo Bressane de. O aspecto religioso da obra de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Cruzada da Boa Imprensa, 1939.
  19. BRANDÃO, Octávio. O niilista Machado de Assis. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1958; BRANDÃO, Octávio. A penúria da crítica, em: Revista Brasiliense, 23, maio/junho 1959.
  20. João Alberto da Costa Pinto, em ensaio provocante, finaliza com uma necessária reflexão sobre aqueles que exigem algum comprometimento marxista de Machado de Assis: “Fica uma indagação: como Machado de Assis poderia conhecer, citar e ser um marxista, como lhe pedia Octávio Brandão, se, por exemplo, o Manifesto do Partido Comunista só foi traduzido no Brasil em 1924, pelo próprio Brandão?”, Cfr.: COSTA PINTO, João Alberto da. Machado de Assis lido pelos comunistas brasileiros (1939-1958), Revista Historia Actual, 51 (1), p. 65-74, 2020, p. 73.
  21. SARNEY, José. Apresentação: Em: MATOS, Miguel. Código de Machado de Assis. São Paulo: Migalhas, 2021, p. 7.
  22. ROMERO, Sílvio. Machado de Assis. Estudo comparativo de Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Laemmert & C., 1897.
  23. Entre outros textos jornalísticos, este que foi um crítico que tentava se desviar dos rótulos de “machadólatra” ou de “machadófobo”. cfr.: GRIECO, Agrippino Viagem em tôrno a Machado de Assis. São Paulo: Livraria Martins, 1969; GRIECO, Agrippino. Machado de Assis. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1959.
  24. Aqui, uma vez mais, o apelo à imagem do trabalho de Mario Matos, em antiga chave interpretativa: “Do ponto de vista mecânico, se é possível dizer assim, a originalidade aventa-se de muitas maneiras (…). Faz lembrar o curso da corrente de água em terreno acidentado: ora corre facilmente, ora volteia; umas vezes para, outras se precipita; aqui murmura, mais adiante cala. Em certos pontos parece arrepender-se do rumo traçado e arripia caminho, para depois regressar de novo à diretriz por onde ia seguindo. Em verdade foi dito que o símbolo de Machado de Assis é o ziguezague. A linha curva. A sinuosidade. Escreve ‘carangueijando’”. Cfr. MATOS, Mário. Machado de Assis: o homem e a obra, os personagens explicam o autor. São Paulo: Editora Nacional, 1939, p. 105.
  25. Em suas palavras: “o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…”. Cfr. MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Memórias Póstumas de Brás Cubas, em: Obra Completa, Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994, p. 78.
  26. São mencionados: Lêdo Ivo, Evandro Lins e Silva, Arnaldo Niskier, Josué Montello, Antônio Olinto, Tarcísio Padilha, Murilo Mello Filho, Cândido Mendes e o padre Fernando Bastos de Ávila.
  27. Excelente texto e bastante rico em detalhes iconográficos de Daniel Piza. Cfr.: PIZA, Daniel. Machado de Assis, um gênio brasileiro, São Paulo: Imprensa Oficial, 2006, p. 242.
  28. BRASIL. Folha de São Paulo, caderno “Ilustrada”, de 09/04/1999.
  29. JORGE, Fernando. A Academia do Fardão e da Confusão: a Academia Brasileira de Letras e os seus “imortais” mortais. São Paulo: Geração Editorial, 1999, p. 414-418.
  30. ANDRADE, Carlos Drummond de. Sonho, em: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 09/09/1958.
  31. ANDRADE, Carlos Drummond de. Um túmulo, em: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 03/10/1958.
  32. Além disso, outros pontos são mencionados, como questões sentimentais aos descendentes, junto ao desrespeito da vontade explícita de Machado de Assis em ser enterrado no jazigo perpétuo n. 1359, e em nenhum outro lugar.
  33. ANDRADE, Carlos Drummond de. Machado, não, em: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30/08/1959.
  34. Cita, como parece um importante resgate, trecho de manifestação contrária do acadêmico Alceu Amoroso Lima: “Já são tantas as vaidades e futilidades de que cercamos em vida a condição acadêmica, que se salve pelo menos a humildade da morte”, terminando com frase lapidar, dando título a crônica, ao melhor estilo drummondiano: “Levante a Academia o seu grandioso sarcófago e ponha dentro quantos almejem magnificência fúnebre. Machado, não”.
  35. ANDRADE, Carlos Drummond de. O jazigo de Machado de Assis, em: O Observador no escritório: páginas de diário. Rio de Janeiro: Record, 1985, p. 118.
  36. De fato, Drummond faleceu em 1987, mas o traslado também não ocorreu em 1989, e Austregésilo de Athayde morreria logo depois, em 1993, sem ver realizada a transferência, que ocorreria, entretanto, em 1999.
  37. ANDRADE, Carlos Drummond de. Cemitério, em: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 15/09/1959.
  38. São as palavras de Drummond, que convém repetir: “Mas, se a iniciativa é estritamente econômica, por que incluir nela o túmulo já pago de Machado de Assis e sua esposa? E pago pelo próprio velhinho, que em 27 de outubro de 1904, seis dias após o sepultamento de Carolina, requeria à Santa Casa a perpetuidade do carneiro, como consta no arquivo da rua Santa Luzia! Aliás, é bom que alguém da Academia veja esse documento, até agora inédito. Lá diz homem previdente, inimigo da promiscuidade, que o jazigo 1359 serviria ‘oportunamente para sepultura unicamente do concessionário.’ Parece até que receava o futuro edifício de apartamentos mortuários, em que se cogita de instalá-lo como principal morador”.
  39. Chamava-se Benoît-Constant Coquelin (1841-1909).
  40. ANDRADE, Carlos Drummond de. Machado de Assis: Mau garfo, Revista Leitura, março, 1958, p. 27.
  41. CAMPOS, Humberto de. Discurso de posse como terceiro ocupante da Cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras, da Academia Brasileira de Letras, eleito em 30 de outubro de 1919, empossado a 8 de maio de 1920.
  42. OCTAVIO, Rodrigo. Machado de Assis, em: Minhas Memórias dos Outros (Nova Série). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p. 54.
  43. MENESES, Emílio Nunes Correia de. Discurso de posse como segundo ocupante da Cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 15 de agosto de 1914, empossado a 24 de abril de 1918.
  44. PUJOL, Alfredo. Machado de Assis. Curso literário em sete conferências na Sociedade de Cultura Artística de São Paulo. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2007, p. 296.
  45. PUJOL, Alfredo. Machado de Assis. Curso literário em sete conferências na Sociedade de Cultura Artística de São Paulo. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2007, p. 306-307.
  46. PUJOL, Alfredo. Machado de Assis. Curso literário em sete conferências na Sociedade de Cultura Artística de São Paulo. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2007, p. 308.

 

 

Fotografia de Thiago Aguiar de Pádua

 

Thiago Aguiar de Pádua é pesquisador da temática “Literatura & Direito”, professor universitário, doutor em direito, ensaísta e advogado, ocupante da cadeira nº XXIII da Academia Brasiliense de Letras (ABrL), patroneada por Aluísio Azevedo.

Qual é a sua reação?

Gostei
0
Adorei
0
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.

More in:Cultura