
Era uma vez o menino que nasceu numa aldeia, tinha olhinhos de gato e sorriso de golfinho. Certo dia, encontrou a menina do mar com olhos brilhantes como a Lua. A menina escrevia em todas as folhas que encontrava e o menino disse:
– Tu escreves muito e não consegues escrever mensagens curtas.
-Arrumo os sentimentos quando escrevo.
-É melhor ir andar de bicicleta. Mal não te fazia.
Foi então que o menino e a menina decidiram pedalar juntos até à praia onde o mar deixava no areal búzios e conchas com palavras misteriosas ditas pelos antigos habitantes do litoral. Durante 29 dias e 28 noites, com uma alegria do tamanho do céu, o menino e a menina pedalaram para chegar à praia. Atravessaram os campos com milho, depois os campos de girassóis e, por fim, o pinhal dos pinheiros mansos com aroma de maresia. Encantados com a beleza das diferentes cores que a mudança de paisagem lhes trazia, o menino e a menina sorriam com o olhar e nos momentos de pausa paravam para dançar no meio dos caminhos. Quando à noite dormiam debaixo das árvores, durante as 28 noites, a menina cantava baixinho canções sobre sereias e o menino e a menina adormeciam embalados com imensa paz de espírito.
No final da tarde do vigésimo nono dia, o menino e a menina chegaram à praia dos búzios e das conchas. O céu quente estava pintado com tons de laranja e lilás. Felizes, sentaram-se no areal e a menina disse:
-Um dia vou mergulhar no mar e ser sereia.
-Não gostas de ter pernas? – perguntou o menino surpreendido.
-Gosto, mas não é a melhor coisa do mundo.
-Não acredito que ter uma barbatana é melhor!
-As pessoas com pernas andam pelo mundo a fazer muita confusão. Chegaram com as suas pernas às florestas para as cortar e queimar. Vão com as suas pernas ao mar pescar mais peixe do que precisam. Andam para fazer guerras, furar a terra para tirar petróleo. As pessoas não conseguem usar bem as pernas e a cabeça ao mesmo tempo.
-As pessoas com pernas também fazem coisas boas. Construíram cidades, criaram máquinas para facilitar o trabalho, inventaram o carro e o avião.
-Tudo o que disseste são coisas que não foram boas para a Natureza. Prefiro ter menos coisas e ter mais Natureza. As sereias vivem assim.
-Tu gostas de escrever e o papel fica todo estragado com a água. No mar não vais escrever.
-As sereias têm amigas na terra que lhes trazem papel e quando se encontram nas rochas as sereias escrevem fora de água.
-Tu gostas de dançar e sem pernas não podes dançar.
-Posso, posso! As sereias dançam muito bem dentro do mar. Elas são muito habilidosas com a cauda, a barbatana e os braços.
-Se tu o dizes… – disse o menino amuado.
-Não fiques assim. O mar é lindo!
-Parece que gostas de me contrariar…
-Podemos ser amigos e gostar de coisas diferentes. A vida é mais bonita quando as diferenças se encontram e se entendem.
De repente, uma onda suave com espuma muito branca trouxe até ao areal várias conchas e búzios multicolores.
-Anda! – disse a menina levantando-se – Vamos descobrir as palavras.
Juntos correram para receber as conchas e os búzios oferecidos pela onda. A menina apanhou uma concha branca e rendilhada muito bonita, acariciou-a de mansinho e a concha sussurrou “soli-soli”. O menino apanhou o maior búzio que viu, encostou-o ao ouvido e ouviu uma voz doce dizer “só um chipitinho”.
-Ai que isto fala! – assustou-se e maravilhou-se com os olhinhos de gato bem abertos.
-O que disse o búzio?
-Não sei. Ouve tu.
A menina recebeu o búzio e ouviu a frase com atenção.
-Ah! O búzio está a dizer “só um bocadinho”.
Curioso com aquelas palavras e frases guardadas nas conchas e nos búzios, o menino pediu à menina que lhe dissesse todos os significados que conhecia sobre tudo o que cada um ouvia. O menino ficou a saber que “soli-soli” significa belo dia de sol, “maritó” mar agitado, “além do ali” vai para muito longe, “ximbinho” abraço amoroso e “uvas e ameixas” só coisas boas. Foram muitas outras as palavras reveladas. A menina guardava as palavras que mais gostava na sua memória, naquela parte da memória mais ampla e segura. Quando dentro de si as palavras antigas conversavam com as ideias novas, os olhos da menina brilhavam como uma super Lua Cheia e os seus contos, os seus poemas fluíam como num rio de ideias iluminado.
Enquanto ouviam as palavras trazidas pela onda, o laranja e o lilás do céu deram lugar ao manto da noite com a estrela da tarde a iniciar a mudança. O mapa das constelações apresentou-se.
-O céu estrelado tem tantas histórias! Podemos juntar as estrelas ao nosso gosto e criar formas, criar personagens. – disse a menina com o seu olhar de imaginação a passear pelas estrelas.
-Como se faz com as nuvens durante o dia?
-Sim, é isso! Olha, ali eu vejo um barco. – a menina apontou para o céu.
-Eu acho que é uma banana deitada.
A menina riu muito ao imaginar uma banana deitada numa almofadinha de veludo vermelho e um guarda a impedir que a banana fosse incomodada. O menino achou a ideia exagerada, mas também riu porque o riso da menina era tão genuíno, bonito e livre que lhe despertava a vontade boa de rir sem medo de nada e de mergulhar sem amarras no pensamento como uma águia a voar alto com olhar acutilante.
No meio das dunas acenderam-se as luzes das casas da praia.
-A luz da casa da minha tia está acesa. Lá a comida é sempre boa. Vem! Vais gostar.
O menino viu que a menina avançava destemida pelo caminho mal iluminado. Na sua aldeia as meninas não andam destemidas à noite pelos caminhos, mas a menina do mar era diferente. Ele gostava dessa diferença, mas também ficava um pouco incomodado com tamanha audácia. Sempre ouviu dizer que as meninas não são aventureiras, devem ser discretas e recatadas, rir baixinho e rezar muito. A menina do mar não seguia essas regras. Seria errado uma menina ser corajosa e cheia de audácia quando defendia as suas ideias? Mas, aquilo que é errado não é algo que faz mal? A menina não fazia mal, pelo contrário, gostava de partilhar a beleza das pequenas coisas e falava com toda a verdade do seu coração. O menino queria muito estar perto daquela maneira de ser, da possibilidade de pensar e agir de forma diferente, mas ao mesmo tempo não sabia como fazer a ligação entre a novidade e as velhas regras da sua aldeia, as velhas opiniões sobre tudo. O menino não sabia que a ligação só poderia ser feita se ele compreendesse que o respeito por si e pelo próximo não dependia das regras da aldeia. O menino da aldeia estava a descobrir com a menina do mar que, afinal, não há um padrão certo para definir o que é ser uma boa menina e um bom menino. As boas ações nascem dos bons sentimentos, da boa relação entre o que fazemos e pensamos com respeito por si e pelo próximo, mesmo quando tudo isso acontece sem corresponder às regras da sua aldeia. Apesar da aparição desta nova perspectiva, o menino temia a mudança por recear não ser visto como o menino exemplar da sua aldeia. Por isso, mesmo sem querer pensar exatamente assim, o menino continuava sem saber se era mesmo possível ser-se diferente daquilo que lhe ensinaram e continuar a ser aceito pelas pessoas que determinavam o seu crescimento.
Ao ver o menino parado no meio do caminho a menina perguntou:
-Não vens?
O menino saiu das suas dúvidas e seguiu a menina. A porta da casa da tia estava entreaberta e a menina anunciou:
-Tia, temos visitas!
A tia aproximou-se com cheiros de temperos do mar e sorriso calmo de sabedoria, abriu os braços e recebeu a sobrinha com um confortável ximbinho.
-Trazes um novo amigo. – disse a tia observando o menino – Este pequeno vem de longe, vem de terra sem mar. Estou certa, filha?
-Sim, a tia está certa.
-Sê bem-vindo.
-Obrigado, senhora. – disse o menino envergonhado.
-Ele é de uma aldeia com campos de milho.
-Passa lá água viva?
-Passa. – respondeu a menina com vivacidade – A água do rio é transparente e fresquinha.
-Gostas de mergulhar no rio da tua aldeia? – perguntou a tia.
-Gosto. Gosto de ir com os meus amigos.
-És um peixinho de rio?
-Não sei… Nunca tinha pensado nisso.
-Ó tia, achas que ele pode ser um peixinho do mar ou um tritão?
-Tritão?! O que é isso? – o menino perguntou intrigado.
-Tritão é o masculino de sereia. – respondeu a tia.
-Ah! Não sabia que eles existiam.
-Seria muito chato se o povo do mar fosse um grupo de sereias sem tritões. Queres ser um?
-Não sei se quero isso.
-Tens tempo para descobrir a resposta. Na vida podemos mudar de opinião até sobre nós. Agora são horas de jantar. – disse a tia pondo a mesa.
Sentaram-se os três e comeram a apetitosa caldeirada de peixe. Pela primeira vez o menino comeu aquele prato típico das zonas costeiras e ficou deliciado. À sobremesa o menino provou uma torta de laranja muito húmida e saborosa. Foi um jantar de novidades não só para o paladar; a tia contou como a sua sobrinha sobreviveu ao naufrágio num dia de maritó, de mar agitado.
O pai da menina era pescador e gostava de passear com a filha no barco. Ensinou-a a nadar e a mergulhar de olhos abertos. Quando o pai entrava no mar para pescar, a menina ficava contrariada em casa da tia. Pescar com o pai no mar alto era o maior desejo da menina. Movida por esse desejo, no início de uma certa madrugada ela acordou mais cedo e escondeu-se no barco do pai. O pai acordou um pouco depois, foi para o barco e remou na direção do mar alto sem saber que a filha estava dentro do barco. Ao perceber que estava longe da costa, a menina saiu do esconderijo. O pai sabia como a sua filha era persistente e decidida, contudo ficou muito preocupado, o mar tinha rebeldias impossíveis de antever pelos pescadores e as grandes vagas não davam tréguas. Assim aconteceu no despertar da manhã. Inesperadamente, debaixo do céu limpo, o mar agitou-se ferozmente e foi impossível manter o barco na superfície das ondas. Num desespero de cortar a respiração, pai e filha caíram ao mar.
Na praia a tia viu o mar revolto, pressentiu a morte do irmão e abafou o grito sem receber sinais sobre o paradeiro da sobrinha. Todos os que estavam na praia viram como se formou uma onda gigante bem alta a dirigir-se para terra e todos pensaram que a onda iria engolir casas e pessoas. A onda nada engoliu, a onda entregou ao areal o corpo da menina.
A menina estava roxa, o corpo estava enrolado numa rede de pesca e um anzol estava preso na coxa direita.
-Está morta! A menina está morta! – gritou uma viúva de pescador.
O Mestre, o mais valente dos pescadores, aproximou-se do corpo:
-A menina não vai morrer.
Todos o observavam incrédulos. O Mestre ignorou os olhares, cortou a rede com a sua navalha e libertou o corpo; com precisão fez respiração boca-a-boca e massagem cardíaca. Espantados e comovidos, todos viram a menina recuperar a vida. Alguém disse:
-É a renascida do mar!
A tia aconchegou a sobrinha nos braços, levou-a para casa, cuidou dela com muito amor. Na coxa direita ficou a cicatriz provocada pelo golpe do anzol. A menina tinha cinco anos no dia do seu renascimento.
O menino da aldeia ouviu o episódio do renascimento com muita atenção e no final perguntou à menina:
-E a tua mãe? Onde está?
-A minha mãe morreu quando eu nasci. Foi um parto muito difícil. – respondeu a menina com muita naturalidade.
A resposta solta e sem hesitação inquietou o menino. A sua mãe era para si a pessoa mais importante, imaginar a vida sem ela era uma grande tristeza. A mãe ocupava um lugar muito especial no seu coração e ficava muito aflito quando fazia asneiras porque não queria desiludir a mãe. A tia percebeu a agitação interior do menino.
-Achas estranho pensar que se pode viver sem a mãe. Vejo como gostas muito da tua. A minha sobrinha está bem e a tua mãe também. Não te preocupes, ela gosta muito de ti e vai receber-te com muita alegria quando voltares para casa.
O coração do menino ficou mais tranquilo e com calma conseguiu perceber que a tia era a mãe do coração da menina do mar. O amor da tia pela sobrinha dava-lhe todo o conforto e confiança que ela precisava para continuar a ser uma menina com esperança e olhar brilhante. O menino da aldeia aprendia perto do mar como o amor tem vida própria, não é e não pode ser definido pelas regras criadas por pessoas cheias de autoridade e vazias de emoção. O menino aprendeu que o primeiro conforto emocional pode não ser dado pela mãe, pode ser dado pelo pai, pela tia ou por outra pessoa de coração bom.
Depois do jantar e da conversa, o menino viu uma harmónica dourada pousada numa cómoda.
-Que bonita! É sua? – perguntou o menino à tia.
-Era do meu irmão. Sabes tocar?
-Gostava de saber.
-Se quiseres, podes experimentar.
-Tenta! – entusiasmou-se a menina – Podes ter o dom da música.
O menino pousou a mão na harmónica e sentiu uma energia especial percorrer-lhe o corpo. Aproximou-a dos lábios e feliz tocou com harmonia e afinação. Ficou surpreendido com a sua aptidão musical e orgulhoso de si mesmo.
-Tens mesmo o dom da música! – disse a menina aplaudindo emocionada.
Nessa noite a menina não cantou antes de adormecerem, foi o menino que tocou uma música de embalar na harmónica e adormeceram de mãos dadas partilhando a nova alegria.
Na manhã seguinte acordaram prontos para viver um dia de brincadeira na praia. O mar estava calmo, mergulharam e nadaram sem pressa para sair da água. Correram pelo areal como se fossem heróis. Na areia fizeram castelos, túneis e pontes. Ouviram mais palavras antigas nas conchas e nos búzios. Na poça d’ água atrás duma rocha encontraram estrelas do mar. A menina estava a explicar ao menino que as estrelas do mar podem viver mais de 30 anos quando um caranguejo o feriu com a tenaz.
-Ai! – gritou o menino com uma dor forte e aguda caindo na poça de água.
A menina viu um caranguejo-do-diabo afastar-se.
-Socorro! Socorro! Alguém nos ajude! – gritou a menina enquanto dava palmadinhas no rosto do menino para impedir que adormecesse.
Um pescador acudiu e levou o menino ao colo para a casa da tia. A menina correu à frente do pescador para chegar o mais rápido possível à casa.
-Tia, tia! Ele foi mordido por um caranguejo-do-diabo!
A tia sabia como podia ser mortal uma mordida daquelas. Rapidamente juntou os ingredientes necessários e preparou o antídoto. Deitado na cama com a repentina febre elevada, a tia forçou o menino a engolir o antídoto. Os olhos cor de mel do menino mudaram de cor e ficaram castanhos, um castanho tão escuro que a íris parecia afogada numa mancha negra.
-Ai, tia! Os olhos estão pretos! Ele vai morrer?
-Calma. O remédio está a fazer efeito. Vai ser grande a luta entre a vida e a morte.
-Eu quero ajudá-lo. O que posso fazer, tia?
-Podes ficar ao lado dele e dar-lhe carinho. O carinho ajuda a ligar a alma ao corpo.
A menina sentou-se ao lado do menino e começou a cantar baixinho como sabia que ele gostava. Tirou um dos brincos, colocou na mão do menino, ele suspirou fundo e apertou-o na mão como se o brinco fosse vital, fechou os olhos como se fosse dormir. A menina cantou, cantou, cantou e o tempo passou. Sem saber quanto tempo depois, o menino abriu os olhos e viu a sua mãe.
-Meu rico filho! – disse a mãe acariciando-lhe o rosto.
-Mãezinha… – sussurrou a voz combalida do menino.
-Foste muito valente. Lutaste muito contra a malvada da morte.
-Onde está a menina, mãezinha? – perguntou ele muito devagarinho.
-A tua prima volta já.
-Não é a prima, é a menina do mar. Ela ajudou-me. Onde está?
-Ó meu querido filho… Tu sonhaste com uma menina. Foi isso que aconteceu.
O menino ficou baralhado:
-Não, mãezinha… Ela cantava para mim.
-Então, foi um sonho muito bonito que te curou. Agora abre a tua mãozinha. Ninguém conseguiu abrir a tua mão durante 29 dias.
O menino abriu a mão e o brinco em forma de estrela apareceu.
-É o brinco da menina! – disse o menino sorrindo – Veja, mãezinha. Ela estava comigo.
-Cruzes, credo! Que bruxedo é este! – disse a mãe tirando o brinco da mão do filho.
Com fúria a mãe abriu a janela e atirou o brinco para longe. O menino sentiu uma tristeza enorme, ficou com raiva, quis fugir a correr mas estava demasiado fraco e nem conseguia colocar-se de pé. Começou a chorar sem conseguir parar.
-Isso é o efeito da febre. Vai passar. Chorar por causa dum brinco é coisa de menina. Que o teu pai não te veja com esses modos! Vou buscar uma canja e quero-te sem fitas quando voltar.
A mãe saiu do quarto e o menino chorou ainda com mais revolta. Naquele momento ele sentiu-se traído pela vida. Ele sabia que a menina do mar existia, não era bruxedo, o brinco era a prova e agora não sabia como comprovar. Pensou que ninguém iria acreditar em si e por isso não valia a pena falar sobre as emoções. Baralhado, só conseguia pensar que as emoções fortes magoam, ninguém o ajudava a aliviar a dor e por isso o melhor seria não sentir esse tipo de emoções nem pensar nelas. A mãe só podia ter razão, os sentimentos e as lágrimas são coisas de menina. Num ápice limpou as lágrimas e começou naquele dia a crescer em negação emocional.
Na aldeia a recuperação do menino foi tema de conversa. A febre rara dos 29 dias tinha várias explicações: uns diziam que tinha sido picado por um inseto, outros descreviam como uma cobra mordeu o calcanhar e outros não duvidavam do efeito do bruxedo lançado por mau olhado. As boas línguas celebraram a recuperação como sendo uma bênção de Deus e as más línguas apontavam a mudança da cor dos olhos como sinal de uma alma capturada pelo Diabo. Independentemente das teorias explicativas, as pessoas elogiavam o bom comportamento do menino, o modo como honrava os pais e respeitava as tradições. Ninguém duvidava da sorte que o moço bonito teria com as raparigas.
O menino fez-se rapaz que não chora, rapaz da banda da aldeia. A música era o seu maior conforto interior. O rapaz fez-se homem capaz de se apaixonar mas não de amar, disponivel para experimentar vários prazeres oferecidos ao sexo masculino. Fez-se o engenheiro Eurico exímio na manutenção de máquinas, eficiente a programar e reprogramar equipamentos, a encaixar e a desencaixar peças.
Ter uma família fazia parte do retrato completo do homem bem sucedido. Ela era bonita e da aldeia. Mesmo sem amor, Eurico casou-se com a bonita da aldeia e formou uma família. Dedicou-se aos filhos. Os filhos eram o seu encanto, o seu encontro com o sentido dos sacrifícios exigidos pela vida. Na tentativa de manter a família unida, esticou um casamento instável e frágil até atingir a saturação. Os filhos continuaram a ser a sua prioridade, contudo o divórcio proporcionou-lhe tempo livre para investir na procura de prazeres vários. Novas paixões e novos encontros com a total valorização da liberdade sexual, tudo feito com escudo em relação à entrega emocional. Foi andando, foi vivendo entre os encontros da vida presencial e os proporcionados pelas apps. Foi procurando diferentes corpos femininos sem pensar se havia amor, apenas para garantir o conforto sexual necessário. Não lhe era difícil ignorar as consequências dos seus atos nas mulheres pelas quais passava. Mau foi encontrar uma mulher fora da aldeia, e fora das apps, que questionou o seu comportamento e lhe perguntou “sabes o que é responsabilidade emocional?”. Ele não sabia. Como poderia saber se lhe tinham dito desde pequenino que os sentimentos eram coisa de menina? Apenas conseguia dizer àquela mulher cheia de perguntas que sentia carinho sem ter sentimentos, gostava de estar confortável com ela e era tudo uma questão de instinto fálico, natureza do coito. Para ele, a mulher das perguntas era exótica: intensa demais, criativa demais e com ideias a mais. Ela apresentou-lhe um espelho que não queria ver e quanto mais o espelho era colocado à sua frente, menos ele queria ficar ao lado dela. Com a mulher exótica a satisfação sexual era muito grande e foi aceitando ouvir o que não queria para receber o que desejava, enquanto dizia a si mesmo “isto não me afeta”. Mas afetava, passou a sentir inquietações que não queria ter e optou por abandoná-la. Trocou-a por outra mulher. Focou-se outra vez nas mulheres da aldeia, escolheu uma entre as disponíveis e decidiu “com esta vou ter uma relação, vai resultar, tem que resultar”. A decisão não foi emocional, foi uma construção de engenharia da vida para corresponder ao padrão que conhecia. De forma a garantir um bom resultado, muniu-se de paciência até cativar para a sua teia a mulher da aldeia que não o questionava, apenas acarinhava e validava o tradicionalmente expectável. Afinal, os anos passavam, os filhos também constroem as suas vidas sem o colo do pai e até era bom não envelhecer sozinho. Conseguiu a relação estável projetada na sua cabeça e, quando tudo parecia perfeito no cenário da aldeia, o tédio instalou-se poderosamente. Um estranho vazio roubava-lhe as alegrias do dia-a-dia. A mulher exótica das perguntas tinha despertado nele interesses, vontades e desejos que a relação meticulosamente organizada com a mulher da aldeia não conseguia satisfazer. Desassossegadamente, por vezes, surgia na intimidade a imagem da mulher exótica e atormentava-o perceber como era instável e falível o seu plano de relação. Apesar de pensar nela, sabia que a mulher das perguntas não estava disponível, já tinha outros interesses e inclusive mudara de país. Como perdera a coragem emocional no dia em que jurou não valorizar as suas emoções, optou por se deixar ficar naquela relação com a mulher da aldeia, naquele retrato de casal tão apreciado aos olhos dos outros…
A suposta aceitação do tédio foi uma ilusão. A imagem da mulher exótica já não o satisfazia para compensar a rotina instalada e ele queria voltar à efervescência sexual. A ideia de sentir o prazer da novidade fê-lo voltar ao Tinder. Ele sabia bem como manter a aplicação oculta no telemóvel e evitar ser descoberto pela mulher escolhida para a estabilidade. No regresso à app criou um nome falso, um perfil com detalhes ficcionais, mudou os seus limites morais e a traição passou a fazer parte do seu modo de agir. Foi para o primeiro encontro de adultério com algum nervosismo, justificando-se como seria apenas uma vez, uma curiosidade sem réplicas, sem envolvimento emocional e sem qualquer intenção de perder a admiração da mulher da estabilidade à sua espera com fidelidade na casa da aldeia. O nervosismo passou nos primeiros beijos, a ereção confirmou a vitória da luxúria, do regresso da novidade e aquele foi apenas o primeiro encontro do Eurico adúltero. Muito cioso em evitar trapalhadas sentimentais, não se fixava em nenhuma das mulheres da montra da app, apenas investia em encontros de ato isolado e, excepcionalmente, poderia repetir a mesma mulher duas vezes para aproveitar os benefícios de entrega mais fogosa.
Assim passaram mais de dois anos até que um dia encontrou na app uma colega de trabalho da sua fiel mulher estável. A covardia e o medo bateram-lhe à porta, percebeu a eminência do perigo, a possibilidade de arruinar a relação estável e perder a credibilidade aos olhos da sua aldeia. Sem hesitar abandonou a app para bloquear em si o homem adúltero. Regressou ao tédio da vida escolhida e a culpa sorria-lhe todas as noites roubando-lhe o habitual sono tranquilo. Começou a tomar comprimidos para dormir, os meses passavam e os soníferos não lhe devolveram a consciência tranquila. Numa madrugada de angústia gritante optou por não tomar o comprimido, meteu-se no carro e conduziu sem destino. Parou numa praia longe do seu circuito habitual. A Lua estava muito redonda a iluminar o mar e aquele brilho exuberante levou-o para a sua memória de infância com a menina do mar. Que saudade daqueles tempos com aquela menina… Começou a observar o areal e viu uma mulher de vestido a mergulhar. A mulher não voltou à superfície. Ele correu para a salvar, preocupado entrou na água e naquele momento a mulher apareceu. No meio da confusão mental, Eurico agarrou nela convencido que a salvava.
-Largue-me! Largue-me!
-Não, eu salvo-a.
-Você é doido. Eu não preciso de ser salva.
-Precisa sim.
Assustada com a atitude, para se defender a mulher mordeu o braço do homem. Eurico soltou-a, ela fugiu para a praia e ele foi atrás dela querendo desculpar-se. A mulher dirigiu-se à mochila pousada na areia, tirou dela a sua navalha e apontou-a a Eurico.
-Afaste-se! Se der um passo não respondo por mim.
-Tenha calma! Pensei que queria suicidar-se.
-Suicidar-me?! Eu?!
-Sei lá o que lhe passou pela cabeça… Baixe essa arma. Ainda se magoa.
-Ou tem medo que eu o magoe a si?
Observaram-se em silêncio.
-O seu olhar é destemido. Há muitos anos vi um olhar assim…
-É melhor não lhe dizer o que penso sobre o seu olhar.
-Diga. Quero saber.
-Parecem olhinhos de gato triste.
-Disse olhinhos de gato?!
-Acho os olhos dos gatos esquivos. Os seus, além de esquivos, são tristes.
-Olhinhos de gato… Uma vez disseram-me isso…
-Já percebi que você não é tubarão. – a mulher baixou a navalha.
-Sou o quê?
-Talvez um peixinho de rio. Não tenho a certeza. Mal o conheço.
-Peixinho de rio?!
-Não me diga que também já lhe disseram isso.
-Disseram.
-A conversa fica por aqui.
A mulher agarrou na mochila e começou a andar em direção às dunas. As mulheres da sua aldeia não andavam destemidas sozinhas no escuro à noite, só a menina do mar andava assim. Ele ficou a observar a mulher até ela entrar numa casa.
Voltou para a sua aldeia a pensar naquela mulher bravia e sentiu uma desconhecida e indomável agitação interior. No dia seguinte, antes do anoitecer, voltou à praia e foi bater à porta da casa da mulher.
-Venho pedir-lhe desculpa.
-Não precisavas de te incomodar, olhinhos de gato.
-Aconteceu tudo de uma forma estranha. Não te queria assustar.
-Foste tu quem se assustou e tirou conclusões precipitadas.
-Já percebi que gostas de me contrariar.
-Se não gostasses de ser contrariado não estavas aqui.
-Talvez… – disse ele sorrindo.
-Podes ter olhinhos de gato, mas tens sorriso de golfinho.
O sorriso do Eurico ainda ficou maior.
-Gostavas de ser sereia?
-Hum… Porquê? Queres ser tritão?
-Essa hipótese agora já não me parece estranha.
-Gostas de limonada?
-Bebo.
-Senta-te aí no alpendre. Volto já.
Ela entrou e voltou com uma bandeja com copos e limonada.
-Como te chamas?
-Eurico.
-Madalena.
Eurico bebeu a limonada de uma assentada.
-Estavas com sede, sede de vida. – disse Madalena com riso solto e doce – Queres mais um chipitinho?
Eurico não duvidou – estava no lugar certo. Aquele riso e a palavra “chipitinho” eram o chamamento original para uma vida sem omissões, mentiras ou perfis falsos. Percebeu que as meninas destemidas também sabem abrandar, os meninos podem chorar não apenas nos funerais e não precisam de negar as suas emoções. Em paz consigo, olhou para o lado e viu a harmónica dourada pousada numa cadeira.
-A harmónica era do teu pai?
-Como sabes?!
Eurico sorriu. Determinado levantou-se, pegou na harmónica e começou a tocar. O tempo da fuga interior chegou ao fim.
Cristina Silva escreve, representa e encena. Encontra a sua seiva e força vital na palavra escrita e na palavra interpretada. Quando escreve encontra caminhos de reflexão e libertação na desafiante tarefa que é viver.










