
Num recente artigo, intitulado: ” Lição de EUA para China: As finanças devem servir, não dominar”, o professor Wen Yi, nos adverte do perigo de uma elite corporativa dominar e controlar, em seu benefício privado, o Estado. Wen Yi relata como todos os centros ocidentais, passando por Veneza, Países Baixos, Grã Bretanha e agora os EUA realizaram um caminho semelhante de expansão-consolidação-assentamento e queda. Este caminho basicamente consistiu e consiste todavia (no caso dos Estados Unidos) de: fortalecimento comercial, industrialização, expansão setor financeiro, desligamento das finanças da economia real e perda de vitalidade industrial e renovação científico-tecnológica (como consequência deste afastamento entre finanças e economia real) e inevitável deterioração social, com implosão e queda. O professor Michael Hudson, em seus recentes estudos, sobre a história económica, em textos muito didáticos e com implicações geopolíticas, já nos explicava como na antiguidade e nos primórdios da civilização, o Estado confrontava o poder privado, impedindo através de “quitação de dívida ” o poder comercial e estatal de ser engolido pelo poder financeiro.
BREVE CONTEXTO HISTÓRICO
Acontece que, no Ocidente, já com a tomada de Bizancio pelo poder veneziano, na infame IV Cruzada, de 1204, o poder cristão de Oriente, com sede em Constantinopla (de que Rússia vai ser o seu herdeiro, através de laço matrimonial com a descendente do último monarca bizantino) vai ceder suas riquezas e posição central ao poder Veneziano e Romano, ao instaurar um reino latino do Oriente, nas muralhas da mesma Constantinopla. Esse poder privado lombardo-veneziano vai crescer e realizar, mediante a sua difusão e, por meio das suas empresas, a expansão da Reforma Protestante (ate à decomposição estatal da Europa, na guerra dos 30 anos). Anteriormente, dominou os reinos medievais através das dívidas soberanas até à implosão bancária de inícios do século XIV. O que facilitou, durante o século XV, que os medievais reinos abandonassem aquele sistema e tentassem implementar os nobres ideais de Nicolau de Cusa. Mas, no século XVI, o partido veneziano toma conta da Inglaterra de Henrique VIII (separando-a da Espanha), por meio da família de comerciantes das irmãs Bolena. Após o trunfo da revolução Gloriosa, no século XVII e da queda de Robespierre, no século XVIII, junto com a de Napoleão, no século XIX, este poder já veneziano-neerlandês e anglo-saxónico se tornará o motor e controlador dos tempos na Europa, impulsionando finalmente o poder britânico após a I Guerra Mundial (com a queda dos impérios e poderes estatais, que podiam fazer-lhe sombra: como o Otomano, Russo ou Austro-húngaro) na sua tentativa de domínio do orbe. Lembrar que o poder hispânico já tinha sido quebrado, e o português fora absorvido pelo espanhol no seu tempo, para obter sua independência, Portugal teve de entregar-se a controlo da Inglaterra. Com o fim da II Guerra Mundial, e a posterior morte de Stalin (com o abandono de Kruschev do padrão ouro) esse poder vai conseguir, após a implosão interna da União Soviética, com Gorbachev, sonhar controlar todo o Orbe.
CONTEXTO ATUAL
Mas na implosão do pulmão financeiro de 2007-2008, este poder marítimo talassocrático- financeiro privado, que controlava o mundo por meio de seus Bancos Centrais-Privados, geradores de moeda em forma de dívidas eternas, vai descrescer de forma alarmante no mundo permitindo novas alianças de caráter mais estatal soberanista-telurocrático, que começaram a ocupar os espaços que este poder privado, no seu recuo, deixa mais livres. Na atualidade, este declínio se faz evidente no seu centro atual dos EUA, com problemas na área militar (que criam impossibilidade de dominar áreas tão importantes como o Oriente Meio, onde a guerra com o Irão está a criar problemas, mesmo para a sobrevivência de seu Estado fulcral na região: Israel. Mesmo com certas possibilidades de afastamento de países aliados na zona, que olham aquele poder militar norte-americano, que garantia sua sobrevivência, estar a afundar neste novo embate)… A dívida norte-americana de 40 milhões de milhões (40 triliões), com juros anuais de mais de 1, 5 triliões… afunda a economia do gigante norte-americano, em tempos de afastamento paulatino do padrão dólar em transacções comerciais globais, entre estados emergentes, por medo às sanções ou confinamento de ativos em bancos ocidentais. A tentativa de criar um Estado de Israel expandido do Nilo ao Eufrates – do novo poder sionista imperialista – teria que trazer consigo a destruição do poder iraniano e turco na região, assim como a queda do poder saudita, jordano e sírio (o poder opositor sírio foi derrubado com o auxílio turco, mas agora Ancara está numa armadilha). Uma solução seria uma guerra regional entre o Islão sunita e xiita para, definitivamente, enfraquecer todo o poder muçulmano emergente. Mas o mal desempenho norte-americano na guerra do Irão, até ao momento e a reunião em Bishkek de paquistaneses, iranianos, chineses e russos, assim como contactos diretos entre a Turquia, o Paquistão e a Arábia Saudita, com o ideal de criar um poder islâmico sunita com a capacidade do poder atómico paquistaneses, que poderá substituir um enfraquecido poder norte-americano na região (junto à ponte Paquistão-China para convencer o Irão de que esse poder não iria contra ele) não parece favorecer a posição de Israel e os EUA a longo prazo. E o anúncio recente da Assembleia legislativa iraniana de mudar sua doutrina nuclear vai em contra, também, dos interesses norte-americanos e israelenses. No caso da guerra na Ucrânia, com a tentativa de pôr em riso o poder do Kremlin, de momento e apesar dos ataques ucranianos à infraestrutura estratégica russa, o curso do confronto segue a ser favorável à Federação Russa. Numa tentativa por parte da administração Trump de mudar a baixa popularidade do atual Presidente norte-americano, enviados dos EUA chegaram a Moscovo para tentar chegar a um acordo de “fim de guerra” e, assim, junto ao “relativo controlo dos recursos energéticos da Venezuela” a propaganda pró Trump poderá tentar realçar o seu partido muito perto das eleições de meio mandato. Não obstante, o Kremlin já deixou claro que não vai aceitar um cessar-fogo que possa valer para abastecer de armas a Ucrânia e dar fôlego a um governo com muita baixa popularidade e com guerra internas muito visíveis. A Rússia somente aceitará um fim da guerra nas condições por ela ditadas, com a neutralidade dum novo governo ucraniano e o levantamento das sanções e o acesso a seus ativos no exterior, junto à certificação dos territórios anexados como parte da Federação russa. Algo que complica bastante a missão dos enviados especiais do presidente norte-americano, mas pode permitir ao partido de Trump lançar sua propaganda até à data das eleições, pois este parece ser o objetivo. À sua vez, a tentativa duma guerra no mar da China na disputa com Taiwan, envolvendo Japão, (Austrália?), Coreia do Sul e EUA… Também de momento não dá pela falta de recursos militares dos próprios EUA para afrontar duas frentes. Pelo receio da Coreia do Sul, que teve de observar suas defesas diminuídas, quando os EUA decidiram recolocar os sistema defensivos anti mísseis desde a Coreia do Sul até Israel. O que levou Seul a abrir novos contactos de paz com Pyongiang. O Japão, numa gravíssima crise de dívida está a observar novas saídas e novas possíveis alianças. O problema do Japão, com a sua necessidade de abrir novos mercados na Ásia, é que o novo governo tem uma visão neo-imperial, mesmo relatando os massacres e abusos do exército japonês durante a II Guerra Mundial como propaganda do inimigo. Algo que seus vizinhos como a China e a Coreia vêm como muito preocupante. Se Tóquio não souber como modificar o seu rumo em tempos cambiantes, poderia mesmo sua dívida entrar em risco por falta de pagamento. O Japão nos anos noventa foi forçado a deixar a economia industrial, produtiva e inovadora científico-tecnológica, por causa dos EUA verem com receio a sua expansão por todo mundo. Essa virada de modelo em favor de uma economia financeira levou ao resultado atual, onde a mesma China está a inovar mais e melhor em áreas como a robótica, donde o Japão, em décadas passadas, era incontestável. Por sua vez, as contradições internas impulsionam a agenda Corporativa privada em mais duas frentes; no mar da China, ativando o confronto de Taiwan. E na América do Sul, tentando rodear o Brasil e retirar de Brasília todo o poder que pretenda avançar a favor da soberania.
A POSSIBILIDADE DE ACORDO
Um acordo geopolítico seria possível entre as três potências atuais, com capacidade de intervenção global: a China, a Rússia e os Estados Unidos. Mas o poder privado Corporativo anglo-veneziano-neerlandes-sionista, desde a queda da URSS convertido em Globalista teme que um acordo deste nível possa significar o fim da sua hegemonia, se os Estados reafirmarem o poder do interesse publico e nacional sobre o Corporativo privado. Isto impulsiona a tentativa do Poder Corporativo Privado de abrir uma guerra em três frentes: Ucrânia, para enfraquecer a Rússia, Ocidente da Ásia (Oriente Meio) para quebrar as rotas da seda, enfraquecer o crescente poder do muçulmano e favorecer Israel, e Ásia-Pacifico para tentar travar o avanço chinês em todas as áreas, com uma tentativa de dominar toda o continente americano. Mas de momento, o enfraquecimento paulatino do poder militar único Privado Corporativo, com sede nos EUA , dificulta muito chegar, em breve, a este cenário. Assim como a incapacidade, até agora, dum complexo militar industrial europeu ser viável no curto prazo. No entanto, este poder Privado anti-estatal segue a forçar cenários de guerra, tentando aumentar a escalada. Neste cenário, somente uma mudança radical nos EUA, com tomada do poder do sector soberanista ainda vivo (cenário pouco realista, na atualidade) ou pelo contrário, uma implosão sistémica (algo ainda não imediato) poderiam impedir a escalada belicista global, que tanto teme a humanidade. Outro cenário menos apocalíptico seria o desgaste imperial por excesso de confrontos – perda relativa da sua capacidade de intervenção militar e retirada obrigatória das suas fronteiras. Vamos ver se a guerra contra o Irão não enfraquece em excesso as contradições várias dentro dum poder norte-americano em tempos de dificuldade, forçando o mesmo a um recuo, que dê um alívio à humanidade na escalada a favor das guerras, cenário mais otimista para todos nós.
Artur Alonso: escritor com vários livros editados de teatro, poesia, ensaio e romance… Ex diretor do Instituto Galego de Estudos Internacionais e da Paz. Ex secretario do Instituto Galego de Estudos Celtas. Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono. Membro de Honra da Associação de Escritores. Mocambicanos na diáspora. Membro do Conselho de Redação da Revista Identidades, etc.










