Poesia & Conto

Poemas | Paula Vaz

Foto de Payam Moin Afshari na Unsplash

A Onça

Viver

é também sobreviver. 

E o alimento,

variável. 

O que há de mais selvagem 

no disparo do cavalo,

na voracidade da onça,

nas unhas do corvo

e no voo do pássaro sobre o abismo?

É que, agora,

o animal quer falar.

Ela ruge.

Ele rosna.

e só querem falar.

Quando amam, parece que

querem falar mais ainda.

E morre-se 

tantas vezes.

Se se ofendem,

 eles precisam falar.

Ela esturra,

ele uiva, 

eles se arranham 

até cravar os dentes

no casco das palavras.

Bêbados de sol,

Ávidos de lua,

caçam com o ouvido

a carne. 

Não é o difícil o último rebelde? 

Esses animais melânicos 

já sofreram mutações.

Por isso surgem na luz 

como vestígios da noite.

E esse poder muscular

de rasgar o vento quando encontram a presa  

divide ao meio uma floresta.

 

*

 

A serpente

 

Entorpecida 

pela  digestão de todas as coisas,

 

sentindo de longe

o calor emitido pelo movimento dos corpos,

 

mesmo quando falta luz,

 

ziguezagueia

pelos quatro cantos do êmulo.

 

Haja perícia de ondulação lateral!

 

*

Água-viva

 

Quando o verão acabar

e as águas pararem de descer

pelos degraus da calçada,

pode ser que eu observe do alto

outro deserto.

 

Com a enxurrada

verei passar 

tudo o que não se prendeu

Em tronco sólido

 

Vou olhar distraída

o que quis reter com as mãos,

e vai me escorrer pelos dedos

o sol que tentei tapar 

com a peneira.

 

O asfalto secará.

 

Mas a chuva terá lavado

as calçadas, 

invadido casas, 

umedecido paredes

até mofar os sofás.

 

E o que tudo isso tem a ver

com o ser marinho,

seus tentáculos, toxinas,

suas células urticantes?

 

Ainda não sei.

 

*

 

A coruja

 

Com olho arregalado  

ela emudece, 

vendo a noite do mundo. 

 

Ela não consegue dormir

nem falar de amor.

 

Um poeta diria

é porque amor é feito bomba 

nas mãos, 

pode explodir.

 

Mas a coruja não tem mão 

e impenetrável permanece.

 

É por isso que ela é muda?

 

Devo pesquisar os modos da coruja

 antes que isso termine

 e eu conclua a coruja sem a coruja. 

 

Ah, sim.

Lá está ela, 

do alto da sua árvore

ou no chão da estrada,  

 

noturna e muda.

 

Mas as vezes ela muda.  

Ela grita? 

 

Parece gato com asa 

Empalhado,

Desidratado. 

 

O que reidrata a coruja?

 

She likes the night light, baby!

She likes the night light

 

*

O homem pássaro

 

O homem pássaro 

é uma espécie que canta 

 

Homem lobo,

Coruja quase gato.

 

É no silêncio

que ouvimos o pássaro cantar.

 

Esse piar, 

ele o ouviu tantas vezes. 

 

na luz que incide sobre a sombra

capacitando a asa,

na trilha arcaica dos primórdios da tv

no escuro das florestas onde moram as onças,

 

nas lentes embaçadas pelo uso,

no impacto da chuva sobre as palhoças,

na realidade das plumagens que te albergam.

 

Da terra

ele manda mensagens ao céu

e do céu acena

Liberdade

 

Quem diria que esse ser tão delicado

teria um esqueleto tão firme! 

 

E esse piar,

ele o ouviu tantas vezes.

 

A voz que voa, orbita. 

 

Às vezes pousa em algum lugar.

Às vezes fica.

 

*

 

A Tartaruga

 

Não é que a tartaruga 

goste de mundo quase parando. 

 

É que ela  tem a saúde 

de não perceber

que da concha que se move

não há quem alcance o passo.

 

Nem Aquiles nem a lebre.

 

Que passem à  frente dela

todos os apressados.

 

E recolham da paixão 

suas mãos ávidas. 

 

Mas que ao final

todos cheguem ao seu destino

 

de carta

 

que faz do endereço extraviado

a própria casa.

 

Paula Vaz

 

* 

fotografia de Paula Vaz.

Paula Vaz é poeta, escritora e psicanalista, autora dos livros não se sai de árvore por meios de árvore. Ponge- Poesia. (2014), A outra língua: amor ( 2016), Deserto (2018), O Reino animal da poesia, ( 2022) publicados pela Cas`a Edições e Atire a primeira pedra neste coração cansado ( 2025),  seu primeiro romance, editado e publicado  pela editora Record. 

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