
A Onça
Viver
é também sobreviver.
E o alimento,
variável.
O que há de mais selvagem
no disparo do cavalo,
na voracidade da onça,
nas unhas do corvo
e no voo do pássaro sobre o abismo?
É que, agora,
o animal quer falar.
Ela ruge.
Ele rosna.
e só querem falar.
Quando amam, parece que
querem falar mais ainda.
E morre-se
tantas vezes.
Se se ofendem,
eles precisam falar.
Ela esturra,
ele uiva,
eles se arranham
até cravar os dentes
no casco das palavras.
Bêbados de sol,
Ávidos de lua,
caçam com o ouvido
a carne.
Não é o difícil o último rebelde?
Esses animais melânicos
já sofreram mutações.
Por isso surgem na luz
como vestígios da noite.
E esse poder muscular
de rasgar o vento quando encontram a presa
divide ao meio uma floresta.
*
A serpente
Entorpecida
pela digestão de todas as coisas,
sentindo de longe
o calor emitido pelo movimento dos corpos,
mesmo quando falta luz,
ziguezagueia
pelos quatro cantos do êmulo.
Haja perícia de ondulação lateral!
*
Água-viva
Quando o verão acabar
e as águas pararem de descer
pelos degraus da calçada,
pode ser que eu observe do alto
outro deserto.
Com a enxurrada
verei passar
tudo o que não se prendeu
Em tronco sólido
Vou olhar distraída
o que quis reter com as mãos,
e vai me escorrer pelos dedos
o sol que tentei tapar
com a peneira.
O asfalto secará.
Mas a chuva terá lavado
as calçadas,
invadido casas,
umedecido paredes
até mofar os sofás.
E o que tudo isso tem a ver
com o ser marinho,
seus tentáculos, toxinas,
suas células urticantes?
Ainda não sei.
*
A coruja
Com olho arregalado
ela emudece,
vendo a noite do mundo.
Ela não consegue dormir
nem falar de amor.
Um poeta diria
é porque amor é feito bomba
nas mãos,
pode explodir.
Mas a coruja não tem mão
e impenetrável permanece.
É por isso que ela é muda?
Devo pesquisar os modos da coruja
antes que isso termine
e eu conclua a coruja sem a coruja.
Ah, sim.
Lá está ela,
do alto da sua árvore
ou no chão da estrada,
noturna e muda.
Mas as vezes ela muda.
Ela grita?
Parece gato com asa
Empalhado,
Desidratado.
O que reidrata a coruja?
She likes the night light, baby!
She likes the night light
*
O homem pássaro
O homem pássaro
é uma espécie que canta
Homem lobo,
Coruja quase gato.
É no silêncio
que ouvimos o pássaro cantar.
Esse piar,
ele o ouviu tantas vezes.
na luz que incide sobre a sombra
capacitando a asa,
na trilha arcaica dos primórdios da tv
no escuro das florestas onde moram as onças,
nas lentes embaçadas pelo uso,
no impacto da chuva sobre as palhoças,
na realidade das plumagens que te albergam.
Da terra
ele manda mensagens ao céu
e do céu acena
Liberdade
Quem diria que esse ser tão delicado
teria um esqueleto tão firme!
E esse piar,
ele o ouviu tantas vezes.
A voz que voa, orbita.
Às vezes pousa em algum lugar.
Às vezes fica.
*
A Tartaruga
Não é que a tartaruga
goste de mundo quase parando.
É que ela tem a saúde
de não perceber
que da concha que se move
não há quem alcance o passo.
Nem Aquiles nem a lebre.
Que passem à frente dela
todos os apressados.
E recolham da paixão
suas mãos ávidas.
Mas que ao final
todos cheguem ao seu destino
de carta
que faz do endereço extraviado
a própria casa.
Paula Vaz
*
Paula Vaz é poeta, escritora e psicanalista, autora dos livros não se sai de árvore por meios de árvore. Ponge- Poesia. (2014), A outra língua: amor ( 2016), Deserto (2018), O Reino animal da poesia, ( 2022) publicados pela Cas`a Edições e Atire a primeira pedra neste coração cansado ( 2025), seu primeiro romance, editado e publicado pela editora Record.










