
Coivara
o gripir-vermelho contorna as mangas largas dos mantos que varrem esse território de canto a canto
encardidos
tocam os fios dourados que lacram as marmitas dos condenados
ela é neta das que amarram asfitas-coloridas nas embaúbas das coivaras para repousar e retornar das cinzas
das que marcham pelas quadras alisando a linha nigra.
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Heroínas
arruda plantado na entrada da casa panela de água fervendo nas brasas
cerca de espadas-de-São-Jorge pimentas nos olhos um ferro-de-cova os espera por trás das portas
facões saguins de vigia fitas coloridas penduradas nas ripas samambaias nos caibros
este pequeno pedaço de algodão-cru onde escrevo nomes que nem cabem nesse poema-guarda protege as moradas das heroínas há mais de trezentos anos o forte é montado com palhas-secas-de-macaíba da fruta fizemos leite óleo e sobrevimos a luta sangrenta
o próprio corpo com trincheira aguentando no ventre mais um dia sonhando com o segundo nome das novas marias.
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Maldito
que maldições verbera nas tuas palavras que fizeram secar todo o verde-ventre os cantos inférteis que calaram os sabiás
léguas de quadras cinzentas de tocos ainda em brasa
santos-homens-de-porcelana-pálidos de bochechas-rosadas que trouxeste para esta terra
para impor com violência nos altares onde antes tínhamos meninas brincando com ossos brilhantes dentes reluzentes cabaças cheias de sementes-avermelhadas plumas-multicor resinas da vida
sentávamos perto delas banhávamos usávamos seus mantos para a guerra nos sentíamos dentro delas.
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Sanhaços
os sanhaços-azuis migraram seu canto mesmo quando a usina prometeu garapa nas bombas-de-irrigação
ela teve que cantar sozinha para que o rio aceitasse bater seu corpo-de-pano-molhado.
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A Usina Não Tolera Sangue
mel-fervente prendeu o corpo em frente a carregadeira desfilaram com o cadáver por dias na terra-cinzenta
deixando um recado para aquelas que se rebelaram plantando ervas rente as touceiras de cana aguando com menstruação soltando seiva das unhas derramando colosso nas quadras
tirando o rendimento da usina que ateou fogo nas bananeiras da viúva.
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Procissão
marchamos
eu e os calangos se arrastando o bucho queimado
os saguins nos meus ombros e os filhos nos seus
os timbus na bolsa e os filhotinhos nos marsúpios
os acaris chupando as pedras das coxas
o bico do beija-flor sugando o néctar das caliandras-bailarinas das grinaldas
os dentes-de-leão e todas as suas pétalas e sementes juntadas
o ultimo pai-de-chiqueiro bebendo sangue das auréolas-roxas
o altar com as estátuas de sóis e meninas peladas
as fotos de mãe-véia e da mãe dela e da mãe da mãe dela.
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Coivara baixa
há mais de quatro séculos nos dedicamos a abrir clareiras no deserto-de-mel galgar declives
procurar terrenos úmidos com sucos abertos para cavar leirões com as unhas-vermelhas
alisar as melhores sementes
pedir a permissão aos astros
fincar nossas varetas aquecer
esperar que as ramas vençam a violência.
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Pedras de Fogo
os cascos dos burros chocalhavam nas pedras e voavam faíscas
foi onde a gente escolheu limpar a seixaria
procurar a espinha da terra
instalar as sombras trançando palhas do babaçual
debaixo delas somamos nossos cantos no compasso
contamos as sementes mais graúdas para plantar quadras de labuta.
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O Que as Bisavós ensinam
Iraci amolou o facão em frente à minha casa
pediu à neta Vera que colocasse as panelas no fogo para esquentar água protegendo seus canteiros-de-meninas cadernos-de-botânica rosetas varetas cercas-de-coroa-de-cristo reservas de querosene para escrever à noite
mandando o recado para o vizinho que pretendia fincar o mourão além da divisa
que em terra de viúva quem canta-de-galo perde os dentes.
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Gloriosas
pétalas de gloriosas fazem carinho nas falanges dos meus dedos
pagam pelos dias trabalhando no latifúndio dos brancos
me recuso a cair diante dos inimigos
nem aos pingos quanto mais prantos
subo queimando sem pedir licença requebrando os quadris
aguo meus amarelos febris com água da cacimba encantada
dourada de reza.
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Rede
Nas calçadas do Bairro de Mócos desde 1960 mulheres estão presas aos fios-vermelhos-das-redes tecendo resiliência
trançam mãe trançam filhas
do tempo com os fios quentinhos da companhia
no nó das cinco horas freia no horizonte o ônibus da usina de onde descem as botas que vão soprar malunguinhos nas rendas-brancas da casa limpinha.
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Panos quentes
às quatro horas eu não durmo mais
fico pensando no meu avô decepando a mão no facão falanges penduradas os nervos pulando para fora
às seis é a vez do meu pai que exausto foi tirar um cochilo na esteira quando suas madeixas-caboclas foram escalpeladas
às oito eu já tomei um café e meu irmão caiu na caldeira
de noitinha parei e comecei a pensar mais em mim na minha avó bisa irmã e no futuro da minha filha condenadas a viver com um monstro-insaciável-patriarcado-dos-séculos engrenagens que engolem a liberdade farpas que anulam o corpo moendas que espremem até o último caldo da vida violadas violentadas sem sorte bordando rosas-de-sangue no pano-de-prato para enrolar as marmitas dos homens.
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Maquinaria
os braços longos da máquina imitam direitinho o afeto
mas sem perdão nem alma
tudo é falso e morno
na mesa do empregado só açúcar
gastura no coração
toda safra toneladas de homens moem nos intestinos-grossos da usina.
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À força
ela cozinhou a cabeça do miserável só cascas-vermelhas
trouxe para exibir na praça enrolada num pano bordado com espinhos de coroas-de-cristo que atravessavam as têmporas
entre os espaços dos pontos resistia sangue e a memória do monstro devorando a filha no labirinto de cana.
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Desencantada
Quando eu descer quero que meu corpo fique repousando por semanas nas bromélias-da-jaqueira plantada pelo meu avô potiguar há setenta anos
quando tiverem que me derrubar com vara-de-bambu que seja no feijão-verde-seco e do céu se escute o barulho do meu corpo caindo nas cascas-crocantes
que minha filha me coloque para dormir com uma grinalda-de-flores-de-São-José para representar a toxidade e beleza dos meus gestos até virar fumaça.
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Natural de Itambé, Zona da Mata Norte de Pernambuco, Geisiara Lima é mãe, poetisa e ilustradora com graduação em Filosofia pela UFPB. A articulação entre a poesia e as artes visuais possibilita que a autora utilize as duas linguagens para abordar de forma sensível temas como ancestralidade, feminismo e resistência. Geisiara tem poemas publicados em antologias literárias, incluindo Movimento Silêncio Interrompido: Goiana Revisitada e Antologia dos Poetas Nazarenos. É uma das autoras do livreto Putrefatos e possui textos publicados em revistas, zines e e-books. Na obra Corpo em Chamas (Editora Porta Aberta e Editora Vão, 2020) a escritora reúne poemas e ilustrações sobre a experiência feminina e as dinâmicas da natureza e religiosidade da Zona da Mata, denunciando as violências coloniais em diálogo com o contemporâneo. Em 2022, lançou o e-book Caderno de Botânica (Editora Alvoroça) com incentivo da Lei Aldir Blanc. Já Riacho Marias Pretas (Editora Porta Aberta) foi lançado em 2025 pela PNAB municipal de Timbaúba. Nas artes visuais, o trabalho de Geisiara como desenhista se expressa em capas de livros, cartazes e projetos artísticos. Suas produções combinam texto verbal visceral e introspectivo com traços expressionistas da xilogravura e do grafite. Sua primeira exposição individual Semeadoras (Atelier Valcira Santiago, Goiana) teve incentivo da Lei Paulo Gustavo (Secult-PE / MinC) e celebrou mulheres guardiãs de saberes ancestrais. Foi colaboradora com ilustrações nas duas edições dos livros Poetas Nazarenos I e II e foi a primeira mulher a fazer a arte de divulgação do Tipóia Festival em 2015. Em 2018 foi a vez de diagramar o projeto de ilustração das peças de divulgação da Mostra Canavial de Cinema e, em 2019, produziu as ilustrações dos cartazes de duas sessões do Iapôi Cine Clube.
Geisiara participa ativamente da cena literária pernambucana. É agente cultural, coordenando projetos como Caçadores de Rascunho e o coletivo Ispia!, que desenvolvem exposições, oficinas e intervenções culturais na região. Foi entrevistada pela Revista Continente (2021), assim como pela Rádio Frei Caneca (2025) para conversar sobre seu trabalho artístico.
Realizou a performance O Corpo que Queima com a Mata na programação do Festival Palavra Cifrada. Além das participações na Biblioteca do Sesc Ler Goiana em 2022 e na Feira Literária de Goiana (FLIGO) em 2021 como integrante do coletivo Recita Mata Norte.










