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Aventuras de Uli: a jornada | Cadu Matos

Foto de Halogen Condense na Unsplash

Uli voltou! Todo estropiado, mas retornou a casa.

Depois de visitar o veterinário para tratar de sua pata quebrada e de receber mil beijos e afagos de seus escravos, num festival de doçura que quase provocou um coma diabético, o gatinho Uli reuniu a bicharada para contar suas aventuras. Estavam todos lá: a Rosa branquinha, outros gatos e cachorros das vizinhanças e o sagui, que olhava tudo aquilo com os olhos arregalados.

 

Famosos por sua lógica, os portugueses têm um costume que faz os brasileiros no além-mar rolarem no chão de tanto rir: o de começarem uma frase com a conclusiva “portanto”. É que há um parêntese oculto no início. (“Todos sabemos das condições que levaram ao que se está a passar). Portanto…”. Foi o que fez Manuel Ulianov, o Uli, lusitano até a medula.

 

– Portanto, pulei o muro e parti. Se calhasse, embarcava numa caravela, mas soube que não há mais caravelas. E de facto nem cheguei perto do mar, caminhar horas seguidas cansa muito e além do mais tinha de buscar comida. E os gatos precisamos cochilar umas 18 horinhas por dia, não é mesmo?

 

Os outros gatos miaram gravemente em concordância.

 

– Portanto – retomou Uli –, segui caminho e me deparei com um balde de lixo, de onde vinha um delicioso chairo de sardinhas. Tenho estirpe, não sou um vira-baldes, mas derrubei o caixote e me banqueteei. O odor atraiu alguns gatarrões de maus bofes, houve rosnados e ensaios de briga, mas fui firme e os expulsei, embora lhes deixasse o sobejo.

 

– Meu herói! Meu amorr! – ronronou Rosa branquinha, antes de cheirar delicadamente o fiofó do aventureiro.

 

Uli retribuiu a homenagem e continuou.

 

– Foi na segunda noite que vi os monstros. Eram dois, enormes, com grandes olhos amarelos e um rosnado alto assustador.

 

– Não eram camiões com as lanternas acesas? – perguntou cético um dos gatos, que morria de ciúmes de Uli por causa de Rosa branquinha.

 

– Nada disso, ó pá. Se calhar, algum bruxo lhes deu temporariamente a forma de camiões, mas percebi bem que eram monstros. Tinha acabado de acordar de umas 16 horas de cochilo, estava meio sonolento. Esquivei-me do primeiro, mas o que vinha atrás me golpeou de raspão. Um pouco mais e não estaria aqui a contar-vos essas aventuras.

 

– Meu herói! Meu amorr!– repetiu Rosa, dessa vez complementando a cheirada no fiofó com uma lambida sensual no focinho de Uli. Ele, cavalheirescamente, retribuiu, e em seguida continuou.

 

– Vou passar algum tempo com a escrava e o escravinho, gosto deles. Mas, sem dúvida, partirei em busca de novas aventuras. Com uma diferença, porém: ouvi minha escrava ler para o escravinho um livro chamado Don Quixote, e aprendi que um cavalairo andante precisa de um escudairo.

 

Nesse momento, voltando-se para o sagui, perguntou-lhe:

 

– Que dizes, ó pá? Queres ser meu escudairo e acompanhar-me em minhas andanças?

 

O sagui engoliu em seco, mais vezes que o normal e começou a responder em guimarãesrosês castiço (aliás, alguns pesquisadores sustentam que o autor de Grandes Sertões: Veredas baseou as falas dos personagens mais matutos do romance na linguagem dos saguis):

 

-Vossinhô utúrje, mestre…

 

Nesse momento interrompeu-se a proferiu palavras que surpreenderam a todos, especialmente a ele mesmo:

 

– Ossenhor é Vossensenhoria? Bamo sim, mestre. No graminhá…

 

A guinada se explica. O brasileiro é homem cordial, movido pelo coração, não pela razão e muito menos pela lógica lusitana, e o sagui, bicho brasileiro, cordial, que já cruzara o Atlântico, sentiu um impulso repentino de ir adiante, cada vez mais longe. E incorporou sem armas e sem bagagens a personagem de Sancho Pança do Don Quixote felino.

 

Então, escrava e escravinho de Uli, sigam o exemplo de Rosa branquinha, curtam ao máximo a companhia de Uli e do sagui, cubram os dois de beijos e carinhos. Pois viajar é preciso, e algum dia eles vão partir.

 

…..

 

(in Contos sobre gatinhos e outros bichos: 2026)

 

Foto: Cadu Matos

Meu nome é Carlos Eduardo (Cadu) Matos. Nasci em 1946, em Niterói, cidadezinha diante do Rio de Janeiro – uma Almada da baía de Guanabara. Formei-me em Direito em 1968 mas jamais advoguei. Dei aulas de Sociologia na Fundação Getúlio Vargas- SP e, antes disso, em 1975, na Escola Bento de Jesus Caraça, em Évora. Sempre exerci o ofício de escritor. Desde 1969 trabalhei como editor, redator, tradutor, preparador de texto e revisor para editoras de fascículos, revistas e livros didáticos e não didáticos. Contudo, apenas em 2018 escrevi meu primeiro texto pessoal, não encomendado por uma empresa. E não parei mais. Lancei quatro e-books pela Amazon: Shoshana – publicado na íntegra em quatro edições sucessivas da InComunidade – e os livros de contos Lili dos dedinhos, A outra e Rebeldes.

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