Cultura

Poemas | Ana Paula Jardim

Foto de Basia BW na Unsplash

248 DECIBÉIS

 

248 decibéis é o som do cavaleiro da morte

No alto do Promontório

Os seus cascos batem numa nuvem-cogumelo

De baixas frequências

E o tridente que se ergue do mar

É um clarão estridente

Varre tudo como onda

Sonora que esventra

Flash de luz divina cegando

Os olhos da ignorância

Deus tirando uma fotografia

Que guarda no bolso

Da memória.

*

 

ZUMBIDO

Vai-se calando aos poucos a poesia

Vai-se calando a melodia

E esta surdez que nasce nos ouvidos

Zumbido estridente que soa

I-nin-ter-rup-ta-men-te

Quem me dera acordar e perder a memória

Ficar amnésica

Não me lembrar de mim

Quem me dera ter a vossa alegria

Todas as vossas certezas

Quem me dera saber falar como vocês falam

Dizer palavras claras

E acreditar nelas

Quem me dera sentir como vocês sentem

Ser apenas desejo e esquecimento

E não esta sensação de animal ferido

Em extinção

Quem me dera ser real como vocês são

Dizer frases completas

Sem adjetivos. Sem verbos

E não esta sensação de ser ficção

De não saber o que sou

De não ser predicável

De ter passado a minha vida inteira como um fantasma no labirinto

A mudar de lençol.

*

 

TAKE2

Há coisas que nunca serão um par

Estão sempre desfasadas no tempo e fora do lugar

Como o negativo de uma fotografia

Que ficou esquecido no fundo de um tanque

Retangular

Ou uma imagem digital

Ficcionada

Nunca aparecem lado a lado e as figuras não se ajustam

Nem as bocas

São como personagens de um filme que não coincidem

No mesmo take

Entram e saem sem nunca se ver

Ou tocar

Como cenas cortadas

Amputadas

Censuradas por falta de espaço

Encontraram-se por acaso num microssegundo em movimento

Pendurado no olhar

Em décadas diferentes

Não planeado e por engano

Que fugiu dum relógio velho pregado na parede

E avariou por falta de corda

Há coisas que nunca serão um par

Nem vale a pena experimentar

Números ímpares que não conseguem ser inteiros

Nem divisíveis

Por dois

Tabuada mal conjugada sem multiplicações

Equação da natureza cujas premissas estão erradas

E são lançadas à terra

Mas mesmo assim dão flores.

*

otografia de Ana Paula Jardim. Autor da foto: Vitorino Coragem.

Ana Paula Jardim nasceu em Coimbra. Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. No âmbito das Comemorações dos vinte anos do Parque dos Poetas, foi a responsável pela organização e seleção de poemas da Antologia 20 anos 20 autores, com coordenação editorial de Jorge Reis Sá e integrada na coleção Livros de Oeiras.

Venceu o Prémio Glória de Sant’Anna em 2021 com o seu primeiro livro de poesia, Roupão Azul, com a chancela da Guerra e Paz Editores. Publicou, em maio de 2022, na mesma editora, o seu segundo livro de poesia intitulado Enfermaria, que veio a integrar a lista dos oito finalistas da 11ª edição do Prémio Glória de Sant’Anna 2024. Rua do Arsenal, publicado pela Guerra e Paz Editores, em Maio de 2024, é o seu mais recente livro de poesia.

Participa, regularmente, em Revistas Literárias e tem poemas publicados em Antologias.  Faz parte do projeto “Fotografar Palavras”, com curadoria de Paulo Kellerman. 

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