
Uma frase é pura enquanto está sozinha.
A seguinte tira-lhe logo alguma coisa.
Edmond Jabès
1.
Experimentas uma realidade que seja só teoria
como levar o pensamento ao génio de uma luz.
Mas aqui tens o trágico da filosofia:
todo o mundo numa alucinação interior.
É um instante de evidência que permanece
na antiguidade perpetuada na história.
Ou somente um problema isolado
sujeito às últimas lições da tua vida.
2.
Assim também recuas da terra incógnita
para este absoluto magnífico de existir
no melhor sentido da dúvida.
Quebras o que existe de intermédio no teu ser
situado entre problema e lonjura de conhecimento
em rigor dilacerante e incerteza.
Acrescentarás ainda à tua história a coisa contínua
pensada em experiência pura, e passiva.
Existirá uma proposição entre escrever tais coisas
e um silêncio que exige de ti uma fala pacífica.
3.
Quase em forma de realidade mais rigorosa
e seguindo a táctica da teoria sobreviva
em linguagem pensada:
procura o que existe no teu pensamento
e dá mais impressão viva
a este objecto inadequado que se transfere na fala.
Assim também a matéria comporta assimilação
e estudo humilde.
Estrutura primária e análise que te perscruta.
4.
Tudo o que domina o escrito na tua mente delapidada
com a abstracção do tempo ampliando uma evidência.
São as teorias suprimidas das realidades
paralisadas em coisas insituáveis.
Então a escrita responde com mais claridade recordativa
e acolhe-se ao pensamento a palavra inconsciente
sem precipitações de lucidez.
Como uma fenda inofensiva que acompanha uma frase
se escreveres no mais extenso dos abismos.
5.
Sentes o mais longo tempo da tua vida numa só palavra.
Eis o mundo nocturno em esforço de investigação
que em plano mais fechado somente expressa a vida
em profundidades graves e insondáveis.
Escrita que é para ti um peso que se tenta reformular –
e validar, em densidade, o sentido suspenso.
Descobres então que toda a evidência
é um instante de outra realidade que se move
na sua noção clássica de iludir.
6.
Aos deuses da psicologia devemos-lhes serenidade
as palavras quotidianas que resolvemos escrever
para demolir todas as sombras ou derrotas
e o temível vazio que nos espera na devastada memória.
Assim poderás extrair da escrita a singular leveza
que a luz antecipa, mas também o incerto
movimento do mundo e os seus signos redentores
que turvam o pensamento mais distante
da inocente fala incontida.
7.
Os teus caminhos são as ficções
de uma evidência sem significação.
Talento frágil e urbano vestígio
que se afeiçoa à mais pura linguagem
ainda contemplando o sentido inteiro
em inumana escuridão.
Então podes apontar o erro aos deuses construtores
de alucinações em veloz pensamento.
Porque também um dia sentirás estas declinações de imagens
e sentidos que já não respondem a nenhuma filosofia.
8.
Agora sentes uma febre descrita de pensar
cuja densidade é uma fúria em torno da leitura
acolhendo os clássicos.
Aqueles que fazem trágicos assaltos à tua cabeça.
Ou afinal é um inferno feliz num cenário
onde o espírito contraluz esvaindo-se
em confusas linguagens.
Tudo o que faz tombar a tua vida na pequena árvore
da gramática inclemente
oferecendo-te temores e testemunhos
que a tua mente rememora em implicações
e desvios profundos.
9.
Imperdoável delinquência quem suspenso escreve
sempre a ruir o interior da árvore desordenada.
Um ramo de escrita desabará em delito inqualificável:
ávida exaltação sem ressentimento nem confessionalidade.
Apenas sentes uma fraqueza na palavra
que vem antes do silêncio.
Tão discreto significado
que nada expõe em comunicação.
É a forma única em perfeita coreografia de escrita
revelando-se num movimento quebrado
em vertiginosas significâncias líricas.
10.
Dás à árvore da escrita um pensamento falhado e difuso
condenado ao uso desses deuses ténues que ainda desconheces
e que erodidos nos ramos da tua natureza
tornam-se o vazio pacificado da contemplação.
E ainda o rigor da atenção invertida:
imagem que nega o que está dentro da clareira inconsciente.
Árvore transitória crescendo depressa pela noite.
O que tu escreves senão a inquieta narração
a cair da árvore?
É o plano do silêncio a dominar as rotinas
e a justificar todos os recomeços.
Fernando Esteves Pinto
Fernando Esteves Pinto nasceu em Cascais. Vive em Faro.
Publicou, entre outros, Na Escrita e no Rosto (poesia) – Prémio Inasset Revelação de Poesia do Centro Nacional de Cultura; Conversas Terminais (romance) – Bolsa de Criação Literária pelo Ministério da Cultura; Brutal (romance); O Carteiro de Fernando Pessoa (romance); A Caverna de Deus (romance) – Prémio Literário Cidade de Almada; Humanidade (poesia); Arte Humana (poesia); Coreografias da Linguagem (poesia); Fuga Intempestiva (poesia); Um Estudo do Humano (poesia); Um Homem Parado na Esquina do Mundo (romance) – Prémio Literário Alves Redol; A Força Única – Escrever (crónicas).










