Cultura

Poemas | Fernando Esteves Pinto

Foto de Joanna Kosinska na Unsplash

Uma frase é pura enquanto está sozinha. 

A seguinte tira-lhe logo alguma coisa.

Edmond Jabès

1.

Experimentas uma realidade que seja só teoria 

como levar o pensamento ao génio de uma luz.

 

Mas aqui tens o trágico da filosofia: 

todo o mundo numa alucinação interior.

 

É um instante de evidência que permanece 

na antiguidade perpetuada na história.

 

Ou somente um problema isolado 

sujeito às últimas lições da tua vida.

2.

Assim também recuas da terra incógnita 

para este absoluto magnífico de existir 

no melhor sentido da dúvida.

 

Quebras o que existe de intermédio no teu ser 

situado entre problema e lonjura de conhecimento 

em rigor dilacerante e incerteza.

 

Acrescentarás ainda à tua história a coisa contínua 

pensada em experiência pura, e passiva.

 

Existirá uma proposição entre escrever tais coisas     

e um silêncio que exige de ti uma fala pacífica.

3.

Quase em forma de realidade mais rigorosa     

e seguindo a táctica da teoria sobreviva

em linguagem pensada:

 

procura o que existe no teu pensamento   

e dá mais impressão viva

a este objecto inadequado que se transfere na fala.

 

Assim também a matéria comporta assimilação   

e estudo humilde.

Estrutura primária e análise que te perscruta.

 

4.

Tudo o que domina o escrito na tua mente delapidada 

com a abstracção do tempo ampliando uma evidência.

 

São as teorias suprimidas das realidades   

paralisadas em coisas insituáveis.

 

Então a escrita responde com mais claridade recordativa  

e acolhe-se ao pensamento a palavra inconsciente

sem precipitações de lucidez.

 

Como uma fenda inofensiva que acompanha uma frase 

se escreveres no mais extenso dos abismos.

 

5.

Sentes o mais longo tempo da tua vida numa só palavra.

Eis o mundo nocturno em esforço de investigação 

que em plano mais fechado somente expressa a vida          

em profundidades graves e insondáveis.

 

Escrita que é para ti um peso que se tenta reformular – 

e validar, em densidade, o sentido suspenso.

 

Descobres então que toda a evidência

é um instante de outra realidade que se move 

na sua noção clássica de iludir.

6.

Aos deuses da psicologia devemos-lhes serenidade 

as palavras quotidianas que resolvemos escrever 

para demolir todas as sombras ou derrotas

e o temível vazio que nos espera na devastada memória.

 

Assim poderás extrair da escrita a singular leveza 

que a luz antecipa, mas também o incerto 

movimento do mundo e os seus signos redentores 

que turvam o pensamento mais distante

da inocente fala incontida.

 

7.

Os teus caminhos são as ficções 

de uma evidência sem significação.

 

Talento frágil e urbano vestígio

que se afeiçoa à mais pura linguagem 

ainda contemplando o sentido inteiro 

em inumana escuridão.

 

Então podes apontar o erro aos deuses construtores 

de alucinações em veloz pensamento.

 

Porque também um dia sentirás estas declinações de imagens 

e sentidos que já não respondem a nenhuma filosofia.

 

8.

Agora sentes uma febre descrita de pensar 

cuja densidade é uma fúria em torno da leitura 

acolhendo os clássicos.

 

Aqueles que fazem trágicos assaltos à tua cabeça.

 

Ou afinal é um inferno feliz num cenário 

onde o espírito contraluz esvaindo-se 

em confusas linguagens.

 

Tudo o que faz tombar a tua vida na pequena árvore 

da gramática inclemente

oferecendo-te temores e testemunhos

que a tua mente rememora em implicações

 e desvios profundos.

 

9.

Imperdoável delinquência quem suspenso escreve 

sempre a ruir o interior da árvore desordenada.

 

Um ramo de escrita desabará em delito inqualificável:

ávida exaltação sem ressentimento nem confessionalidade.

 

Apenas sentes uma fraqueza na palavra 

que vem antes do silêncio.

 

Tão discreto significado

que nada expõe em comunicação.

 

É a forma única em perfeita coreografia de escrita 

revelando-se num movimento quebrado

em vertiginosas significâncias líricas.

 

10.

Dás à árvore da escrita um pensamento falhado e difuso 

condenado ao uso desses deuses ténues que ainda desconheces  

e que erodidos nos ramos da tua natureza

tornam-se o vazio pacificado da contemplação.

 

E ainda o rigor da atenção invertida:

imagem que nega o que está dentro da clareira inconsciente. 

Árvore transitória crescendo depressa pela noite.

O que tu escreves senão a inquieta narração

 a cair da árvore?

 

É o plano do silêncio a dominar as rotinas 

e a justificar todos os recomeços.

 

Fernando Esteves Pinto

Fernando Esteves Pinto

 

Fernando Esteves Pinto nasceu em Cascais. Vive em Faro.

Publicou, entre outros, Na Escrita e no Rosto (poesia) – Prémio Inasset Revelação de Poesia do Centro Nacional de Cultura; Conversas Terminais (romance) – Bolsa de Criação Literária pelo Ministério da Cultura; Brutal (romance); O Carteiro de Fernando Pessoa (romance); A Caverna de Deus (romance) – Prémio Literário Cidade de Almada; Humanidade (poesia); Arte Humana (poesia); Coreografias da Linguagem (poesia); Fuga Intempestiva (poesia); Um Estudo do Humano (poesia); Um Homem Parado na Esquina do Mundo (romance) – Prémio Literário Alves Redol; A Força Única – Escrever (crónicas).

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